Pelo Mundo

Como Trump aconteceu

O apoio a Trump é baseado na raiva que vem da perda de confiança no governo. Mas as políticas propostas por ele fariam de uma situação piorasse.

17/10/2016 15:04

reprodução

Créditos da foto: reprodução

NOVA YORK – Eu viajei ao redor do mundo nas últimas semanas, e repetidamente me fizeram duas perguntas: é concebível que Donald Trump possa ganhar a presidência dos EUA? E como essa candidatura chegou tão longe em primeiro lugar?
 
Sobre a primeira pergunta, mesmo a previsão política sendo ainda mais difícil do que a previsão econômica, as chances estão em favor de Hillary Clinton. Ainda assim, o acirramento da corrida (ao menos até pouco tempo) foi um mistério: Clinton é a candidata à presidência mais qualificada e bem preparada que os EUA já tiveram, enquanto Trump é um dos menos qualificados e piores em preparo. Além disso, a campanha de Trump sobreviveu mesmo com seu comportamento, que já teria sepultado as chances de qualquer candidato no passado.
 
Então porque os norte-americanos estariam brincando de roleta russa? Os que estão fora dos EUA querem saber a resposta, porque o resultado também os afeta, mesmo não tendo influência sobre ele.
 
E isso nos leva à segunda questão: porque o Partido Republicano nomeou um candidato que até seu líder rejeitou?
 
Obviamente, muitos fatores ajudaram Trump a derrotar 16 desafiantes nas primárias para chegar tão longe. Personalidade importa, e algumas pessoas realmente parecem gostar do personagem de Trump no reality show.
 
Mas vários fatores também parecem ter contribuído para esse acirramento da corrida. Para início de conversa, muitos norte-americanos estão economicamente pior do que estavam a um quarto de século atrás. A renda média de assalariados homens em tempo integral é menor do que 42 anos atrás , e está cada vez mais difícil para aqueles com educação limitada de conseguirem empregos em tempo integral que paguem um salário decente.
 
De fato, salários reais (ajustados na inflação) na base da distribuição de renda não estão onde estavam 60 anos atrás. Então não é surpresa que Trump encontre uma audiência grande e receptiva quando diz que o estado da economia está apodrecido. Mas Trump está errado tanto no diagnóstico quanto na prescrição. A economia dos EUA como um todo se deu bem nas últimas seis décadas: o PIB aumentou quase 6x. Mas os frutos desse crescimento foram direcionados para alguns selecionados no topo – pessoas como Trump, devido, parcialmente, a grandes cortes de impostos que ele iria expandir e aprofundar.
 
Ao mesmo tempo, reformas que líderes políticos prometeram que assegurariam prosperidade para todos – como liberação financeira e do comércio – não foram entregues. Longe disso. E aqueles cujo padrão de vida estagnou ou decaiu chegaram a uma conclusão simples: os líderes políticos da América ou não sabem do que estão falando ou estão mentindo (ou ambos).
 
Trump quer culpar todos os problemas da América no comércio e na imigração. Ele está errado. Os EUA teriam enfrentado a desindustrialização mesmo sem um comércio mais livre: o emprego global em manufatura tem estado em declínio, com ganhos de produtividade excedendo crescimento de demanda.
 
Onde os acordos de comércio falharam, não foi porque os EUA foram passados pra trás pelos seus parceiros de comércio; foi porque a agenda comercial dos EUA foi montada por interesses corporativos. As companhias norte-americanas se deram bem, e são os Republicanos que bloquearam esforços para assegurar que os norte-americanos que não se deram bem nos acordos iriam partilhar dos benefícios.
 
Portanto, muitos norte-americanos se sentem traídos por forças fora do seu controle, levando a resultados que são injustos. Presunções de longo-prazo – que a América do Norte é a terra da oportunidade e que cada geração será melhor que a passada – foram postas em questionamento. A crise financeira global pode ter representado um ponto crítico para muitos eleitores: seu governo salvou os banqueiros ricos que quase arruinaram o país, enquanto não fez quase nada pelos milhões de cidadãos comuns que perderam seus empregos e casas. O sistema não somente produziu resultados injustos, mas pareceu equipado para fazê-lo.
 
O apoio a Trump é baseado, ao menos parcialmente, na raiva disseminada que vem dessa perda de confiança no governo. Mas as políticas propostas por ele fariam de uma situação ruim, ser ainda pior. Claro, outra dose economia do tipo que ele promete, com corte de impostos mirado quase inteiramente nos cidadãos ricos e nas corporações, produziria resultados nada melhores do que da última vez.
 
Na realidade, lançar uma guerra comercial com a China, México e outros parceiros comerciais dos EUA, como promete Trump, deixaria todos os cidadãos mais pobres e criaria novos impedimentos à cooperação global necessária para cutucar os problemas globais críticos como o Estado Islâmico, o terrorismo global e a mudança climática. Usar dinheiro que poderia ser investido em tecnologia, educação ou infraestrutura para construir um muro entre os EUA e o México, é um troféu em termos de gasto inútil de recursos.
 
Existem duas mensagens que as elites políticas dos EUA deveriam estar ouvindo. As teorias fundamentalistas simplistas do mercado neoliberal que moldaram tantas políticas econômicas durante as últimas quatro décadas são enganosas, com o crescimento do PIB vindo às custas de uma desigualdade alarmante. Economia de redistribuição não tem e não irá funcionar. Os mercados não existem em um vácuo. A “revolução” Thatcher-Reagan, que reescreveu as regras e reestruturou o mercado para o benefício do topo, teve êxito em aumentar a desigualdade, mas falhou em sua missão de aumentar o crescimento.
 
Isso nos leva à segunda mensagem: precisamos reescrever as regras da economia novamente, dessa vez para garantir que os cidadãos comuns se beneficiem. Os políticos nos EUA e em qualquer lugar que ignoram essa lição serão responsabilizados. O risco é inerente à mudança. Mas o fenômeno Trump – e mais alguns desenvolvimentos políticos similares na Europa – revelou os piores riscos da falha em dar atenção à essa mensagem: a divisão de sociedades, as democracias menosprezadas e as economias enfraquecidas.
 



Conteúdo Relacionado