Pelo Mundo

Como a ICE se tornou uma ''máquina de propaganda'' para Trump

Diálogos internos obtidos exclusivamente pelo The Nation mostram como a ICE selecionou jornalistas e usuários das redes sociais para retaliação

22/10/2020 12:07

(ICE via Twitter)

Créditos da foto: (ICE via Twitter)

 
Em junho de 2018, Talia Lavin, então “fact-checker” (verificadora de fatos) do The New Yorker, se encontrou em uma situação incomum para uma jornalista: ela se tornou alvo de uma agência do governo. Ela estava sendo vigiada pelo escritório de Relações Públicas da ICE, a face pública da agência que teve um papel central na repressão contra migrantes sem documentos. Esse papel estava concedendo à agência a ira de um movimento em ascensão, englobando uma gama de opositores desde grupos de fé até membros do Congresso. Um grupo ativista judaico, Never Again Action, chegou ao ponto de estabelecer paralelos entre as péssimas condições nos centros de detenção da ICE com os campos de concentração do Holocausto. Quando Lavin viu um tuíte da ICE com um de seus oficiais, Justin Gaertner, com uma tatuagem em forma de cruz, ela se perguntou se era a Cruz de Ferro familiar à iconografia nazista. Ela fez um tuíte comparando ambas. Quando as pessoas começaram a apontar que poderia ser outro símbolo, como a cruz de malta, Lavin prontamente removeu o tuíte. Mas já era tarde demais.

No dia seguinte, a ICE revidou. Divulgou uma nota à imprensa, postada em uma thread no Twitter, mencionando Lavin pelo nome. A declaração acusava Lavin de “difamar um herói estadunidense sem base nenhuma”, que foi descrito como um veterano da marinha ferido em combate que teve ambas as pernas amputadas, e exigiu um pedido de desculpas e retratação tanto dela quanto de seu empregador. Lavin reconheceu que cometeu um erro, ainda assim, a questão que ela levantou não era absurda; até mesmo o FBI alertou da presença de supremacistas brancos em escalões das forças de segurança dos EUA. Mas Gaertner se tornou rapidamente causa célebre para muitos na direita.

Quase imediatamente, Lavin recebeu uma enchente de mensagens abusivas, incluindo xingamentos misóginos e anti-semitas. O website neonazista The Daily Stormer publicou um artigo entitulado “Fat K—e Fact Checker nojenta; Talia Lavin confunde tatuagem militar de herói de guerra com ‘símbolo neonazista’”. O agitador de direita Milo Yiannopolous usou o Paypal para enviar $14.88 dólares - estenografia de extrema direita que combina slogan supremacista, as “14 palavras”, com o código “Heil Hitler” – uma ação que rendeu uma suspensão de conta pelo Paypal. A resposta furiosa somente cresceu após Laura Ingraham da Fox News transmitir um segmento referindo-se ao ocorrido, chamando Lavin e a outra repórter, Lauren Duca, de “jornalistazinhas terroristas”, e exigir que Lavin fosse demitida. Dentro de alguns dias, Lavin não somente se desculpou; ela pediu demissão da sua posição no New Yorker, onde ela estava trabalhando há três anos. Hoje, ela é jornalista freelancer.

“Essa é a minha história de origem sobre como comecei a fazer reportagens sobre a extrema-direita”, Lavin me disse. Agora, ela escreveu um livro sobre o assunto. Lavin não concorda com a afirmação da ICE de que ela havia “perpetuado” alegações prejudiciais sobre a tatuagem de Gaetner, apontado para o fato de que ela deletou o tuíte tão rapidamente que não permaneceu nenhuma cópia. “Eu caí de cara em um tonel de veneno reforçado por uma mentira”, ela disse.

Em agosto de 2019, eu entrei com um pedido com base na Lei Liberdade de Informação (FOIA) para descobrir mais sobre o que havia acontecido nos bastidores. Depois de um processo kafkaniano no qual a ICE direcionou o meu pedido ao departamento errado e não respondeu em 30 dias como exigido, eu processei a agência em um tribunal federal. (Lavin é co-litigante no caso, tendo assinado uma autorização para que documentos que pertencem a ela possam ser divulgados para mim). Em outubro, a ICE finalmente produziu documentos em resposta ao meu pedido. Mas minha advogada, Beth Bourdon, ficou furiosa com o tanto que a agência havia omitido ou censurado registros que eram claramente sujeitos à divulgação.

“Eu espero que as forças de segurança tenham uma visão liberal do que é qualificado como censura ao preparar documentos para divulgação sob a lei FOIA”, disse Bourdon, que entrou com o processo em meu nome na Flórida. “Mas o claro abuso de omissões e o absurdo resultante das censuras nos registros que a ICE produziu eram impressionantes e enfurecedoras.”

Depois de meses de negociações adicionais, finalmente conseguimos documentos menos censurados. Eles mostram uma atmosfera profundamente politizada e, por vezes, paranoica, impregnado com a retórica recente do presidente Trump que afirma haver uma “guerra contra a polícia”. Em um momento, os documentos revelam oficiais de alto escalão da ICE trabalhando juntos para despachar agentes federais para responder ao que parecer ser um único tuíte de mau gosto, sobre o qual eles também divulgaram um relatório de inteligência.

De início, a ICE tentou destacar Gaertner do melhor jeito possível. Como mostra um dos e-mails liberados para nós, Jennifer Elzea, secretária de imprensa da ICE escreveu em 18 de junho, “estou esperando o slogan do (nome censurado) para que possamos fazer alguma coisa sobre o honrado serviço dele (de Gaernet)”.

Mas a ICE estava tramando mais do que uma conferência de imprensa. Os documentos obtidos pela FOIA revelam que o escritório de Relações Públicas da ICE alertou a liderança de uma das divisões de forças de segurança federais da ICE, a Investigações de Segurança Interna (HSI), sobre o que afirmou ser uma ameaça legítima à vida de Gaertner. Um e-mail de uma fonte censurada diz, “para a sua informação, Justin me disse que ele e sua família se sentem inseguros e ameaçados por causa de todas as ameaças nas redes sociais. Eu informei a SAC e a liderança”.

O único tal tuíte descrito na correspondência foi, sem dúvidas, mal intencionado, ele lê, “se o Justin trabalha para a ICE, eu queria que quem o machucou em combate tivesse terminado o trabalho”. Não parece, no entanto, com uma ameaça. Independentemente, a ICE levou adiante, com sua diretora assistente de Relações Públicas, Liz Johnson, notificando o diretor vigente Thomas Homan, junto com o chefe da HSI, “infelizmente, esse funcionário e sua família já estavam lidando com alguns desafios pessoais, que agora estão sendo agravados por mensagens ameaçadoras que estão sendo vistas online. A POR e a HSI estão coordenando esforços para fornecer apoio a ele”.

“A HSI Tampa analisará cuidadosamente as ameaças feitas pelo Twitter e tomará a atitude apropriada”, respondeu um oficial da HSI. “A HSI irá submeter um SIR [relatório de incidente significativo] brevemente.”

Incrivelmente, essa cadeia de eventos foi posta em movimento por um tuíte que a ICE pode nunca ter visto. Quando questionada sobre o tuíte original de Lavin, Jennifer Elza respondeu, “eu não tenho em mãos, mas verei se consigo localizá-lo. Eu tenho o tuíte em que ela menciona tê-lo apagado”.

Enquanto é normal que escritórios de Relações Públicas do governo promovam a missão e política da agência, eles raramente selecionam pessoas físicas – especialmente jornalistas. Boletins de imprensa tipicamente adotam um tom formal, talvez devido às camadas de supervisão legal que são forçados a respeitar, particularmente em relação a assuntos considerados politicamente sensíveis. Essa supervisão tornaria improvável os tuítes da ICE sobre Lavin não terem ao menos passado pelas mesas de oficiais do alto escalão.

“É certamente incomum e nada profissional... O tuíte definitivamente não é um produto típico do escritório de Relações Públicas”, disse James Schwab, ex-agente das Relações Públicas da ICE, sobre o boletim à imprensa da agência. Schwab serviu como oficial de Relações Públicas da ICE desde a administração Obama, pedindo demissão em 2018 por causa do que ele considerou uma guinada extremamente política dentro da agência. “Foi horrível”, ele me disse. “Não eram mais relações públicas. Estava se tornando uma máquina de propaganda.”

De acordo com Schwab, o incidente pode envolver uma hierarquia política tácita dentro do governo federal. “A ICE é a agência mais alinhada com o presidente e sua administração”, ele disse. “Esses tipos de declarações da ICE são frequentemente elaboradas ou altamente influenciadas por apontados presidenciais na sede da ICE.”

Schwab explicou que durante seu período na administração Trump, “declarações que chamariam muita atenção eram aprovadas pela sede da ICE, então encaminhadas para um porta voz do DHS para aprovação. Muitas vezes essa aprovação incluía feedbacks da Casa Branca, especificamente de Stephen Miller”.

Miller é conselheiro sênior de Trump que despontou como defensor importante de políticas imigratórias duras dentro da administração. Miller foi arquiteto do banimento de viagens, da política de separação familiar (sob a qual crianças sem documentação são separadas de seus pais), e do ataque contra o número de refugiados aceitos pelos EUA. Enquanto os documentos obtidos pelo The Nation não mencionam Miller ou qualquer outro oficial da Casa Branca, Schwab salientou que a ICE é cuidadosa e não registra certas coisas por escrito.

“A ICE é conhecida por deixar as coisas fora dos e-mails”, disse Schwab. Essa prática pode ter permeado por todo o DHS. Em 2018, o Buzzfeed News reportou que o então secretário do DHS John Kelly instruiu um oficial a evitar eternizar seu trabalho na forma de e-mails, dizendo, “a FOIA é real e diária aqui na fossa, e até ações do tribunal federal contra contas pessoais são reais”. (Ironicamente, o BuzzFeed obteve esse comentário em resposta a um processo da FOIA).

Mesmo com o apoio do topo, a paranoia tomou conta da ICE. Como eu reportei no ano passado, a ICE suplementou suas atividades comuns com a “Operação Escudo Congelado”, uma série de medidas de segurança reforçadas para proteger contra ameaças como atiradores em atividade. A operação veio em resposta ao que o então secretário Kevin McAleenan descreveu em um memorando como “uma tendência de violência contra agentes da ICE”, fazendo referência a dois exemplos: um ataque armado a uma instituição da ICE em Tacoma, Wash., e outro em San Antonio, Texas (nenhum funcionário da ICE foi ferido).

Em junho desse ano, eu reportei que a administração Trump havia silenciosamente garantido maiores privilégios de confidencialidade à ICE sob uma designação especial de “Agência de Segurança”. A designação, tipicamente reservada para agências engajadas em trabalhos altamente sensíveis como o FBI e a CIA, permite que a ICE omita do olhar público características de identificação de funcionários, incluindo nome, trabalho, título, e informações salariais. Essa designação se aplica não apenas a agentes nas ruas, mas também a todo o pessoal da ICE. A Agência de Proteção de Fronteira e Alfândega (CBP), irmã da ICE, obteve a mesma designação e, como reportado em fevereiro, um memorando da agência cita como justificativa um único usuário do Twitter que, segundo ela, estava postando informações publicamente disponíveis sobre oficiais da ICE e da CBP.

“No último verão, a CBP e o DHS tomaram conhecimento de um usuário do Twitter que postava informações confidenciadas aos funcionários comumente encontradas nas divulgações do Governo Aberto de informações salariais de funcionários federais emitidas pelo escritório de gerência de funcionários”, declarou o memorando. “A informação postada no Twitter foi considerada pelo OPM como sendo informação pública, e está disponível por meio de diversos sites de busca de dados sobre salários de funcionários federais. Esse é somente um dos muitos exemplos que mostraram o quanto a divulgação de informações de funcionários da CBP foi prejudicial.”

Ao longo do meu processo por meio da FOIA, o Departamento de Justiça repetidamente adiou nossas tentativas de obter nomes de funcionários envolvidos. Na época em que escrevo esse texto, ainda estamos batalhando no tribunal para que a ICE divulgue mais nomes envolvidos na correspondência.

A segurança dos funcionários pode não ter sido o único motivo da ICE aqui. Em um anexo de e-mail intitulado “o poder das redes sociais”, a ICE descreve o sucesso viral dos seus tuítes sobre Lavin. “Uma ‘verificadora de fatos’ do New Yorker compartilhou uma foto de um funcionário da ICE que ela encontrou no Twitter da ICE e falsamente o acusou de ter uma tatuagem nazista”, o texto reconta. “Isso resultou em uma falsa narrativa sendo espalhada rapidamente pelas redes sociais.” Mas o documento se orgulha da visibilidade da resposta da ICE, notando que “aproximadamente 2.8 milhões de usuários viram a thread no Twitter”. Ainda menciona vários tuítes virais da conta da ICE. Aqueles sobre Lavin eram os mais viralizados.

https://www.thenation.com/article/society/ice-propaganda-social-media/



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