Pelo Mundo

Como a direita usa a Venezuela para reorganizar a política

A ala social-democrata do Partido Democrata americano precisa promover uma contranarrativa convincente

29/01/2019 14:30

Manifestantes ouvem discurso do autoproclamado presidente interino Juan Guaidó em Caracas, em 26 de janeiro (AP/DPA/Rafael Hernandez)

Créditos da foto: Manifestantes ouvem discurso do autoproclamado presidente interino Juan Guaidó em Caracas, em 26 de janeiro (AP/DPA/Rafael Hernandez)

 

Faz algum tempo que Donald Trump está louco pela Venezuela. No verão de 2017, Trump, citando a invasão de George W. Bush do Panamá, de 1989 a 1990, como um precedente positivo, pressionou repetidamente sua equipe de segurança nacional a lançar um ataque militar ao país atormentado pela crise. Trump estava falando sério. Ele queria saber por que os Estados Unidos não poderiam simplesmente invadir a Venezuela?Ele levantava a ideia a cada reunião.

Seus conselheiros militares e civis, juntamente com líderes estrangeiros, descartaram a ideia vigorosamente. Então, de acordo com a NBC, ele terceirizou a política da Venezuela para o senador Marco Rubio, que, junto com o conselheiro de segurança nacional John Bolton e o secretário de Estado Mike Pompeo, começou a trabalhar coordenadamente com a oposição venezuelana. Na terça-feira passada, o vice-presidente Mike Pence fez um apelo aos venezuelanos para que se levantem e derrubem o presidente do país, Nicolás Maduro. Na quarta-feira, o chefe da Assembleia Nacional, controlada pela oposição, o até então desconhecido Juan Guaidó, de 35 anos (cujo padrinho político é, de acordo com o Washington Post, Leopoldo López, líder da direita hoje preso), declarou-se presidente. Guaidó foi rapidamente reconhecido por Washington, em seguida pelo Canadá; por vários países latino-americanos poderosos, como o Brasil, a Argentina e a Colômbia; e pelo Reino Unido.

Trump tem um senso de história capenga, mas seu instinto de ver a Venezuela pelo prisma do Panamá está evidente. Assim como o Panamá na época, a Venezuela é hoje atravessa uma longa e aparentemente insuperável crise, é governada por um regime desafiado por uma oposição unida (ou suficientemente unida), o que Washington pode usar para justificar a intervenção e, uma vez a intervenção concluída, instalar-se no poder.

E Trump, em relação à Venezuela, não está fazendo mais do que fizeram George H.W. Bush ou Ronald Reagan antes dele, que usaram uma guerra singular no “quintal” de Washington para reorganizar a política interna e internacional. A América Latina e o Caribe são, há muito tempo, laboratórios de Washington, especialmente úteis como um lugar onde coalizões políticas em ascensão podem se reagrupar após momentos de crise global, onde podem não apenas ensaiar estratégias militares e de desestabilização, mas também afinar sua visão de mundo e elaborar justificativas morais para uma intervenção.

A invasão de Granada, em 1983, por Reagan recebeu elogios de muitos democratas, que comemoraram a superação não apenas do trauma da Guerra do Vietnã, mas da síndrome de refém do Irã. Um colunista, antecipando a transformação da política em reality show, disse que a invasão deu à "televisão americana" uma de suas "melhores semanas". O líder democrata da Câmara, Tip O'Neill, chamou a invasão de "justificada", assim como o também democrata Thomas Foley, outro duro crítico de Reagan,. "Anos de frustração foram descarregados pela invasão de Granada", disse o democrata Robert Torricelli, de Nova Jersey. A invasão de Bush no Panamá deu à televisão uma semana ainda melhor, e rendeu os mesmos tipos de elogios internos. Ambas as invasões, especialmente a do Panamá, ajudaram a corroer o princípio da não intervenção – a fundação da ordem diplomática do New Deal – e a restaurar na lei internacional a premissa de que os Estados Unidos têm o direito de travar guerras em países soberanos não apenas em nome da segurança nacional, mas por um propósito moral mais elevado, como a proteção de vidas ou a defesa dos direitos humanos.

Parece claro que Trump, ele próprio presidindo uma nação que sofre uma crise aparentemente intransponível, e desafiado por uma oposição unida (ou suficientemente unida), está desesperado por algo capaz de romper o impasse. Uma análise rápida da conjuntura revela que há muito poucas oportunidades. O Irã é muito arriscado, por enquanto, e seus predecessores já atormentaram suficientemente o que resta do Oriente Médio e do Golfo Pérsico. A Venezuela parece bem mais atraente.

Estamos vendo mais ou menos o mesmo tipo de união que se testemunhou nas vésperas da invasão ao Panamá e ao Iraque. "Quanto à Venezuela, onde estão os liberais?", lamentou a manchete de uma coluna do New York Times de Bret Stephens no ano passado. Eles estão com você, Bret. O deputado Eliot Engel, que preside o Comitê de Relações Exteriores da Câmara, apóia a posição de Donald Trump na Venezuela, e promete que vai apresentar leis nesse sentido, e é apoiado pela representante democrata da Flórida Donna Shalala. A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, tuitou: “Os EUA defendem o povo da #Venezuela que se levanta contra o governo autoritário e exige respeito aos direitos humanos e à democracia.” Na Flórida, Andrew Gillum, que perdeu por pouco a disputa ao governo para um direitista trumpiano (e que foi chamado de counista durante a campanha e associado por Trump a Maduro), também tuitou expressando seu apoio à política de Trump para a Venezuela. A cobertura da NPR era aduladora. “Esta é a decisão certa. Obrigado, senhor presidente”, tuitou Jeb Bush.

Por sua vez, a maior parte da crescente ala social-democrata do Partido Democrata demorou a responder. O representante da Califórnia, Ro Khanna, foi talvez o primeiro congressista à esquerda a criticar a proposta de mudança de regime, e o fez com a mesma ênfase que demonstrou mais tarde o candidato à presidência e representante do Havaí, Tulsi Gabbard. Bernie Sanders reagiu de forma frustrante, aceitando a premissa da intervenção de Trump, de que a presidência de Maduro era ilegítima, antes de observar que os Estados Unidos “têm uma longa história de intervenção inadequada nos países latino-americanos; não devemos trilhar esse caminho novamente”. A resposta de Alexandria Ocasio-Cortez também foi suavizada.

A congressista democrata de Minnesota, Ilhan Omar, deu a declaração mais forte: “Não podemos escolher líderes para outros países em nome de interesses corporativos multinacionais”, disse ela. "Se realmente queremos apoiar o povo venezuelano, podemos derrubar as sanções econômicas que infligem sofrimento a famílias inocentes, dificultando seu acesso a alimentos e remédios e aprofundando a crise econômica”. Essas sanções contaram com considerável apoio do Partido Democrata.

Maduro, ex-vice-presidente do falecido Hugo Chávez, que venceu uma eleição presidencial apertada em 2013 e uma reeleição controversa em 2018, pode cair: a coordenação – detalhada no The Wall Street Journal – entre a oposição e a Casa Branca é impressionante, assim como a capacidade de Washington de angariar apoio internacional. É diferente de 1989, quando todos os países da Organização dos Estados Americanos, incluindo o Chile de Pinochet, se opuseram à invasão de Bush. Ou de 1983, quando, diante da oposição da OEA, o governo Reagan precisou invocar obrigações de tratados com a microscópica Organização dos Estados do Caribe Oriental para justificar o ataque a Granada. Na Venezuela, ao contrário de protestos passados da oposição, pessoas pobres de bairros historicamente chavistas parecem estar se juntando às manifestações para derrubar Maduro (Rebecca Hanson e Tim Gill, do NACLA, fazem um bom levantamento da situação atual).

Mas os militares da Venezuela, que incluem pelo menos 235 mil soldados e têm o apoio de pelo menos um milhão e meio de membros de milícias pró-governo, estão do lado de Maduro. Manifestações para defender o governo parecem ter diminuído, mas ainda contam com um número significativo de pessoas. Mais de uma dezena de pessoas foram mortas, mas o principal eixo de confronto está se movendo rapidamente das ruas para a arena diplomática. De acordo com o The Guardian, “os EUA inicialmente ignoraram a decisão do governo de Maduro de expulsar o corpo diplomático, mas na noite de quinta-feira o departamento de estado anunciou que estava retirando 'funcionários não emergenciais do governo dos EUA'”.

Trata-se de um golpe de tela dividida, com duas realidades paralelas. De um lado, um presidente sentado no palácio presidencial, ainda no controle da maioria das camadas do governo, incluindo as forças armadas e policiais, reconhecido como legítimo, entre outros países, pela China, Rússia e México. Do outro lado está um presidente alternativo, supostamente instalado na embaixada colombiana, prometendo anistias e emitindo decretos virtuais com validade para talvez metade da população, e talvez uma dúzia de nações, lideradas por Brasil, Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá. Mas não a União Europeia. “Todas as opções estão na mesa”, diz Trump, ameaçando uma resposta militar. Mas há uma sensação emergente de que, com o empenho militar da Venezuela, ele pode ter perdido sua aposta. O Brasil, hoje liderado pelo homofóbico, entusiasta de genocídios e de ameaças de estupros Jair Bolsonaro, disseque não vai participar de uma intervenção militar. “Acho que o governo [Trump] não avaliou todas as consequências ao reconhecer Guaidó agir tão rapidamente”, disse Roberta Jacobson, que foi conselheira assistente para a América Latina de Barack Obama e, por um tempo, de Trump (posto que hoje está vago).

Aconteça o que acontecer, está claro que a ala esquerda do Partido Democrata precisa afiar seu discurso de resposta à crise, para descobrir uma maneira de usar esses momentos para apresentar uma contranarrativa convincente ao establishment bipartidário de política externa. Não muito tempo atrás, apareceu, nas páginas de jornais e revistas, uma série de artigos se perguntando como seria uma política externa de esquerda. "Onde está a política externa da esquerda?",perguntava o título de um artigo de Sarah Jones no ano passado na revista The New Republic. Na esteira do colapso financeiro de 2008, surgiu uma nova geração de especialistas apresentando caminhos específicos, práticos e viáveis para alcançar, digamos, o Medicare para todos, ou implementar uma estrutura tributária progressiva e uma Renda Básica Universal. Mas, como Jones e outros apontaram, a política externa foi amplamente ignorada.

Alguns tentaram preencher o vazio. Ofereceram propostas específicas para temas complicados, como o conflito israelo-palestino, a guerra saudita no Iêmen, a China, o comércio exterior e a Rússia, ou apresentaram “princípios” amplos – incluindo, como Daniel Bessner, estudioso da política externa americana, escreveu no The New York Times, “transparência”, “antimilitarismo”, “deflação de ameaça” e um “internacionalismo” social-democrata. Se Ocasio-Cortez um dia tiver assento no Comitê de Relações Exteriores da Câmara, eles podem apoiar sua tentativa de forjar uma política externa de esquerda. Somadas, as propostas e os princípios oferecidos pelos conselheiros social-democratas em política externa são bons e decentes.

Mas a tentativa de golpe de Trump na Venezuela revela que a política externa é um campo muito mais volátil da ação política, uma arena mais primária do que a política interna em termos de identidade nacional e imaginação coletiva. Pelo menos desde os primeiros anos do governo de Barack Obama, o Partido Republicano vem usando a Venezuela para dar coerência a seu discurso, que une um racismo implícito e uma defesa explícita dos direitos individuais e da liberdade capitalista. O golpe de 2009 em Honduras deu à direita uma oportunidade de usar a hesitação inicial de Obama sobre o golpe para sustentar uma narrativa que igualava Obama a Hugo Chávez e Fidel Castro, uma narrativa que Trump utilizou de maneira eficaz. "Eles querem nos transformar na Venezuela", disseTrump recentemente. À medida que os direitos sociais – à saúde, à educação, a uma vida digna – ganham popularidade, a direita vem burilando a resposta “mas a Venezuela”. Ao fazê-lo, expressa uma visão de mundo inteiramente coerente. Ocasio-Cortez, dizem os republicanos, está decidida a transformar os americanos em “socialistas venezuelanos” (apesar de Chris Cuomo, para surpresa geral, ter recentementeressurgido de forma surpreendentemente eficaz).

É compreensível que a resposta de Sanders e Ocasio-Cortez ao golpe de Trump tenha sido contida. É difícil defender o governo de Maduro, exceto de forma abstrata – com base no princípio de soberania e não intervenção – e a abstração é um campo difícil para um discurso político confiável. Há uma tensão profunda e insuperável entre o ideal da autodeterminação nacional e o ideal de que a dignidade humana não deve ser submetida à autodeterminação nacional. E os democratas de esquerda querem manter o foco do debate político na política interna: impostos mais justos, Medicare para todos, e um New Deal Verde já são, no contexto da horrenda política interna dos EUA, uma luta grande o bastante.

Mas uma coalizão política não pode dominar o debate político interno a menos que também domine o debate sobre política externa. Meu exemplo favorito é quando Michael Dukakis, candidato democrata à presidência em 1988, tentou faturar em cima do caso Irã-Contras. E não conseguiu. Depois de levantar a questão em um de seus debates com George W. Bush, Bush respondeu como quem espanta uma mosca: "Levo toda a culpa" pelo Irã-Contras, disse Bush, "se você me der metade do crédito por todas as coisas boas feitas pela paz mundial desde que Ronald Reagan e eu assumimos, após o governo Carter”. Dukakis nunca mais levantou o tema.

O terreno político mudou e, o que quer que aconteça na Venezuela, Trump não poderá usar a política externa com o mesmo efeito. Mas se a ala social-democrata do Partido Democrata quiser não apenas reagir a uma agenda existente, mas estabelecer uma nova agenda, precisará perceber até que ponto a política externa é o espaço onde, em termos gramscianos, a hegemonia é estabelecida – não sobre outras nações, mas dentro desta nação; onde idéias normativas sobre a melhor forma de organizar a sociedade são trabalhadas; onde contradições – entre ideias, interesses, grupos sociais – se  reconciliam. Essa reconciliação não se dá por meio de uma lista de políticas pragmáticas, mas pela apropriação do campo ideológico.

Como revelam os acontecimentos na Venezuela, esse campo está em disputa – embora Ilhan Omar já tenha nos dado o mapa para conquistá-lo.

Greg Grandin é membro do conselho editorial da The Nation e professor de história da New York University. É autor de The Blood of Guatemala, The Last Colonial Massacre, e de The End of the Myth: From the Frontier to the Border Wall in the Mind of America, que sera lançado no fim deste semestre nos EUA.

*Publicado originalmente em thenation.com | Tradução de Clarisse Meireles


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