Pelo Mundo

Como bilionários norte-americanos estão alimentando a causa da extrema direita na Grã-Bretanha

O fato de a revista Spiked ter recebido 300 mil dólares da Fundação Charles Koch sugere interesses ocultos

10/01/2019 19:13

'Dizer que estão fora do radar é pouco. Eles estão no subterrâneo', disse David Koch em cúpula a Americans for Prosperity, em 2015 (Paul Vernon/AP)

Créditos da foto: 'Dizer que estão fora do radar é pouco. Eles estão no subterrâneo', disse David Koch em cúpula a Americans for Prosperity, em 2015 (Paul Vernon/AP)

 
Investimentos sem transparência estão entre as maiores ameaças atuais à democracia. Trata-se de quantias gastas sem escrutínio público, em busca de certos objetivos políticos. É o que permite que pessoas muito ricas e corporações influenciem a política sem aparecer.

Entre os maiores investidores políticos do mundo estão Charles e David Koch, coproprietários da Koch Industries, vasto conglomerado privado de oleodutos e refinarias, produtos químicos, empresas de madeira e papel, empresas de comércio de commodities e fazendas de gado. Se as duas fortunas fossem somadas, “Charles David Koch” seria o homem mais rico da Terra, com 120 bilhões de dólares.

Em rara declaração pública, num ensaio publicado em 1978, Charles Koch explicava seu objetivo. "Nosso movimento deve destruir o paradigma estatista predominante". Como Jane Mayer registrou em seu livro Dark Money, a ideologia dos Koch – impostos mais baixos e menos regulamentação – e seus interesses comerciais "se encaixavam tão perfeitamente que era difícil distinguir um do outro". Ao longo dos anos, observa Mayer, “a empresa estabeleceu um histórico impressionante de desonestidade corporativa”. A Koch Industries pagou multas pesadas por vazamentos de petróleo, emissões ilegais de benzeno e poluição por amônia. Em 1999, um júri descobriu que as Indústrias Koch haviam usado um oleoduto sabidamente corroído para transportar butano, causando uma explosão e a morte de duas pessoas. O filme Company Town, lançado no ano passado, conta a história da longa luta da população local contra a poluição causada por uma enorme fábrica de papel dos irmãos Koch.

O principal tenente político dos Koch, Richard Fink, desenvolveu o que ele chamou de um modelo de mudança social em três estágios. As universidades produziriam “as matérias-primas intelectuais”. Thinktanks dariam-lhes “uma forma mais prática ou utilizável”. Então, grupos de "ativistas cidadãos" fariam pressão pela implementação da mudança de políticas. Para esses fins, os Koch criaram organizações em todas as três categorias, como o Mercatus Center da George Mason University, o Cato Institute e o “grupo da sociedade civilcidadãos”Americans for Prosperity. Mas, quase sempre, financiavam organizações existentes que atendiam aos seus critérios. Despejaram centenas de milhões de dólares em uma rede de departamentos acadêmicos, thinktanks, jornais e movimentos. E parecem ter alcançado grande sucesso.

Como descobriram pesquisadores das universidades de Harvard e Columbia, o grupo Americans for Prosperity hoje rivaliza com o Partido Republicano em termos de tamanho, pessoal e capacidade organizacional. A organização puxou "o Partido Republicano para a extrema direita em questões econômicas, fiscais e regulatórias". Foi crucial para o sucesso do movimento Tea Party, a destituição de democratas do Congresso e a escolha da equipe de transição de Trump. A rede Koch ajudou a garantir enormes cortes de impostos, a destruição dos sindicatos e o desmantelamento da legislação ambiental.

Mas suas digitais permanecem invisíveis na maior parte do tempo. Um consultor republicano que trabalhou para Charles e David Koch disse a Mayer que “dizer que estão fora do radar é pouco. Eles estão no subterrâneo”.

Até agora, não há evidências de que Charles e David Koch tenham financiado organizações no Reino Unido. Mas algumas semanas atrás, um leitor me apontou uma frase que encontrou em um formulário enviado ao governo dos EUA pela Fundação Charles Koch, que mostrava uma transferência em dinheiro para uma empresa que parece ser o braço financeiro norte-americano de uma organização britânica. Depois de entender o que significava, dei início a uma colaboração com o grupo investigativo DeSmog UK. Mal podíamos acreditar no que víamos.

A organização que a Fundação Charles Koch escolheu financiar é, à primeira vista, surpreendente: uma organização norte-americana criada por uma revista obscura sediada no Reino Unido e dirigida por ex-membros de um grupo dissidente trotskista. Alguns de seus principais colaboradores ainda se descrevem como marxistas ou bolcheviques. Mas olhando com calma, as doações de Koch parecem fazer sentido. O nome da revista é Spiked. Surgiu de um grupo com uma história engraçada sobre as dissidências da esquerda. Em 1974, o grupoInternational Socialists rachou devido a uma disputa sobre aritmética no Volume 3 de O Capital. Uma das novas facções formou o Grupo Comunista Revolucionário. Em 1976, este se dividiu novamente e uma das partes formou a Tendência Comunista Revolucionária. Foi liderada por um sociólogo da Universidade de Kent chamado Frank Furedi. Em 1981, seu nome mudou para Partido Comunista Revolucionário.

Em 1988, o partido lançou uma revista chamada Living Marxism (que se tornou mais tarde só LM). Havia então abandonado muitas de suas antigas convicções. Entre os poucos traços discerníveis de seu passado revolucionário, havia um entusiasmo pelos ex-comunistas nos Bálcãs, como Slobodan Miloševi%u007. Em 2000, fechou após perder um processo por difamação: afirmou falsamente que a ITN (gigante da mídia eletrônica britânica) havia inventado provas de atrocidades sérvias contra os muçulmanos bósnios. Mas assim que a revista quebrou, uma rede de novos grupos surgiu para substituí-la, com o mesmo elenco de personagens - Furedi, Claire Fox, Mick Hume, Brendan O’Neill, James Heartfield, Michael Fitzpatrick e James Woudhuysen. Entre essas organizações estavam o Institute of Ideas, a Academy of Ideas, o Manifesto Club e uma nova revista, Spiked - com o mesmo editor que a LM (Hume) e a maioria dos antigos colaboradores.

Encontramos três pagamentos da Fundação Charles Koch à revista nos últimos dois anos. Eles somam 170 mil dólares, destinados ao “suporte operacional geral”. Os pagamentos foram feitos para a Spiked US Inc. Na página de doações da Spiked há um botão que diz "Nos EUA? Doe aqui”. Ele leva ao link do PayPal para "Spiked US, Inc". Em outras palavras, a Spiked US parece ser seu braço de financiamento nos EUA. Além de um endereço postal em Hoboken, Nova Jersey, é difícil ver alguma presença da Spiked nos EUA. Parece ter sido criada em 2016, ano das primeiras doações dos Koch.

Quando perguntei à Spiked a que se destinava o dinheiro e se havia outros pagamentos, a editora-executiva Viv Regan disse que a Fundação Charles Koch deu 300 mil dólares à Spiked US Inc até hoje, “para produzir debates públicos nos EUA sobre liberdade de expressão, como parte de suas atividades beneficentes”. Ela afirma que a fundação apoia projetos “tanto à esquerda quanto à direita”. A Fundação Koch financiou "um programa de debates públicos sobre a liberdade de expressão em diversos campi, intitulado Unsafe Space Tour" e quatro eventos ao vivo, o primeiro deles intitulado "Devemos ser livres para odiar?". Ela me disse: “Estamos muito orgulhosos de nosso trabalho sobre liberdade de expressão e tolerância, e temos orgulho de fazer parte do programa”.

Mas não encontrei nenhum agradecimento público desse financiamento. Nem nos vídeos dos debates, nos cartazes que os anunciam ou nas matérias sobre os eventos na revista Spiked há qualquer menção à Fundação Charles Koch. Pelo que pude ver dos slides de apresentação nos vídeos, eles agradecem uma organização chamada Institute For Humane Studies, não a Fundação. A Spiked não respondeu às minhas perguntas sobre isto.

Os irmãos Koch são notoriamente cuidadosos com seu dinheiro. De acordo com Mayer, eles exercem “um controle pessoal excepcionalmente rígido sobre suas atividades filantrópicas”. David Koch disse a um jornalista ‘inofensivo’: "Se damos muito dinheiro, vamos garantir que seja gasto como previmos. Se houver um desvio de propósito e fizerem coisas com que não concordamos, retiramos o financiamento”. Então, o que pode tê-los atraído por essa organização obscura?

A revista Spiked, editada por O’Neill, parece odiar a política da esquerda. A publicação investe contra o estado de bem-estar social, contra qualquer regulamentação, o movimento Occupy, os anticapitalistas, Jeremy Corbyn, George Soros, #MeToo, o “privilégio negro” e o movimento Black Lives Matter. Tudo em nome das “pessoas comuns”, que, segundo afirma, são oprimidas pelas “elites culturais anti-Trump e anti-Brexit”, pelas “elites feministas”, “elites verdes” e por “políticos cosmopolitas”.

Seus artigos defendem sistematicamente figuras da direita ou da extrema direita:Katie Hopkins, Nigel Farage, Alex Jones, a Democratic Football Lads’ Alliance, Tommy Robinson, Toby Young, Arron Banks e Viktor Orbán. Eles são retratados como vítimas de “Macartitismo” que tenta suprimir a liberdade de expressão. Exigem o mais difícil Brexit possível, insistindo que "Acordo nenhum não é algo a se temer", uma vez que isto permitiria que o Reino Unido saísse do jugo da UE. Mas o que a revista parece odiar mais é o ambientalismo. Ela esbraveja contra o "alarmismo climático", e fez apelos pelo aumento do fracking e da produção de carvão. Atribuiu o desastre da Torre Grenfell ao “fervor moral da campanha de mudanças climáticas”. Zomba da ideia de que a poluição do ar seja perigosa e propôs a abolição do sistema de planejamento urbano. "Precisamos conquistar a natureza, não nos curvar a ela", afirma. "Vamos tornar a 'pegada humana' no planeta ainda maior".

Os escritores da Spiked se enfurecem quando o dinheiro sujo vem à tona.Chamam Carole Cadwalladr, do Observer, que ganhou uma série de prêmios por expor os gastos opacos em torno do voto no Brexit, "o que há de mais próximo entre a mídia britânica e um teórico da conspiração". Publicam inúmeros artigos de autores do obscuro Instituto de Assuntos Econômicos e do Instituto Cato. Seu editor também escreve para a revista Reason, de propriedade da Fundação Reason, que recebeu 1 milhão de dólares da Fundação Charles Koch nos últimos dois anos. Bizarramente, a Spiked ainda usa Leon Trotsky para justificar suas posições. Alega ter construído sua filosofia a partir de seu objetivo de "aumentar o poder do homem sobre a natureza e... de abolir o poder do homem sobre o homem". Isto significa, diz, que "devemos lutar por um maior domínio humano sobre o mundo natural", e que o poder regulador não deve ser usado para impedir a ação humana. O resultado parece torcer o objetivo de Trotsky: aqueles com a maior capacidade de ação poderiam exercer poder irrestrito sobre os outros.

O entusiasmo da revista por Trotsky é altamente seletivo. Como um dos escritores da Spiked observou em 2002, sua mensagem central era que “o isolamento em fronteiras nacionais é uma receita para a reação”. No entanto, a defesa da revista tanto do Brexit quanto de Orbán, o primeiro-ministro de direita da Hungria, é fundada na noção de soberania nacional. Spiked parece se lembrar de tudo o que Trotsky escreveu que possa ser utilizado para a causa do capital corporativo e da extrema direita, e ter esquecido todas as suas reflexões menos entusiasmadas, digamos, sobre essas forças.

Acima de tudo, suas posições são justificadas pelo apoio à liberdade de expressão. Mas a liberdade parece tender a uma só direção: liberdade de criticar as pessoas vulneráveis. A turnê Space Unsafe que a Fundação Charles Koch financiou teve esta clara inclinação. Quando exercitei, no entanto, a minha liberdade de expressão de enviar minhas perguntas para a Spiked, fui denunciado na primeira página da revista como um “Macartista”. Trata-se do insulto favorito da revista, que o usa prolificamente para desmerecer perguntas e críticas legítimas. O termo comum para perguntas estranhas sobre interesses dos poderosos é jornalismo. O acesso à informação e a transparência não seriam componentes cruciais da liberdade de expressão? A Spiked também fez apelos para que escolas, universidades e governos fossem “limpos” da “influência maligna” das ONGs ambientais, denunciadas como sendo “o inimigo interno ambientalista”. Que amigos da liberdade de expressão estes!

Os Kochs são mencionados em vários artigos da Spiked, mas nenhum interesse correspondente é declarado. Um artigo de 2016, quando a Spiked US recebeu 170 mil dólares da Fundação Charles Koch, atacou os protestos de Standing Rock contra o oleoduto Dakota Access, no qual os irmãos Koch têm grande interesse.

Essa é a extensão do envolvimento dos irmãos Koch com grupos baseados no Reino Unido? Quem sabe? Ainda não obtive resposta da Fundação Charles Koch. Mas enxergo esses pagamentos como parte de um padrão mais amplo de financiamento sem transparência. E democracia sem transparência não é democracia.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Clarisse Meireles



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