Pelo Mundo

Como fui o primeiro e único jornalista ‘desnacionalizado’ no Chile

12/09/2013 00:00

Hernán Uribe* - Other News

Entre os incontáveis abusos, assassinatos, torturas e outros crimes cometidos pela tirania encabeçada por Augusto Pinochet Ugarte no Chile durante 17 anos, figura também a eliminação da nacionalidade chilena dos opositores e, nesse absurdo castigo, me correspondeu ser o primeiro da lista e único jornalista a quem se aplicou essa arbitrariedade com pretexto em um escrito com minha assinatura publicado no jornal mexicano “Excélsior” no dia 28 de julho de 1974.

Lembremos que, recém usurpado o poder, a Junta Militar decretou um “Estado de Guerra” e jogou na lixeira a Constituição cujas disposições foram substituídas por “decretos-leis”, um dos quais, com número 165 e data de onze de dezembro de 1973 estabelecia: “Os chilenos que atentam (sic) gravemente do exterior contra os interesses do Estado, perderão sua nacionalidade”.

Notemos o tom ditatorial: tudo acontecia sem processo algum nem contemplava um eventual direito à defesa. Devemos ao semanário “El Siglo”, reaparecido como tal em 1990 e dirigido pelo colega Guillermo Torres, o conhecimento das Atas Secretas da Ditadura. Na que corresponde a sessão de seis de setembro de 1974 fala o ministro de Relações Exteriores:

“Apresentou ao Conselho de Gabinete o caso de Hernán Uribe Ortega, jornalista chileno, socialista asilado na Embaixada do Panamá e atualmente no México, que escreveu o artigo “La Junta chilena e sus planos para atacar a Perú”, publicado no jornal “Excélsior” do México, “Presencia” da Bolívia e “La Opinión” de Buenos Aires”.

Continua a ata: “Nota: deu leitura ao artigo e aos antecedentes legais do caso. Outra nota: “O Gabinete, por unanimidade, está de acordo em cancelar a nacionalidade de Hernán Uribe Ortega”.

Depois, Pinochet interroga: Quando se aplicará essa medida contra Volodia Teitelboim? (Então senador e dirigente do Partido Comunista chileno) Depois se saberia que o tirano estava convencido de que o notável escritor e político era um russo nacionalizado…ainda que havia nascido em Curicou, uma conhecida cidade chilena.

Versões tortas
As retorcidas versões da escassa imprensa daqueles tempos fizeram caso omisso do preceito da Declaração Universal dos Direitos Humanos que aponta: “Ninguém será privado arbitrariamente de sua nacionalidade.“A Segunda”, um tabloide vespertino de Santiago (6-9-74) titulou: “Apátrida jornalista UP.(Unidade Popular, coalisão política que respaldava o presidente Allende). É Hernán Uribe, castrista do Punto Final”! No momento do golpe esse servidor era o diretor do vespertino Ultima Hora (Santiago) pertencente ao Partido Socialista. O matutino “La Tercera” se somou ao jogral no dia 7 de setembro de 1973:

“Jornalista Hernán Uribe perderá sua nacionalidade por ser um mau chileno”. Devemos supor que o mesmo modelo se aplicou em televisão e radiodifusão. (Nota 1) Devo acrescentar aqui que o Governo do México, sempre solidário, me outorgou um documento de identidade e viagem.

Ao teor das atas que mencionamos, sabemos que o assim chamado Conselho de Gabinete tratou também o tema da nacionalidade em uma sessão do dia 16 de abril de 1974, presidida pelo “Sr. Presidente da Honorável Junta de Governo”. Lemos: Ponto I. Perda de nacionalidade. Se propõe quatro casos concretos: Carlos Contreras Labarca, Armando Uribe Arce, Carlos Vasallo Rojas e Luis Henríquez Acevedo.

Entretanto, como as decisões sobre os casos apresentados se baseariam também nos relatórios dos diplomatas do Chile no exterior, alguns dos presentes não os consideraram suficientes para os casos propostos. Então, o ministro de Defesa intervém: “Sugere enviar pessoal especializado, por exemplo da DINA (Direção de Inteligência Nacional) a objeto (sic) de ter a informação requerida”.

No dia sete de junho de 1976 um “Decreto Supremo” suprimiu a nacionalidade de Orlando Letelier, ex-ministro de Salvador Allende, ex-embaixador em Washington e exilado nos Estados Unidos, onde seria assassinado junto com sua secretaria estadunidense R. Moffit. Agiram naquela oportunidade aqueles “enviados” que o ministro pedia. De nova conta “La Segunda” comentou: “O caso Letelier é o terceiro em que o Estado teve de privar de sua nacionalidade indivíduos mal nascidos. Anteriormente caiu nesse máximo castigo Hernán Uribe, jornalista castro comunista”. (Nota 2)

A reportagem/argumentos
A reportagem que me deu a honra de ser o primeiro “desnacionalizado” leva o epígrafe: “500 milhões de armas em 10 meses” e o título “A Junta chilena e seus planos para atacar o Peru”. Foi publicada no dia 28 de julho de 1974. Nesse escrito a chave é a revelação das aquisições de armamentos pela ditadura e, no conteúdo geral, numerosos dados e as lógicas conclusões. Não se afirma que haverá guerra mas que se prepara um conflito bélico.

E, quanto ao aprovisionamento de armas de diversa natureza, que obviamente era um segredo, sustentei e sustento que os dados me foram proporcionados por alguém que chamei meu próprio “Garganta Profunda” com evidente alusão ao misterioso personagem do escândalo de Watergate nos Estados Unidos e que foi informante de um jornalista. Com anterioridade e procedente da mesma fonte, havíamos revelado, também no "Excélsior", uma Circular da chancelaria golpista dirigida aos embaixadores e que continha observações sobre o mundo próprias de um desajustado, uma vez que denotava uma suprema ignorância da Orbe.

Leia-se a entrada (lid) do escrito que enfureceu Pinochet e companhia: “A eventualidade de um conflito bélico entre Chile e o Peru não é descartada hoje pelos analistas da situação no cone sul do continente. Nesta matéria é aventurado prognosticar datas, mas a ameaça de tal absurda guerra subsistirá - se enfatiza - enquanto no Chile permaneça no poder a Junta Militar que derrubou o Presidente constitucional, doutor Salvador Allende”. O texto de 14 colunas contém abundantes dados e as conclusões lógicas que deles se desprendem.

Allende pacifista
Outro antecedente de importância incluído em nosso texto é o comentário que escassos dias antes do golpe fez Allende a um pequeno grupo de jornalistas. Afirmou que alguns uniformizados opinavam que haveriam sérios problemas com o Peru e que esse país iniciaria um conflito armado contra o Chile supostamente no centenário da Guerra do Pacífico que correspondia ao ano de 1979. Toda a argumentação desses belicistas se baseava em discutíveis relatórios de inteligência. Os setores mencionados sustentavam que o Chile devia adiantar-se aos fatos e aplicar a clássica premissa das táticas guerreiras: o melhor ataque é a surpresa…

O presidente Allende – escrevemos – apontou na oportunidade que considerava disparatada e extremadamente grave a proposição pois era oposta a toda a doutrina de seu governo e contrária, é claro, aos sentimentos do povo chileno.

Uma vez usurpado o poder, o general da força aérea Gustavo Leigh, membro da Junta falou da “Missão histórica que Deus pôs em nossas mãos” e ressaltava que “O Chile voltará a a época em que foi um país líder da América”. O almirante José Toribio Merino, também integrante do quarteto ditatorial, rebatizou o Pacífico como “Mar do Chile” enquanto Pinochet declarava sua admiração pelos ex-presidentes chilenos Diego Portais, Manuel Bulnes, Anibal Pinto e pelo general Manuel Baquedano. Todos esses personagens históricos correspondem às etapas das duas guerras do Chile contra o Peru/Bolívia no século XIX. Falando com muita preocupação, mas tranquilo, o doutor Allende disse que confiava que sua amizade pessoal com o general Velasco Alvarado (àquela época presidente do vizinho país) e a ascendência que ele, como presidente de Chile, tinha com alguns chefes das forças armadas do país conseguiriam modificar a situação.

40 anos atrás
Na análise de um felizmente abortado choque armado deve considerar-se - como o faz nosso escrito - que quatro décadas atrás havia no Peru um governo regido por militares progressistas e latino-americanistas que se sintonizou em 1970 com o regime chileno da Unidade Popular. Essa convergência, dissemos então, fez amigos pessoais ao general Juan Velasco Alvarado e ao doutor Allende. Rememoramos da nossa reportagem: “No dia 12 de setembro de 1973, o general Velasco Alvarado rendeu tributo público à memória de seu amigo assassinado, o presidente Salvador Allende.”

Mais: “Em janeiro (1974) o general Velasco propôs uma conferência regional dirigida a controlar e congelar a aquisição de armas por um prazo de dez anos. Pela mesma época, o tema de possíveis atritos chileno-peruanos começa a tratar-se nos meios informativos e políticos do continente. O “Time”, norte-americano, asseverou que a França havia oferecido a venda de foguetes anti-navais do tipo Exocet tanto ao Chile como ao Peru. O cronista militar da Associated Press, Fred Hoffman, afirmou que “fontes dos serviços norte-americanos consideram que começaram a reaparecer algumas das tradicionais hostilidades entre os dois países”.

Como pode apreciar-se, meu trabalho jornalístico tinha uma base sólida, assim como argumentos válidos. Podemos adicionar experiências pessoais ainda que relacionadas com o que comentamos. Em 1975 uma Comissão Organizadora que havia sido criada em 1974 quis reunir-se no Peru para tentar realizar o congresso criador da Federação Latino-americana de Jornalistas (FELAP). Viajei a Lima como integrante desse comitê, pois o Governo peruano havia sugerido que essa capital poderia ser a sede de um Congresso Constituinte.

O dito não se materializou porque se impôs como condição que a reunião não aprovasse uma condenação da ditadura chilena. A Comissão, obviamente, recusou tal pretensão.

Apenas instalado eu em um hotel limenho, me visitou um tenente do exército que, com muita amabilidade, me perguntou se possuía mais dados além do que continha minha reportagem. Naturalmente lhe disse que não. Ao despedir-se, sempre cortês, me disse: “Você tem aqui dupla vigilância: a nossa e da embaixada do Chile.”

Conhecedor da DINA, viajei ao México no primeiro voo que consegui….



(1) O vespertino “Las Noticias de Ultima Hora” não pode ser editado no dia 11-9-73. A chamada Comissão Valech, nome do bispo que a presidiu, afirmou em 2004: a) A Junta Militar instaurou o controle total dos meios de comunicação; b) Os poucos meios autorizados foram submetidos a censura; c) A ditadura procedeu a clausurar a imprensa escrita e as radio-emissoras que fossem partidárias ou respaldassem o governo constitucional de Allende.
(2) Todos os meios de comunicação juntistas foram de ínfima qualidade, característica muito notória na imprensa escrita. Na prática, se tratava de propaganda qualificadora do “inimigo” com termos como apátridas, vende-pátrias, conspirador com o marxismo internacional e o comunismo soviético…
Ao mesmo tempo a Direção Nacional de Comunicação Social (DINACOS) da ditadura vazava notícias falsas e elaborava truculências.

(*) O autor foi o último diretor do jornal chileno "Ultima Hora" e atualmente é Presidente de Honra da Federação Latino-americana de Jornalistas (FELAP, na sigla em espanhol).


Tradução: Liborio Júnior



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