Pelo Mundo

Como o Egito se tornou um Estado-Exército

28/11/2011 00:00

Eduardo Febbro - Direto do Cairo

Poucas sociedades têm uma relação de simbiose com o exército tão intensa como a do Egito. A instituição detém poderes simbólicos, históricos, políticos e econômicos com um alcance pouco comum, que a converteram na coluna vertebral do país, em um Estado dentro do Estado e em um dos grupos de poder econômico mais importantes do mundo. O Egito é, na verdade, um Estado-Exército.

Em janeiro passado, em plena revolta na Plaza Tahrir, o exército era saudado como um herói pelos manifestantes devido a sua enganosa posição de neutralidade durante a queda da ditadura de Mubarak. Dez meses depois, as coisas mudaram e é o exército, em especial o Conselho Supremo das Forças Armadas, que dirige o país desde fevereiro passado, o que é objeto do repúdio da população.

Os militares passaram através da Revolução, mas não saíram incólumes da transição: seus esforços para conservar o poder e o gigantesco tesouro econômico que detinham encurralaram as forças armadas numa contradição fatal.

Depois do golpe de Estado de 1952, que pôs fim ao poder do Rei Faruk, todos os presidentes egípcios saíram dos braços do exército: Nasser, Sadat e Mubarak eram oficiais. Entretanto, foi o deposto Hosny Mubarak que, para garantir a lealdade das tropas, entregou às forças armadas a gestão de um volumoso tesouro: entre indústrias, bancos, turismo, agricultura, novas tecnologias e parque imobiliário, o exército egípcio controla 25% do PIB (produto interno bruto) do país.

Como nunca ficam longe dos desastres nacionais, os Estados Unidos completou o panorama. Os créditos que Washington outorgou às forças armadas do Egito depois da assinatura dos acordos de Camp David em 1972 somam 1,3 bilhões de dólares anuais. Com essa quantia, os militares ampliaram o leque de seus investimentos muito além do âmbito da defesa.

No ano passado, quando WikiLeaks divulgou os telegramas confidenciais, os diplomatas norte-americanos afirmavam que o exército estava à frente “de uma rede de empresas comerciais particularmente ativa nos setores da água, do óleo, do cimento, da construção, da indústria hoteleira, da distribuição de combustíveis e de um vasto parque imobiliário no delta do rio Nilo e na costa do Mar Vermelho”.

Com essa “poupança”, não há nada estranho no fato de que os militares joguem todas as cartas para conservar seus benefícios. Sua originalidade provém de um capítulo da história. Submetido a um embargo ocidental e à negativa da ex-União Soviética de ajudar o Egito a modernizar seu exército, Nasser montou uma indústria militar nacional muito eficaz. Os militares egípcios fabricam suas munições, armas ligeiras, tanques, aviões, barcos e canhões, e vendem esse material com muito êxito aos países do Golfo Pérsico e à África. As vendas de armas ao exterior representam uma média anual de um bilhão de dólares.

Sozinha, a indústria militar responde por 12% dos postos de trabalho disponíveis no país. Segundo estimativas de diplomatas ocidentais, a empresa Egyptian Army tem um volume de negócios estimado em 5,5 bilhões de dólares por ano. Doze por cento dos postos de trabalho nacionais correspondem especificamente à indústria militar. Se forem somados os outros setores, o exército e seus negócios derivados representam 30% do emprego nacional.

Tecnologias de ponta, pesca, eletrônica, indústria agroalimentar, infraestrutura viária, construção - não existe setor onde as forças armadas não estejam presentes. O Exército é o primeiro proprietário imobiliário no Cairo, o primeiro construtor de estradas e casas, o primeiro apicultor, produz azeite de oliva e camisas, panelas, produtos de informática, brinquedos e até pão. Também distribui medicamentos e intervém no mercado agroalimentar quando os preços do trigo ou da farinha provocam tensões sociais.

Em suma, além de ser um ator político de primeiro plano, as forças armadas são um interlocutor econômico inevitável. Tudo parece indicar que estejam dispostas a deixar o poder político e organizar uma transição, mas não a ceder a gestão de suas imensas riquezas e assim perder privilégios históricos.

Tradução: Libório Júnior.

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