Pelo Mundo

Como o México deve enfrentar Trump

 

09/06/2019 13:49

 

 

O atual governo dos Estados Unidos está comprometido com a aventura de reconstruir sua hegemonia mundial na base da truculência e usando diferentes truques do neoliberalismo clássico, codificados nochamado Consenso de Washington, ou Decálogo de Williamson.

Donald Trump vendeu aos seus eleitores a imagem de um protecionista irredutível e defensor dos setores agrário e industrial, o que contradiz completamente a receita neoliberal do livre comércio eda opção preferencial pelos capitais financeiros epelo monetarismo. Assim, o atual presidente estadunidense poderia ser descrito como um pós-neoliberal de direita, como são aqueles que, no Velho Continente, se enrolam na bandeira do euroceticismo e da eurofobia.

Esse projeto, que enfrenta grandes resistências na própria potência norte-americanae entre seus sócios e aliados, é administrado e dosificado por Trump em função de suas necessidades conjunturais, políticas e eleitorais. Portanto é compreensível que,agora quecomeçam a esquentar os motores para a eleição presidencial de 2020, o mandatário resolva aprofundar os conflitos e tensões com seus adversários internos, e com os outros países. Embora este projeto de remodelação seja apoiado por setores econômicos específicos e seus interesses, não se deve perder de vista as guerras comerciais contra China, México e Índia (entre outros), assim como a participação estadunidense em diversos conflitos regionais.

Como candidato, Trump prometeu que obrigaria o México a construir um muro gigantesco para, segundo ele, evitar a passagem de migrantes e drogas ilícitas pela fronteira comum. Agora, quando já estamos no terceiro dos quatro anos do seu mandato, esse projeto para ter pouquíssimas chances de se tornar concreto, o magnata nova-iorquino começa a mudar de estratégia, sempre no seu estilo insolente e falastrão, recheado de exigência intervencionista: se México não está disposto a pagar pelo muro, deve se comprometer a evitar que os migrantes e as drogas cheguem até a linha de fronteira. O que ele quer dizer é que o México deve sero muro. Além disso, tais demandas passaram a ser reforçadas pela ameaça de imposição de aumentos progressivos e generalizados nas taxas alfandegárias, que poderiam variar entre 5%e 25% mensais, afetando fortemente as exportações mexicanas aos Estados Unidos.

O primeiro problema dessa estratégia está no fato de que as economias de ambos os países estão tão entrelaçadas que a grande maioria das exportações castigadas seriam de empresas estadunidenses que levaram várias partes dos seus processos produtivos ao México, para baratear custos. O segundo problema é que, caso concretizesua agressão comercial, uma das respostas possíveis do governo mexicano seria compensar os aumentos de taxas com impostos às exportações estadunidenses ao país. Seria o início de uma guerra comercial detonada pelo cenário pré-eleitoral da superpotência vizinha.

Independentemente dosucesso ou fracasso nas negociações de última hora em Washington, entre as altas representações de ambos os governos, está claro que a relação comercial entre o México eo seu vizinho está exposta e deve continuar, ao menos até as já citadas eleições (em novembro de 2020), condicionada a demandas e exigências que não têm a ver com o comércio bilateral em si, mas sim com a batalha política estadunidense eo reordenamento mundial pretendido por Trump. A verdade é que se a Casa Branca levara atual ameaça até as últimas consequências (ou seja, 25% de aumento às exportações mexicanas)ou se inclusive impulsar outras do mesmo estilo, o T-MEC (novo tratado de livre comércio entre México, Estados Unidos e Canadá) será papel molhado eisso colocará a economia mexicana em uma situação de difícil e dolorosa para a sua população.

Em tal circunstância, o México enfrenta um dilema: ou seu governo aceita a derrota e reformula suas políticas migratória, de segurança e outras, aceitando as bravatas do inquilino da Casa Branca, ou decide priorizar o aprofundamento do seu próprio projeto de reordenamento político, econômico e social, que consistem em acelerar o ritmo da Quarta Transformação. Isso significa, entre outras cosas, avançar com passos mais rápidos no caminho da soberania alimentar, fortalecer o agro, impulsar a reindustrialização, gerar mais empregos e aplicar uma mudança de paradigma em matéria de segurança pública, combate ao crime organizadoe tratamento dedrogas.

Os processos de integração cultural e econômica entre os dois países são, no fundo, uma tendência irreversível, mas é possível que aas ações de Trump sejam um freio conjuntural, mas é reconfortante saber que há um projeto político que tem horizontes muito mais amplos, próprios e diversificados, que permitem evitar a submissão lineare progressiva diante da superpotência, que foi, no fim das contas, a coluna vertebral do neoliberalismo oligárquico que desgovernou o México durante 36 anos.

*Publicado originalmente em jornada.com.mx | Tradução de Victor Farinelli

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