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Como o corte fiscal de Trump está ajudando a empurrar o déficit federal para $1 trilhão

O montante de impostos corporativos coletado pelo governo federal caiu para níveis historicamente baixos nos primeiros seis meses do ano, empurrando o déficit do orçamento federal muito mais rápido do que o previsto pelos economistas

30/07/2018 16:06

 

Jim Tankersley, New York Times
 
O montante de impostos corporativos coletado pelo governo federal caiu para níveis historicamente baixos nos primeiros seis meses do ano, empurrando o déficit do orçamento federal muito mais rápido do que o previsto pelos economistas.
 
E isso é devido aos cortes fiscais do presidente Trump. A lei introduziu uma taxa corporativa padrão de 21%, uma baixa da anterior de 35%, e permite que as companhias deduzam imediatamente muitos investimentos novos. Como as companhias operam com impostos mais baixos e uma maior habilidade de reduzir o que devem, o governo federal está recebendo bem menos do que receberia antes da reforma.
 
A administração Trump disse que os cortes fiscais pagariam a si mesmos ao gerar uma renda maior por meio de um crescimento econômico mais rápido, mas a Casa Branca reconheceu, nas últimas semanas, que o déficit está crescendo mais rápido do que o esperado. O Ministério de Administração e Orçamento disse, esse mês, que revisou suas previsões do início do ano para explicar o quase $1 trilhão de dívida adicional para a próxima década – em média, quase $100 bilhões a mais por ano em déficit.
 
Durante a Grande Recessão em 2009, quando as companhias demitiam centenas de milhares de funcionários por mês, a coleta de impostos corporativos caiu quase um terço. Foi a maior queda trimestral desde que o Departamento de Comércio iniciou o compilamento de dados nos anos 40. Nenhum período chegou perto – até esse ano.
 
De janeiro a junho desse ano, de acordo com dados do Ministério da Fazenda, pagamentos de impostos corporativos caíram em um terço em comparação com o mesmo período um ano atrás. A queda quase chegou à uma baixa de 75 anos como parte da economia, de acordo com dados federais.
 
“Se não tivéssemos mudado nosso sistema fiscal”, disse Kimberly A. Clausing, professora de Economia do Reed College em Portland, Oregon, que estuda taxação corporativa, “estaríamos esperando rendas maiores”.
 
Os pagamentos das taxas corporativas estão desatinados enquanto o Congresso se inclina em direção a um duelo, em setembro, que exigirá ainda mais dinheiro para resolver.
 
A atual lei de gastos que o Sr. Trump assinou esse ano vence no final de setembro, o final do ano fiscal atual. É improvável que o Congresso passe outra lei de gastos completa até lá. Ao invés, líderes republicanos terão que pressionar por uma lei de gastos provisória se quiserem prevenir uma paralisação do governo um mês antes das eleições intermediárias.
 
E então há a possibilidade de mais novos gastos. O compromisso do presidente Trump com até $12 bilhões em ajudas emergenciais para os fazendeiros prejudicados pela guerra comercial está incitando novas demandas de ajuda para fabricantes, pescadores e outros que estão sendo prejudicados pelas tarifas retaliatórias de parceiros comerciais norte-americanos – tudo isso exigiria mais gastos do governo.
 
Como a lei de impostos foi debatida ano passado, a administração Trump argumentou que as perdas com os cortes iriam compensar com um crescimento econômico. As companhias usariam o dinheiro que anteriormente iria para os impostos, de acordo com o argumento, para investir em seus negócios e nos funcionários, dando ao governo uma fatia pequena – mas vinda de uma torta maior.
 
Mas a queda no pagamento dos impostos veio enquanto a economia norte-americana já está mais saudável desde a crise, levantando questões sobre se o déficit poderia inflar ainda mais se o crescimento desacelerar. O Departamento de Comércio anunciou sua primeira estimativa do PIB no segundo trimestre, e as previsões estimavam que poderia chegar a 5%, a taxa mais alta desde 2014. No entanto, analistas esperam que o crescimento desacelere na segunda metade do ano, enquanto as taxas de juros continuam a crescer e as tensões comerciais pesam na economia.
 
Semana passada ouviam-se notícias encorajadoras: depois de meses de discussão, a Europa e os EUA acharam um modo de reduzir tarifas e outras barreiras. No entanto, como isso poderá afetar o crescimento ainda será avaliado.
 
“Não é sábio contar com rendas sustentadas por um crescimento que poderia facilmente ser uma alta temporária”, disse Maya MacGuineas, presidente do Comitê por um Orçamento Federal Responsável em Washington, “particularmente quando ignora a verdadeira ameaça de que a economia desacelere e nós entremos em uma recessão em uma posição fiscal muito vulnerável”.
 
Mas representantes da administração estão descartando tais preocupações, argumentando que ainda esperam que a atividade econômica permaneça fortalecida.
 
“Estamos ansiosos pelos números do PIB do segundo trimestre, que já acreditamos que nos deixarão no caminho para uma taxa de crescimento do quarto trimestre acima de 3% pela primeira vez em 13 anos”, disse Kevin A. Hassett, presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca. “Essa é uma taxa de crescimento que ninguém pensou que seria possível e estamos contentes em provar essas pessoas do contrário.”
 
O Sr. Hassett adicionou que “um feedback positivo de um crescimento maior é um efeito de longo prazo, então não é surpreendente” ver as receitas de taxas corporativas caindo esse ano.
 
A nova lei provou, até agora, ser um trunfo para as companhias, com os lucros corporativos, depois das taxas, no maior nível que os Estados Unidos já viram. (Como parte da economia, no entanto, os lucros continuam abaixo do pico alcançado com o presidente Obama).
 
Representantes da Casa Branca dizem que a nova lei, que mudou como os EUA taxam companhias multinacionais que operam aqui, está incentivando uma onda de chamada repatriação – as empresas devolvendo dinheiro para os EUA que teria sido contabilizado em suas folhas de balanço em outro país para fugir da taxação norte-americana.
 
No primeiro trimestre do ano, de acordo com dados do Departamento de Comércio, as multinacionais repatriaram $306 bilhões , na forma de dividendos. Foram $270 bilhões acima da média trimestral dos últimos cinco anos. Representantes da Casa Branca dizem que isso é sinal que a lei fiscal está funcionando.
 
Não está claro ainda se a repatriação está gerando atividade econômica adicional, embora os economistas conservadores digam que os pagamentos de dividendos levarão à mais investimentos com o tempo, o que deve gerar maior receita fiscal a longo prazo.
 
As companhias, no entanto, podem disseminar a lei fiscal para repatriação para os próximos oito anos, que é o motivo pelo qual esses pagamentos não estão aumentando os pagamentos de taxas corporativas a curto prazo. A lei força as multinacionais a pagarem uma vez um imposto para dinheiro e bens no exterior, mas a Receita Federal permite que as firmas paguem essa lei em parcelas anuais, mesmo se escolherem pagar em dividendos imediatamente.
 
Representantes da administração disseram que o momento contribuiu para a coleta corporativa estar 20% abaixo das previsões iniciais do Escritório de Orçamento do Congresso e 10% abaixo das previsões do Modelo de Orçamento Penn Wharton, uma iniciativa de pesquisa não partidária que prevê grandes déficits como resultado da lei fiscal.
 
Outros fatores também podem estar mantendo a renda das taxas corporativas  baixa. Alguns analistas acreditam que as chamadas provisões de despesas da nova lei fiscal, que permite que as companhias cancelem novos investimentos imediatamente, pode provar ser mais popular do que foi antecipado por alguns analistas. Companhias, por exemplo, podem cancelar investimentos em software ou maquinaria ou novos prédios.
 
Se isso é verdade, “significa que o governo perderá mais receita do que pensamos originalmente, especialmente a curto prazo”, disse Kyle Pomerleau, economista da Tax Foundation em Washington, que prevê um grande aumento no crescimento econômico pelos cortes fiscais e as provisões de despesas. Tal cenário, disse Pomerleau, significaria que o crescimento deve ser maior do que o esperado.
 
As multinacionais também podem estar deslocando dinheiro para os EUA para tirar vantagem da provisão de despesas e reduzir seus impostos norte-americanos.
 
“Essa lei fiscal está funcionando, com a noção de que, agora, os acionistas têm acesso ao seu dinheiro”, disse Clausing, “mas se isso se traduzirá em investimento é uma questão muito diferente”.



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