Pelo Mundo

Como pensar para além do medo

Em meio à dor, à incerteza e à angústia produzidas pelo atentado contra a Charlie Hebdo e outros assassinatos, surgem reflexões. Reproduzimos algumas delas

13/01/2015 00:00

Christian Bille / Flickr

Créditos da foto: Christian Bille / Flickr

Formular problemas sem desespero para encontrar respostas fáceis e rápidas é um exercício que pode ser feito revisando a imprensa internacional, com seus dados e seus matizes.


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O que é o terrorismo. O brasileiro Leonardo Boff escreveu uma coluna em seu site. Após lembrar que “os Estados Unidos e seus aliados ocidentais fizeram no Iraque uma guerra preventiva com uma incontável mortandade de civis”, analisa o atentado de Paris “como resultado dessa violência e não como causa originária”. De fato, segundo Boff, consiste em instalar o medo em toda a França e na Europa em geral. O objetivo do terrorismo seria “ocupar as mentes das pessoas e mantê-las reféns do medo”. Para o teólogo brasileiro, “o significado principal do terrorismo não é ocupar territórios, como fizeram os ocidentais no Afeganistão e no Iraque, mas ocupar as mentes”. Se eles conseguirem, esta será sua vitória sinistra. Quer “ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou de pessoas estranhas”. Isso se faz segundo a estratégia por meio da qual “os atos têm que ser espetaculares, porque se não, não causariam comoção generalizada” – ainda que sejam odiados, devem provocar admiração pela sagacidade, “devem sugerir que foram minuciosamente preparados”, devem ser imprevisíveis para dar a impressão de que são incontroláveis, devem provocar medo e distorcer a percepção da realidade. A definição sintética de terrorismo por Boff é esta: “Toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com o medo e o pavor”.


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A compreensão como dever. A coluna leva este título: “Entender é o mínimo que podemos fazer pelos mortos”. É assinada por Hari Kunzru e foi publicada no The Guardian em 8 de janeiro. Kunzru disse que não espera o fim da atual situação antes de uma geração e de uma grande mudança geopolítica, sempre, claro, que haja a decisão de interromper a escalada. Fará falta, no mínimo, que os jovens que hoje preferem a abstração da morte a uma vida com sentido mudem, e que os poderosos que financiam as ações dos poderosos acabem; que não haja mais imigrantes encurralados e que os supostos “realistas” deixem de aumentar a intensidade do enfrentamento bélico. O colunista escreve: “Sobretudo, não quero escutar qualquer coisa sobre a barbárie. A caricatura de um jihadista como homem medieval animado por antigas paixões pode ser confortável para os que colocam a si mesmos na civilização e pousam com um Voltaire, mas é pouco para entender qualquer coisa”, e “entender é o mínimo que podemos fazer para honrar os mortos”. Para Kunzru, em parte o ataque à Charlie Hebdo tenta aumentar o preço por exercer a liberdade de expressão, e é preciso ter em conta que desde a condenação de Salman Rushdiem, a sátira religiosa passou a se tornar rara, “mas o ataque também procurou aprofundar contradições, endurecer posições e polarizar opiniões, empurrando a França e o resto do mundo para fora do cenário das complexidades e dos matizes e em direção à sequência binária da guerra”. Nesse âmbito binário, para o autor, a autorização de George Bush para torturar não apenas não garantiu a segurança de ninguém como se transformou “na fonte mais eficiente para recrutar militantes da jihad”. Sem seu olhar absoluto, o jihadismo resultaria em nada. O risco é atuar no espelho.


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Burocratas antilibertários. No The Guardian, Simon Jenkins pediu para se abandonar o medo. Escreveu que o terrorismo é uma técnica de conflito, não um objetivo. É uma arma, não uma ideologia. O terrorismo contra a Charlie Hebdo buscou aterrorizar os demais e reduzir o Estado francês a uma condição de paranoia. “Quiseram fazer com que gente comprometida com as liberdades cometesse ações contra elas”. Jenkins disse que, nos últimos 25 anos, o Ocidente interpretou mal o significado do crescimento do sentimento fundamentalista no mundo muçulmano e não entendeu o que estava por trás dos movimentos como a Irmandade Muçulmana, no Egito, os talibãs, no Afeganistão, os Aiatolás, no Irã, Bin Laden e a Al Qaeda e, mais recentemente, o ISIS no Iraque e na Síria. Alguns desses movimentos substituíram com califados regimes seculares tradicionalmente sólidos, como os baathistas. De início, a dinâmica gerada por esses movimentos, e inclusive as ameaças contra os interesses comerciais ocidentais, ficaram circunscritas ao território regional. Mas logo tudo mudou, e em grande medida porque o petróleo sempre precisa ser vendido. Logo após o ataque às torres gêmeas, a caracterização da retaliação como “guerra” piorou as coisas. Tal como advertiu Tom Paine: “O castigo sanguinário corrompe o ser humano”. Agora, os terroristas buscam aumentar a histeria, algo que compartilham com “os burocratas da indústria antilibertária”. No entanto, para Jenkins, é importante o fato de que “o terrorismo não é um crime comum”, mas que sua efetividade depende das consequências. “Pode matar pessoas e danificar a propriedade. Pode impor um custo. Mas não pode ocupar um território ou derrubar um governo. Inclusive para provocar o medo, requer a colaboração do resto, desde os meios de comunicação até os políticos”. Por isso, a saída seria não exagerar no tom, não mostrar medo, e tirar a satisfação dos terroristas. “É a única maneira de derrotar o terrorismo”.


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Guantánamo. L’Obs e Rue 89, duas publicações francesas, publicaram uma nota sobre o que definem como “cumplicidade francesa” com a prisão norte-americana de Guantânamo, onde os Estados Unidos não apenas torturaram prisioneiros como mantiveram sob custódia muitos detidos que haviam sido declarados inocentes nos tribunais. Citando telegramas revelados pelo Wikileaks, informaram que, inclusive, interrogadores franceses participaram das sessões. Barack Obama havia prometido fechar a prisão quando assumiu seu primeiro mandato, em janeiro de 2009.


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Não existe uma “comunidade muçulmana”. No Huffington Post, o acadêmico especialista em temas islâmicos Oliver Roy constata que existem duas narrativas. Uma sustenta que o problema é o islã da França, com sua doutrina sobre a preeminência da adesão à fé sobre a adesão à nacionalidade francesa. Outra sustenta que o problema são as condições de marginalidade de muitos dos imigrantes ou filhos de imigrantes. Roy diz que ambas as narrativas partem de uma limitação: pressupõem a existência de uma “comunidade muçulmana” na França da qual os terroristas seriam uma espécie de “vanguarda”. Ele coloca em dúvida essa suposta verdade. Defende que muitos dos jovens radicalizados não apenas não são uma vanguarda do restante, mas também se opõem ao islã professado por seus pais e acreditam em um islã a partir da periferia do mundo muçulmano. Não estão relacionados às mesquitas locais e, quando viajam à Síria, vão escondidos da família. Praticam uma radicalização mutualmente estimulada pela internet em busca de uma jihad global. “Não estão interessados nas preocupações concretas do mundo muçulmano, como a Palestina”, opina Roy. “Não buscam a islamização da sociedade em que vivem, mas a realização de sua fantasia doente de heroísmo, como os assassinatos na Charlie Hebdo, quando disseram ter sido convocados pelo profeta Mohammed”. Os muçulmanos estão mais integrados do que se supõe, fato que parece comprovado até pela identidade de Imad Ibn Ziaten, o soldado francês morto por Mohamed Merh em 2012, ou a do oficial Ahmed Merabet, assassinado pelos terroristas na Charlie Hebdo. Para Roy, o ruim é que “no lugar de serem citados como exemplos, esses casos aparecem como contraexemplos”, o que seria falso: “Na França, existem mais muçulmanos no exército, na polícia e na gendarmaria do que na Al Qaeda, e isso sem mencionar a administração pública, os hospitais, a justiça ou o sistema educacional”. O outro elemento que, para Roy, é subestimado, é o nível massivo de rechaço dos atentados por parte dos muçulmanos nas redes sociais. Ao mesmo tempo, não existe um “voto muçulmano”, não existe um lobby muçulmano e não há um partido muçulmano. As escolas muçulmanas não passam de uma dezena. Não há uma “comunidade muçulmana”, mas sim uma população muçulmana. Segundo Oliver Roy, “admitir esta simples verdade seria um grande antídoto contra a histeria, a atual e a que virá”.


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O lepenismo. No Le Nouvel Observateur, Renaud Dély argumenta que qualquer cidadão deve ser bem recebido se participar da manifestação convocada em Paris, mas que a Frente Nacional de Marine Le Pen não tem direito a participar como tal porque não é republicana. “Desde sua origem, e ainda hoje, a Frente Nacional vai contra o universalismo dos ideais republicanos”, escreve. “Categoriza e hierarquiza as populações segundo suas origens, distingue entre os que chama de 'franceses de papel' e os que estariam por cima em razão de sua ascendência e de sua 'preferência nacional', recentemente rebatizada 'prioridade nacional', um princípio discriminatório que abarca ajudas sociais, moradia e emprego. Isso é claramente antirrepublicano”.


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As raízes do terrorismo. Uma pessoa conhecida como Hermano Rachid subiu no YouTube um chamado público a Obama. Foi visto por 500 mil pessoas. Já não está disponível por problemas de direito autoral, mas o colunista do The New York Times Thomas Friedman o citou em uma nota sobre a organização Estado Islâmico, também conhecida como ISIS ou ISIL, escrita antes do atentado contra a Charlie Hebdo. Rachid dizia: “Senhor presidente, se o senhor quer de verdade combater o terrorismo, então combata suas raízes. Quantos xeiques da Arábia Saudita estão pregando o ódio? Quantos canais islâmicos estão doutrinando as pessoas e as ensinando o valor da violência? Quantas escolas islâmicas estão produzindo gerações de docentes e estudantes que acreditam na jihad e no martírio como forma de combater os infiéis?”. Segundo Friedman, o ISIS tenta encabeçar o islã recorrendo às distintas frustrações do mundo muçulmano e defendendo a visão puritana imperante nas madrassas, as escolas confessionais da Arábia Saudita. Mas, ao mesmo tempo, as redes sociais mostram o surgimento de um grande debate de ideias sobre o ISIS, sobre sua doutrina e inclusive sobre o islã em geral, e em torno do direito secular a não seguir as leis de origem religiosa.


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Sauditas. A Anistia Internacional informou que o blogueiro Raif Badawi, acusado de insultar o islã, foi sentenciado a mil chibatadas e recebeu as primeiras cinquenta na última sexta-feira. A rigor, o que Badawi havia feito foi abrir um site chamado Free Saudi Liberals – Progressistas Sauditas Livres. A página foi fechada.


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Os professores sabem pouco sobre o islã. O Rue 89 entrevistou o sociólogo das religiões Olivier Bobineau. “O problema não é o choque de civilizações, mas o choque de ignorâncias”, provocou o especialista, que acaba de publicar o livro A laicidade e as religiões no espaço público. Bobineau disse que, para lutar contra a cruz de ignorâncias, existe um conteúdo, o laicismo, e um método, falar colocando-se no lugar do outro. Na opinião do sociólogo, é incorreto pensar a escola como um espaço no qual cada aluno deixa de fora sua identidade, seu corpo, suas ideias e seus sentimentos. Nesse caso, qualquer adolescente poderá ir atrás de quem quer que ofereça um sentido a sua vida em um espaço diferente da sala de aula. Bobineau opinou que os adolescentes sabem muito pouco do islã e que, além disso, a socialização depende de uma política escolar, uma política familiar e uma política para as ruas. Nas ruas, é preciso garantir espaços de encontro e locais públicos abertos a todos. Nas famílias, é fundamental o problema de garantir moradias sem aglomerações. “A Igreja Católica tem em sua tradição acompanhar os casais. É preciso pegar essa tradição e transformá-la em uma prática laica”. Em todos os âmbitos, é preciso ajudar para que a violência simbólica tenha sua catarse e sua racionalidade, para que não se transforme em violência física.


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Cansaço. A romancista norte-americana nascida no Marrocos Laila Lalami, em uma polêmica nota publicada pelo The Nation, o semanário progressista dos EUA, disse que resiste às absolutizações observadas depois do atentado à Charlie Hebdo. Lê que tudo é produto do choque de civilizações. Que se trata de um ataque ao último bastião da expressão livre. Que os líderes das populações muçulmanas ficaram calados. Que a França falhou na integração dos filhos dos imigrantes do Magreb. Que tudo é porque a França enviou tropas a países muçulmanos. Que há dois pesos e duas medidas. Disposta a colocar os temas em discussão, não teme em dizer, por exemplo, que no passado a Charlie Hebdo publicava desenhos satíricos de todo mundo, desde Jesus a Moisés, passando por Mohammed, pelo Papa, François Hollande, Nicolas Sarkozy e Marine Le Pen, mas nos últimos anos aumentou a frequência das sátiras com personagens muçulmanos ou situações como as quais viveram as estudantes sequestradas em 2014 na Nigéria pela organização islâmica violenta Boko Harum. Ainda que não repare na presença atual dos 1200 soldados franceses no contingente internacional que combate o Estado Islâmico, Lalamio observa que, quando Cherif Kouachi, um dos terroristas da Charlie Hebdo, entrou para as fileiras dos islâmicos radicais, a França se opôs à intervenção norte-americana no Iraque e não enviou tropas, apesar do pedido norte-americano. Simplesmente como um dado em meio à polêmica, a escritora lembra que satirizar figuras individualizadas ou gerais do islã não leva a qualquer condenação, mas que, para a legislação francesa, a sátira sobre o Holocausto levaria à condenação. O famoso desenhista Siné foi acusado pelo então diretor da Charlie Hebdo Philippe Val de ironizar quando o filho de Sarkozy se casou com Jessica Sebaoun-Darty, de origem judia, e diante dos rumores de que Sarkozy Jr. tivesse se convertido ao judaísmo, pressagiou para ele um futuro de bem-estar. Val pediu uma carta de desculpas, mas Siné disse: “Antes disso, eu corto meu saco”. Não precisou fazê-lo porque ficou fora da Charlie Hebdo. A nota de Lalami termina assim: “Não sei qual dos relatos em torno da Charlie Hebdo é verdadeiro. Talvez nenhum, ou talvez todos. Estou cansada. Cansada do fato de que desenhar uma caricatura de Mohammed causa mais ira do que o derramamento de sangue. Cansada de que a intolerância leviana seja equiparada à crítica séria. Cansada do fato de que prover um contexto seja visto como dar desculpas. Também tenho medo pelos direitos de escritores e artistas. Medo pelos inocentes que sofrerão. Medo da legislação restritiva que virá. Tudo o que sei é que estamos todos juntos nessa. Devemos aceitar que não podemos andar pela vida sem ser ofendidos. Devemos aceitar que o direito à ofensa é uma parte fundamental do direito à liberdade de expressão. Mas também temos que aceitar que devemos assumir responsabilidades diante dos demais. Devemos falar contra o racismo, o sexismo e a intolerância em todas as suas formas. Usemos a razão, mas também nossos corações”.








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