Pelo Mundo

Comoção interna, autogolpe e resistência

Longe de apontar para uma saída democrática, como no Chile, a Colômbia parece caminhar perigosamente rumo a um autogolpe, que pode mergulhá-la numa noite escura

02/06/2021 14:01

O presidente da Colômbia, Iván Duque, anunciou a militarização de 8 departamentos e 14 cidades, e estabeleceu a subordinação de governadores e prefeitos às Forças Armadas (Reprodução/Instagram/Presidência da Colômbia)

Créditos da foto: O presidente da Colômbia, Iván Duque, anunciou a militarização de 8 departamentos e 14 cidades, e estabeleceu a subordinação de governadores e prefeitos às Forças Armadas (Reprodução/Instagram/Presidência da Colômbia)

 
Sem dúvida tem sido a eclosão social mais forte e prolongada da história do país. A convocação inicial do Comitê de Greve para 28 de abril foi respondida em cidades e povoados de todo o território nacional por pessoas com ou sem emprego, por comunidades afundadas na pobreza e na crise.

Mas a resposta superou qualquer expectativa. Quem está na linha de frente dos protestos é a juventude marginalizada, despojada de seus direitos mínimos e oportunidades, resultado de décadas de abandono, de políticas excludentes e de diferentes formas de violência.

É uma juventude que se mobiliza de várias maneiras, com discursos inflamados, expressões artísticas e culturais. Encontrou nas trincheiras de bairros pobres e na mobilização de rua a possibilidade de reviver seus sonhos e fortalecer sua resistência. É a maior parte dos documentados mais de 70 mortos, além dos milhares de desaparecidos, presos, feridos e vítimas de violência sexual.

A ação se repete em diferentes pontos do país: mobilizações, concentrações e cozinhas comunitárias durante o dia. À noite vem o terror, a repressão. Existe um forte apoio popular. Na linha de frente se colocam mães, professores, padres, advogados, jornalistas corajosos. Também participam estudantes, trabalhadores e organizações sociais e sindicais. As tevês não param de mostrar, para o país e para o mundo, sua dinâmica de luta e as marcas da repressão.

Porém, longe de vislumbrar-se uma saída democrática, como no Chile, a Colômbia parece caminhar perigosamente rumo ao autogolpe, que pode mergulhar o país em uma noite ainda mais escura e tenebrosa, como nos tempos fatídicos dos presidentes Laureano Gómez e Turbay Ayala.

O governo desconheceu o acordo que fez com o Comitê de Greve na semana passada em relação às garantias para os protestos sociais e o respeito à vida dos manifestantes. Sem isso não há negociação possível.

Na sexta-feira última, depois de uma jornada de forte mobilização e repressão, o presidente Ivan Duque emitiu o decreto 575, considerado por analistas como uma comoção interna parcial de fato: foge do controle constitucional, ordena a militarização de oito departamentos (estados) e 14 cidades e estabelece a subordinação de governadores e prefeitos às Forças Armadas, ameaçando-os com sanções caso não se submetam.

Existe uma justa preocupação nacional e internacional com o aumento das violações dos direitos humanos, das detenções ilegais, invasões, torturas, desaparecimentos, agressões e morte de civis nas mãos de militares. É uma situação que já vinha sendo registrada durante este governo mesmo antes da greve.

Agora, ficou novamente claro quem manda na Colômbia. Horas antes da expedição do decreto, Uribe questionou a suposta falta de autoridade de seu subalterno presidente. Num comunicado, seu partido defendeu o uso de total força militar, a nomeação de oficiais de alta patente nos municípios e o rechaço a qualquer negociação nacional ou regional.

Por isso, desautorizou e mandou desconhecer as adiantadas negociações regionais entre o comitê de greve de Buenaventura e funcionários do governo visando suspender o bloqueio no principal porto do país.

A estratégia do governo Uribe/Duque para enfrentar a mobilização social parece saída de manuais do fascismo.

Em primeiro lugar, insiste em falar em um inimigo, no terrorismo. É incapaz de reconhecer a crise social e a responsabilidade do Estado na mesma. Em meio a forte questionamento internacional, Duque grava uns vídeos em inglês jogando a culpa em Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá e favorito para as próximas eleições presidenciais. A vice-presidenta, convertida em chanceler, responsabiliza o acordo de paz que pôs fim à guerra civil e viaja a Washington para explicar o inexplicável. O governo acusa a Rússia, Cuba e Venezuela de financiar e instigar o caos.

Assim como Uribe nunca reconheceu o conflito armado, agora também não se admite a existência e justeza do protesto social nem as leis internacionais a respeito. Duque e seus ministros taxam o movimento de terrorismo de baixa intensidade e classificam os manifestantes de vândalos. Os órgãos do judiciário, todos partidários do governo, trabalham no mesmo sentido.

Mas o governo e todas essas entidades desconhecem ou pretendem esconder a ação e desmandos dos grupos paramilitares e da extrema-direita armada, que agem, estes sim, como verdadeiros vândalos, com a conivência das Forças Armadas. Existem vários vídeos que mostram civis disparando, ao lado da polícia, contra manifestantes. E Duque prestando-lhes contas.

Chama a atenção o incêndio do Palácio da Justiça em Tuluá, onde transitavam os principais processos de restituição de terras do departamento. Desde a época do temível Condor, León María Lozano, fundador de um grupo paramilitar, a cidade tem sido centro de apropriação de terras por parte de engenhos de açúcar e de proprietários de terra. Em tempos mais recentes, tem abrigado narcotraficantes e paramilitares. A quem então interessava o incêndio?

A extrema direita tenta antes de tudo ganhar a opinião pública, mostrar que a violência é provocada por quem protesta e, assim, justificar a repressão. Sem dúvida, uma estratégia desesperada para se aferrar ao poder em meio a tanto desprestígio, a um ano das eleições presidenciais.

*Publicado originalmente em 'Las 2 Orillas' | Tradução de Carlos Alberto Pavam



Conteúdo Relacionado