Pelo Mundo

Concentração também é marca da mídia na França

07/12/2012 00:00

Eduardo Febbro

Paris - Os tempos dos escritores como Emile Zolá ou Albert Camus e dos jornais e revistas livres fazem parte da memória histórica dos grandes períodos da liberdade de imprensa. Esses tempos forjaram uma mitologia que já não tem nada a ver com o presente. Os meios de comunicação na França estão regulados por uma série de leis e instâncias de controle, por um forte consenso entre amplos setores do poder e dos meios, em particular no que se refere ao jornalismo político e, sobretudo, pelas multinacionais.

Os meios de comunicação franceses não escapam à lógica da concentração. Os grandes canais de televisão privada como TFI pertencem a gigantescos grupos industriais, em cuja cabeça estão empresas que controlam vários setores: rádio, televisão, imprensa escrita, internet, redes de telefonia móvel, comércio de armas, moda e edição.

O grupo Bouygues, por exemplo, é proprietário da TFI, que é o primeiro canal europeu em termos de difusão e ingressos por publicidade. Mas Bouygues é igualmente um líder mundial na realização de trabalhos públicos, possui uma empresa associada de telefonia móvel. O grupo Pinault é também proprietário da cadeia de distribuição FNAC - livros, música e produtos tecnológicos — e também das célebres Galéries Printemps, do semanário Le Point e da rádio televisão especializada em economia BFM. Um exemplo similar é o do grupo Arnault, proprietário, entre outras coisas, do jornal econômico La Tribune, o semanário Investir e de LVMH, Louis Vuitom – Alta Costura — e Moët-Henessy, licores.

A Vivendi é igualmente um dos atores centrais dos meios de comunicação e um perfeito exemplo de concentração. Esta multinacional especializada na comunicação e nas plataformas interativas possui o estúdio de jogos numéricos Activision Blizzard, a produtora musical Universal Music Group, o operador de telefonia francês SFR, o operador marroquino Maroc Telecom, o brasileiro GVT e o grupo de televisão Canal+. Entretanto, a Vivendi é, antes de tudo, uma multinacional que administra o subministro de água e transportes. A concentração é, na França, um caso extremo e, em que pese às leis europeias anti-trust, nada tem evitado este esquema.

O grupo Lagardère é outro exemplo de acumulação em sentido único: esta empresa presente em uns 30 países é proprietária do semanário Paris-Match, a revista para mulheres Elle, o Journal du Dimanche, duas rádios e um canal de televisão. A lista é interminável: a multinacional alemã Bertelsmanm controla tanto o canal M6 como o grupo de rádio televisão RTL, um dos mais importantes do Velho Continente. Antigamente dirigida por empresários pequenos e até por artesãos, a imprensa escrita tampouco escapa deste modelo de hiperconcentração.

O grupo de construção e venda de armas Dassault – aviões de combate, helicópteros — é proprietário do jornal Le Figaro – direita — e dos semanários L’express e Valores Actuales, além de um número elevado de jornais regionais. Um gráfico dos meios de comunicação na França – imprensa escrita, rádio e televisão — mostraria que estes estão em mãos de uns quatro grupos, frequentemente multinacionais que investiram no setor da imprensa nos anos 90. Quase ninguém escapa desta regra, nem sequer o jornal de esquerda Libération, cujo acionista majoritário (38%) é Édouard de Rothschild, uma das grandes fortunas da França que pouco ou nada tem que ver com os valores que supostamente defende este periódico.

Com o célebre vespertino Le Monde ocorre o mesmo. Seus acionistas majoritários são o trio composto pelo milionário Pierre Bergé – Alta Costura -, o homem de negócios Matthieu Pigasse e o proprietário da empresa de telefonia móvel Xavier Niel (Free). Le Nouvel Observateur, o outro grande semanário da esquerda francesa, está igualmente em mãos de industriais: Claude Perdriel – grupo industrial SETMA, fabrica banheiras e produtos para banho.

Não existem, na França, meios de comunicação escrita onde o Estado seja um acionista decisivo. Participa sim, entretanto, com ajudas pontuais para alentar as publicações que sofrem grandes dificuldades econômicas. Isto concerne à maioria dos jornais e revistas. A crise da imprensa escrita também golpeou a França. A única diferença com outros países da Europa – Alemanha ou Espanha – radica em que os meios escritos da França entraram em crise faz alguns anos e procederam com antecipação as demissões de pessoal. Através do “Fundo estratégico para o desenvolvimento da imprensa”, os poderes públicos participam no desenvolvimento dos meios. O dito fundo consta de vários ramos que vão desde ajudas diretas, a redução de impostos até um fundo específico a favor do pluralismo: “o fundo de ajuda aos jornais nacionais de informação política e geral com escassos recursos publicitários”. Os meios de comunicação alternativos não contam com uma lei ou ajuda específica. Não obstante, segundo sua inclinação ideológica, vivem da publicidade, da venda e também graças às subvenções pontuais do Estado.

Chega-se aqui a um paradoxo maior: a imprensa está dirigida por enormes multinacionais e, entretanto, o Estado intervém com fundos para respaldar esses meios quando estão em apuros. A publicidade estatal não tem na França o peso que se conhece em outras partes do mundo. O Estado é sim, entretanto, um ator decisivo no rádio e na televisão. Os canais estatais Antenne 2 e FR3 dependem do financiamento público direto, o mesmo acontece com as rádios France Inter, RFI, France Musique, France Culture, FIP ou France Info.

A influência do Estado é neste setor muito importante já que, em especial no campo da televisão, é o poder político quem nomeia os diretores dos canais ou das emissoras. Nestas condições globais, a liberdade da imprensa é, em principio, total. Não obstante, sua vigência está condicionada antes de tudo pelos interesses que defendem os grupos aos quais pertencem os meios de comunicação.

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