Pelo Mundo

Contra o golpe de Estado, poder popular organizado

 

04/11/2020 14:39

Simpatizantes de Arce celebram seu triunfo nas eleições bolivianas (AFP)

Créditos da foto: Simpatizantes de Arce celebram seu triunfo nas eleições bolivianas (AFP)

 
Diante da derrota formal nas urnas sofrida pelos grupos políticos minoritários da direita neoconservadora, evangélica e neofascista, que não conseguiram realizar uma fraude informática para reverter os números, e quando a distância eleitoral foi tão grande, só lhes restou o estado de choque. Posteriormente, após os primeiros dias de lamentação, passaram a alegar que houve uma suposta “fraude científica, impossível de ser capturada porque eles próprios não conseguiram explicar qual era. Alguns pastores evangélicos enviaram seus fiéis para rezar nos portões do quartel, e tentar convencê-los a agir, com o argumento de que “houve um feitiço sobre as urnas eleitorais”, que fez com que a maioria da população votasse no MAS (Movimento Ao Socialismo).

Tanto ódio e rejeição antimasista foi gerado nestes últimos tempos, incubado pelos meios de comunicação ao longo de mais de 13 anos de governo de Evo Morales, que eles não quiseram aceitar a claridade do resultado que se esforçaram para obscurecer. Assim, o grupo paramilitar Juventud Cruceñista, que envolve do Comitê Cívico (organização política de direita) e reúne ex-autoridades políticas e formadores de opinião, aceitou publicamente a derrota, mas logo depois passaram a apoiar medidas de força e incitar a obstrução da democracia.

Enquanto isso, a polícia conseguiu prender apenas 13 paramilitares em Santa Cruz e Cochabamba, que transportavam armas e explosivos junto com esses grupos. Porém, os libertaram imediatamente, por ordem dos seus superiores. Junto com esse episódio está a declaração do ministro Andrés Murillo, que disse zelar pela “liberdade de expressão mobilizada” dos grupos extremistas de direita, junto com uma suposta “coordenação militar” entre passivos e ativos das Forças Armadas que embarcaram na tese de “fraude científica”, como forma de convocar uma alçamento para evitar a posse do governo legal e legitimamente eleito de Luis Arce. Esses grupos, que são um instrumento do poder oligárquico, são aqueles cuja missão inicial no dia 18 de outubro era gerar caos e confronto após as contagens rápidas, o que desencadearia as mobilizações, gerando possibilidades e pressões sobre as Forças Armadas e a polícia para assumir o poder.

Esta condição não se concretizou, e levou à derrota absoluta, nas urnas e na democracia representativa, dessas forças fascistas. Contudo, depois da frustração pela derrota, a reação tem sido a de tomar iniciativas novamente nas ruas, enquanto perdura o triunfalismo democrático popular; para reinventar o discurso da fraude, de alegar a suposta “ilegalidade do MAS” para participar da eleição, junto com o retorno demoníaco dos selvagens para se vingar dos “civilizados homens de bem” e evitar o novo mandato divino que o MAS teria conquista através de “bruxaria”.

Além de completar sua tragicomédia, eles têm um processo internacional em andamento para demonstrar “quão inviável é a democracia na Bolívia”, e apelos perante a justiça local para impedir o novo governo de tomar posse em 8 de novembro. Enquanto isso, esperam também contar com o apoio político decisivo do novo governo norte-americano, em sua escalada golpista, que em qualquer de suas tendências – republicana ou democrata – sempre reforçou o papel imperial que têm na América Latina, na preservação de seus interesses e na proteção de seus aliados.

Podemos pensar que no futuro haverá um golpe clássico na Bolívia, em meio a governos representativos de diferentes tendências, mas que estão revestidos de democracia representativa? Aqueles que hoje, movidos pelo ódio e pelo racismo, tentam impedir o curso da democracia, já pensaram nas consequências? Ou é o medo de alguns – tanto políticos civis, militares e policiais de alto escalão que terão que enfrentar a justiça – o que os faz se abrirem diante desse discurso e das ações constantes para evitar sua penalização?

O que é evidente é que, mais uma vez, se abre uma nova era na Bolívia, com uma vitória devastadora da democracia nas urnas, para apoiar um caminho e um processo, exigindo mudanças, autocríticas e muita esperança construídas coletivamente; enfrentando a miséria política da minoria racista, que fez da exclusão uma política de Estado e entendeu que a democracia só existe se eles estiverem no poder. Portanto, como no passado, os golpes de Estado – e a Bolívia tem muitos em sua história – serão sempre um recurso para dominar, subjugar e pisotear “os selvagens” que não aceitam “a supremacia racial” dos modernos detentores do poder. Hoje, já bloquearam Santa Cruz por decisão do Comitê Cívico e esperam que os paramilitares de Cochabamba generalizem os bloqueios pelo país, forçando a que aconteça também em La Paz, para buscar o boicote à democracia, ao mesmo tempo que não param de bater nos quartéis e coordenar com o executivo do golpista Áñez para que ele não entregue o comando ao novo governo.

Não se pode deixar que o entusiasmo popular seja uma distração. A eleição foi uma batalha importante e que foi vencida, mas o golpe ainda está em andamento e mobilizado; e não se pode contar com os espaços de poder quando eles ainda não foram ocupados, ou retomados neste caso. As ambições pessoais de alguns não devem cegar para a importância de defender a democracia, cuja segunda batalha será a tomada do governo neste próximo dia 8 de novembro, para a qual é preciso mobilizar uma festa popular, junto com a organização civil em permanente prontidão, a partir de agora, para defender a vitória do voto e da democracia. Então, nos prepararemos para as próximas batalhas que nos esperam, pois a construção da democracia intercultural de que necessitamos exige uma luta permanente, a qual todos fomos convocados.

*Tradução de Victor Farinelli



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