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Coronavírus: 38 testes positivos nas prisões da cidade de Nova York

Mais da metade são presos. Conselho de Correção descreve um sistema penitenciário em crise

23/03/2020 12:06

Pelo menos 38 pessoas testaram positivo no notório complexo de Rikers Island, acima e em instalações próximas. (Seth Wenig/AP)

Créditos da foto: Pelo menos 38 pessoas testaram positivo no notório complexo de Rikers Island, acima e em instalações próximas. (Seth Wenig/AP)

 

A cidade de Nova York foi atingida pelo maior surto de coronavírus do país até agora, com pelo menos 38 pessoas testando positivo no notório complexo de Rikers Island e nas instalações próximas. Mais da metade delas são homens encarcerados, o conselho que supervisiona o sistema penitenciário da cidade disse no sábado (21).

Outro preso, enquanto isso, se tornou o primeiro no país a dar positivo em uma prisão federal.

Em uma carta aos líderes da justiça criminal de Nova York, a presidente interina do Conselho de Correção Jacqueline Sherman descreveu um sistema penitenciário em crise.

Ela disse que, na semana passada, os membros da diretoria descobriram que 12 funcionários do Departamento de Correções, cinco funcionários dos Serviços Correcionais de Saúde e 21 pessoas sob custódia em Rikers e prisões da cidade apresentaram resultado positivo para o coronavírus.

E pelo menos outros 58 estavam sendo monitorados nas unidades de doenças contagiosas e quarentena da prisão, disse ela.

"É provável que essas pessoas tenham estado em centenas de áreas habitacionais e áreas comuns nas últimas semanas e tenham mantido contato próximo com muitas outras pessoas sob custódia e da equipe", disse Sherman, alertando que os casos podem disparar.

"O melhor caminho a seguir, para proteger a comunidade de pessoas alojadas e trabalhadores nas prisões, é reduzir rapidamente o número de presos e servidores".

As autoridades de Nova York subestimaram consistentemente o número de infecções em suas prisões e cadeias, apurou a Associated Press em conversas com atuais e ex-detentos.

A agência penitenciária da cidade e seu provedor de serviços de saúde, gerido pela cidade, não responderam às mensagens que pediam comentários à carta da presidente do Conselho de Correções. Na sexta-feira, o Departamento de Correções [Department of Corrections] da cidade disse que apenas um preso havia sido diagnosticado com coronavírus, além de sete funcionários da cadeia. No final de sábado, o departamento reconheceu que 19 detentos haviam testado positivo, dois a menos do que o número afirmado na carta do conselho e 12 funcionários.

Mais de 2,2 milhões de pessoas estão encarceradas nos Estados Unidos, mais do que em qualquer lugar do mundo e há receios crescentes de que um surto possa se espalhar rapidamente através de uma vasta rede de prisões federais e estaduais, cadeias municipais e centros de detenção.

É uma população fluida e bem compactada que já vinha enfrentando altos índices de problemas de saúde e riscos elevados de complicações sérias quando se tratam de idosos e internos. Com capacidade limitada em nível nacional para testar o Covid-19, homens e mulheres presos se preocupam com o fato de serem os últimos da fila a apresentar sintomas semelhantes aos da gripe, o que significa que alguns podem estar infectados sem saber.

Os primeiros testes positivos de dentro de prisões e prisões começaram a ocorrer há pouco mais de uma semana, com menos de duas dúzias de policiais e funcionários infectados em outras instalações, da Califórnia e Michigan à Pensilvânia.

O prefeito Bill de Blasio disse, no início desta semana, que os promotores estavam trabalhando para identificar presos com direito à liberdade condicional e, na noite de sexta-feira, os promotores da cidade de Nova York concordaram em libertar 56 detentos de Rikers, que apresentaram fiança ou outra contrapartida.

Bianca Tylek, diretora executiva da organização nacional de defesa da justiça criminal de Worth Rises, disse que isso não será suficiente.

"Há quase 1.500 pessoas encarceradas em Rikers Island por delitos leves ou violações técnicas de liberdade condicional que podem ser libertadas imediatamente", disse ela. "Liberá-los reduziria o risco de infecção, reduziria o risco de todos aqueles que permanecerem presos e reduziria a propagação do vírus ao público".

Enquanto isso, um homem encarcerado na cidade de Nova York se tornou o primeiro caso confirmado no sistema penitenciário federal. O homem, que está alojado no Centro de Detenção Metropolitana no Brooklyn, reclamou de dores no peito na quinta-feira, alguns dias depois de chegar às instalações, informou o Departamento Federal de Prisões à AP. Ele foi levado para um hospital local e testado para o COVID-19, disseram autoridades.

Ele recebeu alta do hospital na sexta-feira e voltou para a prisão, onde foi imediatamente isolado, segundo a agência, acrescentando que a equipe médica e psiquiátrica o visitava rotineiramente.

Outros presos alojados com este homem também estão em quarentena, junto com funcionários que podem ter tido contato com ele.

A Agência de Prisões [Bureau of Prisons] interrompeu temporariamente as visitas em todas as 122 instituições federais de correção nos EUA, incluindo visitas sociais e legais, embora as autoridades tenham dito que algumas exceções podem ser feitas nas visitas legais.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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