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Coronavirus: a gerra sem tréguas dos laboratórios por uma vacina

A batalha tecnológica e financeira que travam os grupos farmacêuticos mundiais para desenvolver uma vacina é implacável. Uma competição selvagem que sofre de falta de colaboração e objetivos claros

26/06/2020 15:12

(Athit Perawongmetha/Reuters)

Créditos da foto: (Athit Perawongmetha/Reuters)

 
Vestindo um jaleco branco com o logotipo Sanofi e uma máscara cirúrgica azul, Emmanuel Macron ouve atentamente os cientistas que lhe detalham a fabricação de uma vacina. Nesta terça-feira, 16 de junho, o Presidente da República visita a filial de Marcy-l'Etoile, muito perto de Lyon, onde a gigante farmacêutica acaba de anunciar um investimento de quase meio bilhão de euros em uma nova fábrica a fim de "garantir o fornecimento de vacinas à França e à Europa em caso de novas pandemias".

Em respeito ao distanciamento físico, Paul Hudson, diretor geral do grupo, segue alguns passos atrás, procurando respeitar a marcação azul no chão. Um mês antes, ele havia gerado polêmica ao sugerir que os [norte-] americanos poderiam se beneficiar com prioridade de uma vacina contra o Covid-19 devido a acordos por ocasião de seus investimentos na pesquisa. O conflito parece enterrado, mas a batalha pelo acesso à vacina está apenas começando.

"A vacina jamais foi considerada em grau tão alto como um ativo estratégico, essencial à segurança nacional, à recuperação econômica e à saúde pública", afirma a [norte-] americana Suerie Moon, co-diretora do Centro Global de Saúde do Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento (IHEID) de Genebra.

No momento em que a epidemia já levou quase 470.000 vidas, a imunização da população contra o SARS-CoV-2 parece ser uma das únicas maneiras de sair da crise. De acordo com uma modelagem do Institut Pasteur, entre 3% e 7% da população estaria infectada pelo coronavírus que surgiu no final de 2019 na China. Bem distante dos 60% a 70% necessários, segundo especialistas, para alcançar a "imunidade coletiva". Todos concordam com o fato de que "teremos que aprender a conviver com o vírus".

Desde janeiro e dos alertas vindos da China, pesquisadores especializados em doenças infecciosas não têm mais dúvidas: o SARS-Cov-2 tem todas as características da doença "X", uma patologia ainda desconhecida, incluída em 2018 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) à sua lista de infecções susceptíveis de representar um "perigo global".

No final de janeiro, quando o presidente chinês Xi Jinping admite que a situação é "grave" e que a epidemia "se acelera", os cientistas já estavam em procedimentos iniciais para uma vacina. Quer façam parte de grandes instituições de pesquisa - a Universidade de Oxford, no Reino Unido, o Instituto Pasteur na França, Harvard nos Estados Unidos - ou de departamentos de pesquisa e desenvolvimento de gigantes farmacêuticas - Sanofi, Merck, Johnson & Johnson, AstraZeneca -, todos se indagam a respeito da estratégia a adotar diante desse vírus, do qual ainda não sabemos nada.

Muito rapidamente, só se fala da proteína Spike, a chave que permite ao SARS-CoV-2 entrar nas células. Quase todas as 200 candidatas a vacina identificadas no mundo a têm como alvo.

No papel, o princípio é simples: trata-se de apresentar esse antígeno ao sistema imunológico para forçá-lo a contra-atacar graças a diferentes mecanismos de defesa - incluindo anticorpos. Uma vez memorizada, a resposta a um ataque fictício ajuda o corpo a se proteger para seu primeiro encontro "real" com o vírus.

Batalha tecnológica

Várias tecnologias competem para chegar lá. Os "Antigos" não confiam senão nas vacinas baseadas em uma versão atenuada ou inativada do vírus original. Os "Modernos" defendem vacinas baseadas em um "vetor" - o vírus do sarampo ou um adenovírus geneticamente modificado para expressar o antígeno desejado. Finalmente, os "Futuristas" apostam no DNA ou RNA para transmitir às nossas células as instruções de fabricação desse antígeno.

Essa batalha tecnológica representa um verdadeiro trampolim para certas "plataformas" desenvolvidas por equipes ainda pouco presentes no suculento mercado de vacinas (mais de 30 bilhões de dólares ou 26 bilhões de euros).

É o caso da empresa de biotecnologia Moderna, que ainda não possui vacina comercializada, mas cujo mRNA-1273 está à frente na corrida, com o primeiro paciente injetado desde 16 de março. A britânica AstraZeneca, associada à Universidade de Oxford, também está na frente: os testes para sua candidata a vacina, criada a partir de um adenovirus de chimpanzé, o ChAdOx1, já estão bem avançados, com vários milhares de participantes recrutados no Reino Unido e no Brasil. A [norte-] americana Johnson & Johnson aposta por sua vez em uma tecnologia comparável, que utilizou para desenvolver sua vacina contra o Ebola, em processo de aprovação pelas autoridades europeias.

Ao lado desses novos participantes, os pesos pesados %u20B%u20Bdo setor costumam ter muitos instrumentos à mão. A gigante [norte-] americana Merck (7,4 bilhões de euros de faturamento em vacinas) adquiriu os direitos da candidata desenvolvida pelo Institut Pasteur a partir de sua vacina contra o sarampo; e também desenvolve em paralelo uma versão "Covid" de sua vacina contra o Ebola, rVSV-Zebov.

A Sanofi Pasteur (5,7 bilhões de euros), por sua vez, aposta na adaptação de uma de suas vacinas contra gripe, que testará a partir de setembro, e em uma vacina experimental baseada no RNA mensageiro em parceria com a empresa [norte-] americana de biotecnologia TranslateBio - um acordo de 375 milhões de euros anunciado terça-feira, 23 de junho, pela gigante francesa. A [norte-] americana Pfizer (5,7 bilhões de euros) concluiu um acordo com a empresa alemã de biotecnologia BioNTech, que também desenvolve vacinas de RNA.

Essa competição não deixa de suscitar perguntas: não se corre o risco de chegar a um impasse se todos pesquisam na mesma direção? As diferentes equipes compartilharão seus resultados, sejam positivos ou negativos?

"Existe um consenso de que " proteína S " é o elemento do vírus mais suscetível de desencadear uma resposta imune", avalia Pascal Soriot, diretor executivo da AstraZeneca. O mesmo alvo, mas "abordagens tecnológicas diferentes, e todos esperamos que, no final, haja várias vacinas". Porque, segundo ele, o momento não é de competição. "É claro, os dados serão compartilhados, mas no momento não há muitos. (…) Saberemos se uma vacina funciona ou não apenas no final dos ensaios clínicos ”, insiste.

Mesma história na Johnson & Johnson. "Não se trata de uma corrida entre nós, mas de uma corrida contra o vírus", disse Johan Van Hoof, que supervisiona a pesquisa que busca a vacina. "Mesmo que tudo pareça perfeito no papel, às vezes há surpresas. A biologia nem sempre é previsível ", alerta Stewart Cole, que dirige o Instituto Pasteur.

Batalha por financiamentos

Essa batalha tecnológica é acompanhada de uma batalha por financiamentos, que desta vez casa-se com as fronteiras geopolíticas. Segundo o think tank Policy Cures Research, mais de US $ 4,5 bilhões foram alocados ao desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19. E três grandes blocos estão surgindo: os Estados Unidos, cuja Biomedical Advanced Research and Development Authority (Barda) já colocou vários bilhões de dólares em cima da mesa, a Europa e a China.

Os [norte-] americanos escolheram caminhar sós. A cada semana, seu presidente, Donald Trump, divulga as boas notícias. Em 5 de junho, anunciou que as empresas nacionais já tinham dois milhões de doses "prontas para uso"; no dia 16 de junho, que os testes estavam "muito avançados" e que "uma resposta muito boa" chegaria "muito, muito rapidamente" ... Cada vez, seus colaboradores corrigem a declaração e a imprensa especializada ironiza.

No entanto, com a operação "Warp Speed" (que significa "a velocidade da luz"), liderada por um general, secundado por um ex-chefe da indústria farmacêutica, é bem a linha " America First " que é seguida. Depois de ajudar cerca de quinze projetos, a força-tarefa selecionou cinco, que receberão bilhões de dólares: quatro [norte-] americanos - Moderna, Johnson & Johnson, Merck (por sua vacina rVsv), Pfizer - e a britânica AstraZeneca, com quem a administração [norte-] americana assinou um acordo garantindo o fornecimento da vacina. Ficou fora a francesa Sanofi.

Em resposta, os europeus também mobilizaram artilharia pesada. A Comissão Européia organizou uma "maratona" de adesões em 4 de maio, quando doadores estatais e privados anunciaram suas contribuições. Se o Velho Continente está no centro do dispositivo, os doadores são mundiais, como as iniciativas apoiadas durante dois anos. Alcançou-se um total de 9,8 bilhões de euros, bem acima da meta original de 7,5 bilhões de euros. Uma nova cúpula está prevista para 27 de junho.

Os centros de pesquisa europeus deverão também poder contar com fundos da CEPI (Colalition pour l'innovation en matière de préparation aux épidémies; Coalizão pela Inovação em matéria de Preparação para Epidemias), ONG internacional, lançada em 2017 no Fórum de Davos, para o desenvolvimento de vacinas contra diversos vírus: MERS-CoV, Nipah, Ebola, Marburg, Zika e o vírus da febre de Lassa ... Apoiada pela Fundação Gates e alguns outros pesos pesados, a CEPI lançou-se à batalha contra o Covid-19. Já levantou 1,4 bilhão e selecionou oito projetos.

Entre eles está a proposta "francesa" mais avançada, uma vacina recombinante, tendo como vetor o vírus do sarampo, desenvolvida por um consórcio do Instituto Pasteur e da Themis Bioscience (comprada nesse ínterim pela Merck). Os primeiros ensaios clínicos (fase 1) estão previstos para setembro de 2020.

A situação é mais opaca na China. Nenhuma iniciativa mundial foi oficialmente anunciada, mas na "guerra do povo" contra o Covid-19, o desenvolvimento de uma vacina é uma "prioridade absoluta". O mano a mano ao qual se dedicam Xi Jinping e Donald Trump intensifica ainda mais a questão. Pequim, portanto, colocou recursos de vulto. Universidades, empresas, mas também o exército, foram mobilizados. Com resultados: dos dez projetos que iniciaram ensaios clínicos, cinco são chineses, começando pelos das empresas CanSino Biologics e Sinovac Biotech, que entraram na fase 2.

Batalha pelos pacientes

Há certamente uma corrida para ver quem é o mais rápido. Em vez dos cinco a dez anos geralmente necessários para desenvolver uma vacina, estamos falando de janeiro de 2021 ou mesmo de novembro de 2020. Uma linha de chegada quase irreal.

Os laboratórios acabaram de lançar os primeiros ensaios clínicos. Mesmo os mais avançados, como Moderna ou AstraZeneca, estão longe de acumular dados suficientes com seus primeiros estudos. Mas todo mundo está acelerando. Porque o declínio da epidemia complica a tarefa.

"Se não houver infecções suficientes, levará meses para conseguirmos acumular um número de eventos passível de mostrar uma diferença estatística entre dois grupos. (...) Estamos tentando correr o mais rápido possível para agarrar a doença antes que ela desapareça ", aponta Pascal Soriot, que já tem um estudo em andamento no Brasil. O gigante sul-americano e sua epidemia galopante também devem acolher os primeiros ensaios da fase 3 do chinês Sinovac, em julho. A Johnson & Johnson também está considerando a América do Sul, mas avalia outras possibilidades.

Nos Estados Unidos, o recurso à "regra animal" permite solicitar uma autorização de comercialização com base nos resultados observados em animais. Alguns pensam em lançar um "desafio infeccioso", que consiste em injetar o vírus em voluntários que foram vacinados, para verificar se estão bem protegidos. "Este é um assunto que estamos discutindo, mas é delicado", diz Johan Van Hoof.

Batalha pela produção

Sem esperar pelos resultados, laboratórios e Estados devem imperativamente começar a produzir. Em todo o mundo, existe um inventário das capacidades de fabricação. Com um desafio: evitar um comércio interesseiro e desonesto em torno das primeiras doses. A Merck está comprometida em mobilizar seus vários locais de produção nos Estados Unidos e na Europa ", mas isso não será suficiente para centenas de milhões de doses", admite Clarisse Lhoste, presidente da subsidiária francesa do laboratório, acrescentando que A Merck está trabalhando para "identificar novos parceiros".

AstraZeneca e Johnson & Johnson esperam poder produzir respectivamente dois bilhões e um bilhão de doses, apoiando-se em suas fábricas e nas de seus parceiros. Moderna, que também quer chegar a um bilhão de doses, celebrou um acordo com a suíça Lonza.

Um laboratório pouco conhecido deve desempenhar um papel importante nesse aumento: o Serum Institute of India, principal fabricante mundial de vacinas, especialmente para os países em desenvolvimento. Foi assinado um acordo para a produção da vacina desenvolvida pelo Instituto Pasteur e outro para a da AstraZeneca. De quatro a cinco milhões de doses por mês a partir de junho, o fabricante poderia atingir um ritmo rotineiro de 350 a 400 milhões de doses anualmente.

Batalha pelo acesso

Mas a quem elas irão? Após um acalorado debate em 18 e 19 de maio, os 194 Estados membros da OMS adotaram uma resolução que torna as futuras vacinas "bens públicos globais".

No entanto, a luta continua. Os laboratórios vendem suas promessas, os Estados compram esperança. AstraZeneca prometeu vender sua vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford "a preço de custo", ou seja, cerca de US $ 2 por dose. Resultado: os Estados Unidos encomendaram já em maio 400 milhões de doses por 1,2 bilhão de dólares (1,07 bilhão de euros). Em seguida, a Alliance inclusive pour les vaccins (Aliança Inclusiva para Vacinas), que reúne Alemanha, França, Itália e Holanda, assinou em 13 de junho: 750 milhões de euros para 300 milhões de doses, com a opção de 100 milhões de doses adicionais . Gavi, uma parceria público-privada lançada em 2000 para vacinar crianças em países desfavorecidos, procurou se previnir: dispondo de um tesouro de guerra de cerca de 8,8 bilhões de dólares, encomendou 300 milhões de doses, por 663 milhões.

Tudo isso, sem nenhuma certeza de resultado, é claro. "Nós pagamos para ver", diz a virologista Marie-Paule Kieny, diretora de pesquisa do Inserm (Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale) e membro do comitê de análise, pesquisa e perícia (CARE) sobre o Covid-19. "Pagar deveria conferir o direito de se informar sobre a própria pesquisa em curso. "

No entanto, não é assim. "Enquanto a maioria dos custos e riscos são suportados pelo setor público, ele deveria desempenhar um papel muito mais diretivo, garantindo o compartilhamento rápido de dados, regulando os preços e alocando um suprimento limitado de vacinas para garantir que aqueles em maior risco - como profissionais de saúde e grupos etários mais velhos - receberiam a vacina primeiro ”, argumenta Suerie Moon, do IHEID (Institut de Hautes Études Internationales e du Développement) de Genebra.

Se todos saúdam a mobilização em todas as direções, a competição selvagem deixa muitos especialistas céticos. "Deveríamos dispor de uma variedade de projetos, mas essa batalha não permite", lamenta Els Torreele, pesquisadora em saúde pública e ex-responsável pelo programa de acesso a medicamentos do Médicos Sem Fronteiras. Todo mundo tem como alvo a proteína S, faz sentido à primeira vista. Mas a solução durável pode vir de outro lugar, só que requer mais pesquisa, mais tempo. Seu medo? "Que a pressão financeira seja tal que se estabeleçam padrões muito baixos, autorizando várias vacinas medíocres. E, em seguida, que não tenhamos nem capacidade financeira, nem vontade política, nem os voluntários necessários para desenvolver uma boa vacina."

Além disso, que vacina visam os industriais? As partes interessadas tiveram o cuidado de não anunciar seus objetivos. Nessa fase, insiste Marie-Paule Kieny, "sabemos pouco sobre o objetivo das candidatas à vacina: proteger da infecção ou reduzir a gravidade da doença." Até o momento, nenhuma das vacinas testadas em macacos foi capaz de suprimir a infecção, apenas para evitar danos aos pulmões.

"Como o vírus reagirá se lhe fecharmos a porta dos pulmões?", pergunta William Haseltine, infectologista [norte-] americano, ex-professor da faculdade de medicina de Harvard. Permanecerá no nariz? Atingirá o coração, o cérebro? Nós não sabemos. "

E se, em cenário de pesadelo encontrado há não muito tempo com a dengue, a vacina aumentasse o risco de uma infecção mais grave? "A urgência não deve nos tornar aprendizes de feiticeiros", diz Christophe d'Enfert, diretor científico do Institut Pasteur. "Não correr riscos que possam provocar falhas e reduzir ainda mais a adesão da sociedade à vacinação. "

Transformar a prova de velocidade em corrida de longa distância, coletiva, com regras claras e objetivos estabelecidos. Não é impossível, em certo prazo, quer crer Marie-Paule Kiény: "Todos os fabricantes de vacinas têm em mente ganhar 'na loteria'. Se falharem, vão querer colaborar com seus concorrentes. "

*Publicado originalmente em 'Le Monde' | Tradução de Aluisio Schumacher



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