Pelo Mundo

Coronavírus já matou 30.000 estadunidenses, e tudo o que Trump consegue fazer é culpar a OMS

O presidente dos EUA está usando a OMS como bode expiatório para mascarar sua própria inércia mortal diante da pandemia

20/04/2020 13:44

No meio de um ano eleitoral, com seus índices de aprovação caindo, Trump precisa encontrar outra pessoa para culpar (Action Press/Rex / Shutterstock)

Créditos da foto: No meio de um ano eleitoral, com seus índices de aprovação caindo, Trump precisa encontrar outra pessoa para culpar (Action Press/Rex / Shutterstock)

 
“Um crime contra a humanidade.” Richard Horton, editor do The Lancet, falou por muitos quando condenou a decisão do presidente Trump de cortar o financiamento estadunidense à Organização Mundial da Saúde, em meio a uma pandemia que infectou estimadas 2 milhões de pessoas, e, entre elas, matou mais de 137.000. O desdém de Trump em relação a acordos internacionais é bem conhecido. Em 2017, ele tirou os EUA da UNESCO e do Acordo de Paris. No ano seguinte, ele retirou o país do acordo nuclear com o Irã. Essas saídas deixam os EUA ainda mais de fora do sistema internacional. Já não aparece mais na lista de países que ratificaram alguns dos acordos internacionais mais importantes, incluindo convenções sobre tortura, discriminação contra mulheres, direitos das crianças e minas terrestres.

Até agora, líderes mundiais aderiram ao protocolo diplomático, evitando qualquer coisa menos críticas públicas a esse presidente notadamente sensível. Seus verdadeiros sentimentos só são revelados quando suas conversas são escutadas acidentalmente. Dessa vez é diferente. Simon Coveney, o ministro das Relações Exteriores da Irlanda, um país com vínculo excepcionalmente estreito com os EUA, descreveu a decisão de Trump de cortar financiamento da OMS como “uma decisão indefensável, em meio a uma pandemia global. Muitas populações vulneráveis contam com a OMS – prejudicar deliberadamente o financiamento e a confiança agora é chocante”. Heiko Maas, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha se conteve um pouco mais, tuitando: “culpar não ajuda. O vírus não conhece fronteiras”. No Reino Unido, no entanto, onde ministros ainda esperam por um acordo comercial pós-Brexit, um porta-voz de Downing Street rejeitou um convite a se unir à condenação, embora tenham demonstrado apoio à OMS.

Por que prejudicar a organização que está na linha de frente da resposta à pandemia? Para Trump, isso parece particularmente ilógico – a pandemia já matou mais de 30.000 estadunidenses. A resposta é simples. Em ano eleitoral, com suas taxas de aprovação caindo, Trump precisa achar alguém para culpar. Agora que as coletivas na Casa Branca têm o papel de discursos de campanha na América do Norte confinada, nada pode minimizar a narrativa de que ele é o salvador do povo estadunidense. Os outros são culpados pelos fracassos. Primeiro foram os mexicanos (ironicamente, o México agora está restringindo a entrada de estadunidenses). Depois foi a China, cujos líderes políticos são considerados por Trump como insuficientemente subservientes. Agora, ele redirecionou sua ira para a OMS.

Nem precisa ser dito que Trump justificou sua decisão com alegações que não suportam nem as análises mais básicas. Ele alega que a OMS estava “administrando severamente mal e mascarando” os estágios iniciais da pandemia, com isso, adiando a resposta dos EUA. No entanto, a OMS alertou sobre a transmissão de pessoa para pessoa em 23 de janeiro. Seis dias depois, seu conselheiro econômico alertou para a possibilidade de centenas de milhares de mortes estadunidenses. Trump ignorou ambos.

Essa decisão irá claramente prejudicar a OMS. Primeiro, tem a perda de financiamento. Como o país mais rico do mundo, os EUA contribuem com 40% do orçamento principal da OMS, embora isso só represente 20% do seu gasto total. Os EUA também contribuem com a maior parte dos 80% restantes de contribuições voluntárias.

Os EUA contribuem teoricamente com cerca de 10-15% do orçamento da OMS como seu maior contribuidor. Não é certo se Trump pode legalmente bloquear os pagamentos ao orçamento principal da OMS, uma vez que são autorizados pelo Congresso, mas ele poderia parar os pagamentos voluntários feitos por agências federais como o Centro de Controle de Doenças.

Com uma total contribuição de um pouco menos de 900 milhões de dólares, quase o que o NHS gastou em 36 horas, outros países poderiam se apresentar para repor, pelo menos, um pouco dessa perda. No entanto, a decisão provavelmente terá um efeito desproporcional em áreas onde os EUA fizeram contribuições substanciais, como a erradicação da pólio. Mais importante, é uma grande distração para uma organização que está trabalhando sem parar para atacar uma das ameaças mais sérias à saúde de todos, incluindo estadunidenses.

A pandemia da COVID-19 expôs a fraqueza de líderes individuais e da cooperação internacional. Em um mundo onde Jair Bolsonaro pode ameaçar o mundo ao permitir o desmatamento da Amazônia, ou onde Donald Trump pode prejudicar aqueles que estão liderando as respostas à uma pandemia, a necessidade de uma nova ordem internacional nunca foi tão urgente.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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