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Covid-19: como a Suécia fez tudo errado

 

15/07/2020 12:17

O primeiro-ministro sueco, Stefan Lofven (Ali Lorestani/TT News Agency/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: O primeiro-ministro sueco, Stefan Lofven (Ali Lorestani/TT News Agency/AFP via Getty Images)

 
Em fevereiro, quando o coronavírus começou a se espalhar rapidamente pelo mundo, o epidemiologista estatal sueco não viu a necessidade de fechar o país. Muitos suecos começaram a voar por toda a Europa para suas férias anuais de inverno. Os líderes de saúde pública do país insistiram em manter as empresas e as escolas primárias abertas enquanto o resto do mundo as fechava. Máscaras faciais eram constantemente desencorajadas. Meses depois, a Suécia tem agora uma das maiores taxas de mortalidade pelo coronavírus em toda a Europa. Sua abordagem de não interferir na pandemia tem sido desastrosa e, surpreendentemente, ainda não está claro se a política da Suécia mudará de rumo.

No episódio de terça-feira (14) de What Next, falei com Lena Einhorn, uma escritora [sueca], cineasta e ex-pesquisadora médica, sobre como a Suécia fez tudo errado e o que pensar sobre o que está acontecendo lá agora. Nossa conversa foi editada e condensada para clareza.

Harris: Vamos voltar ao começo. A Suécia demorou muito a responder ao vírus. Mas eu me lembro que isso foi visto nos Estados Unidos quase como uma inovação. Lembro-me de ver artigos dizendo que o país era um ponto fora da curva na Europa, confiando nas pessoas para seguir voluntariamente os protocolos. Mesmo que muitos não respeitassem, isso parecia não afetá-los. Você se recorda disso?

Lena Einhorn: Claro. O problema é que não era apenas uma questão de confiança — era uma questão de recomendação. As recomendações eram diferentes na Suécia. Os restaurantes foram mantidos abertos. Especialistas defendiam que não se usassem máscaras faciais. É diferente da maioria dos países de hoje.

A reportagem mostra que a agência de saúde pública da Suécia se opôs duramente às pesquisas mostrando que pessoas que pareciam saudáveis poderiam ser contagiosas. E por todos os dados adicionais que temos, eles não ajustaram substancialmente suas orientações.

No início, a agência escreveu em seu site que não havia precedentes para a disseminação dramática daqueles que são assintomáticos. Hoje, eles ainda dizem, é possível, mas não é o que comanda a epidemia. E assim a agência ainda tem as mesmas recomendações: Lave as mãos e fique em casa se você se sentir mal. A página deles ainda diz que, se alguém em sua casa tiver COVID-19, você deve ir para o trabalho ou escola como de costume.

A agência de saúde pública pode estar se recusando a admitir que cometeu um erro porque isso significa admitir que você causou a morte de muitas pessoas. É uma coisa muito difícil de admitir.

Harris: A política do país foi moldada pelo epidemiologista estatal Anders Tegnell, que fala sobre imunidade de uma forma engraçada. Ele nega que sua estratégia seja tornar a população imune ao coronavírus. Mas, ao mesmo tempo, ele apresenta esses números que sugerem o contrário. Ele disse há um tempo: "Acreditamos que até 25% das pessoas em Estocolmo foram expostas ao coronavírus e possivelmente estão imunes". Não sei qual era a prova dele para isso. Mas, ao apresentar isso, ele sugere que talvez seja algo que gostaria que fosse verdade.

Lena Einhorn: No começo, ele era muito aberto. Ele acreditava que a única maneira de resolver isso era através da imunidade de rebanho — ele realmente disse isso. Então, da vez seguinte ele negou isso. Ao mesmo tempo, a agência exagerou na prevalência de anticorpos. Agiram como se as autoridades quisessem que os mais jovens se infectassem, porque eles são muito, muito rigorosos com pessoas com 70 anos ou mais, para que fiquem em casa e não se reúnam com as pessoas.

Harris: Eles reconhecem claramente que há uma população vulnerável.

Lena Einhorn: Com certeza. Mas o problema é que tantas pessoas morreram em retiros de idosos, tanto nos asilos quanto em casa. Isso remonta à propagação pré-sintomática e assintomática. Os epidemiologistas suecos não acreditam que isso impulsione a pandemia, e eles não defendem o uso de máscaras faciais nos asilos de idosos, a menos que as pessoas estejam trabalhando com alguém que está doente. Mas muitas das pessoas que trabalhavam nas creches vieram de áreas de Estocolmo onde havia muita propagação, como nos subúrbios. As pessoas disseram que elas vinham trabalhar doentes. Não, elas não vieram trabalhar doentes. Elas vieram pré-sintomáticas. Elas não tinham sintomas. Mas como lhes disseram para não usar máscaras faciais, provavelmente transmitiram aos idosos. E foi assim que se espalhou.

Harris: Com uma taxa de mortalidade e uma taxa de infecção que são muito maiores do que as dos países vizinhos, é difícil pensar por que a população em geral não se levantou e disse: Queremos mais restrições, queremos mais controle desse vírus.

Lena Einhorn: Há algumas respostas para isso. Um aspecto tem a ver com ilusões ou desejos - queremos que tudo saia bem. Outra é que queremos poder viver como sempre vivemos. A terceira é que queremos acreditar que nosso país é bom e está fazendo a coisa certa.

Há outro aspecto, que é que a agência de saúde pública e o epidemiologista estatal tiveram coletivas de imprensa todos os dias durante a semana às duas horas. Agora, no verão, é apenas duas vezes por semana. Mas até recentemente, eles faziam isso todos os dias durante a semana e todo mundo assistia. Eles basicamente sempre disseram: “tudo parece que está indo bem. Sabemos que está difícil para os hospitais, mas estamos indo na direção certa…”

Harris: Eles diziam isso mesmo quando os números estavam subindo?

Lena Einhorn: Sim. Sempre foi assim: “os números estão subindo, mas está achatando”, “não está subindo mais de modo tão íngreme”. E no começo, eles disseram: “nós vamos chegar ao pico amanhã”. E no dia seguinte eles disseram: “vez em dois dias.” Sempre houve uma mensagem positiva nas conferências de imprensa. Quando alguém em quem você quer confiar diz essas coisas de uma forma tão tranquilizadora, as pessoas querem acreditar.

Harris: Você notou algum tipo de mudança na perspectiva sueca sobre esta abordagem à medida que o número de mortes subia, à medida que as taxas de infecção subiam?

Lena Einhorn: O apoio à política sueca diminuiu. Costumava ser muito alto. Não é mais tão alto. Eu ainda diria que o apoio é muito forte, mas está definitivamente muito mais polarizado em comparação com como era. Além disso, os jornais, seus editoriais começaram a ficar muito mais críticos. Mas o que não mudou no mínimo é a política da agência de saúde pública e do governo. Eles estão presos às suas mesmas armas.

Harris: De certa forma, parece que a Suécia está fazendo deliberadamente o que os EUA fizeram, com incompetência e negligência.

Lena Einhorn: Sim, e eu não sei o quão bem sucedido você poderia chamar quando nós temos um número de mortes maior, por milhão de habitantes, do que os EUA.

Harris: Neste momento, os casos de coronavírus estão em declínio na Suécia. Na semana passada, a contagem diária de COVID na Suécia caiu para seu ponto mais baixo desde maio. O diretor da agência de saúde do país disse: "Estamos começando a nos aproximar de níveis que outros países acham aceitáveis". O que significa para você que os números da Suécia estão diminuindo agora? Isso significa que houve algum tipo de sucesso?

Lena Einhorn: Bem, os números não estão se reduzindo tão radicalmente como está acontecendo em países que tiveram confinamentos. A Suécia ainda tem taxas mais altas do que os países vizinhos e muitos outros países. Mas está caindo. Poderia haver explicações diferentes para isso, porque ainda está se espalhando muito entre os jovens. Estou especulando que uma das razões pelas quais está diminuindo é que as rotinas dos estabelecimentos de saúde são muito melhor trabalhadas, então não está atingindo os idosos na mesma medida.

Outra razão pela qual está acontecendo é porque você tem que saber o que acontece na Suécia no meio do verão. De 20 de junho a 1º de agosto, a Suécia é um local de férias de verão. Isso significa que as pessoas estão nas casas de campo, elas não estão trabalhando. Há muito mais distanciamento social por razões naturais agora. Então esse é outro aspecto.

Harris: O que as pessoas estão pensando sobre a escola? E sobre as empresas? Voltou ao normal?

Lena Einhorn: Nossas escolas estavam abertas, exceto para o ensino médio e universidades. O que foi realmente assustador para algumas pessoas porque talvez eles tinham pais com fatores de risco. Mas as crianças foram forçadas a ir para a escola. Se os pais mantivessem as crianças em casa, eram ameaçados de intervenções sociais. E agora as escolas de ensino médio estarão abertas novamente também. Então as pessoas vão voltar.

Harris: Isso te preocupa?

Lena Einhorn: Com certeza! Agora o que estamos pensando é, eles vão finalmente mudar a política no outono? Eles dirão, por favor, usem uma máscara facial? Não só estou preocupada, mas também curiosa sobre o que acontecerá em setembro.

*Publicado originalmente em 'Slate' | Tradução de César Locatelli



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