Pelo Mundo

Crescem as suspeitas sobre a ajuda de Bolsonaro aos golpistas da Bolívia

Bolívia vai investigar o papel do Brasil na trama internacional que envolve a Argentina

21/07/2021 18:02

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
Lidia Patty Mullisaca é a líder indígena boliviana, integrante do Movimento pelo Socialismo (MAS) do qual foi deputada, que denunciou Jeanine Añez, a ex-presidente que emergiu após o golpe que derrubou o presidente Evo Morales em novembro de 2019, por terrorismo e conspiração.

Em razão das ameaças de morte e agressões racistas de que tem sido vítima devido à sua cruzada judicial que levou a Añez e a cúpula sediciosa à prisão, Patty se desloca pelos tribunais de La Paz e do município de Charazani, onde foi vereadora, acompanhada por uma escolta designada pelo Presidente Luis Arce.

“Eles querem me intimidar, acham que vou ter medo deles, não tenho medo deles, vou continuar até que a justiça seja feita (...) dizem que sou o terror de os antipatria.”

Com uma saudação em quíchua e espanhol ao "irmão jornalista do jornal PáginaI12", Patty começou a responder às perguntas desta entrevista por telefone em que sublinhou o seu interesse em ir ao fundo da "trama internacional, que teve o apoio de Brasil" para derrubar Morales.

A trama da qual participaram os ex-presidentes Mauricio Macri e o equatoriano Lenín Moreno respondeu a um plano de implantação de um regime vinculado a Washington e a multinacionais ávidas por lítio e hidrocarbonetos, afirma a dirigente do MAS.

Añez e os seus “afastaram o presidente Evo, eleito democraticamente, para voltar a ser como éramos antes, dando recursos naturais e minerais a estrangeiros, para voltar a nos tratar como escravos”.

"Esse Sr. Bolsonaro"

"(Jair) Bolsonaro apoiou o golpe, gostaria de saber como esse homem se sentirá neste momento em que tantas pessoas morreram no golpe, tantas mulheres que ficaram viúvas, tantos pais que ficaram sem filhos."

“Apoiar um golpe para que tantos irmãos sejam assassinados, esse é um crime que não pode ficar assim”, Patty se indigna ao falar dos massacres de Senkata e Sacaba que deixaram mais de 30 mortos e centenas de feridos.

As suspeitas sobre o presidente brasileiro expressas por esta bem informada mulher, que antes de ser deputada foi professora e empregada doméstica, são compartilhadas pelo governo boliviano.

O porta-voz da Presidência, Jorge Richter, afirmou neste sábado a intenção de colocar a lupa sobre a "ajuda e assistência (chegadas) do Chile e do Brasil" nos fatos revelados por meio dos documentos que acusam Macri de enviar armas para reprimir a resistência democrática .

Em consonância com o Poder Executivo, o titular da Câmara dos Deputados, Freddy Mamani Laura, expressou a decisão de criar uma "comissão mista exclusiva" para lançar luz sobre um quebra-cabeça que teria várias peças a mais do que as conhecidas até agora.

“Estamos acompanhando os acontecimentos (...) não é por acaso que esse senhor brasileiro (o representante da embaixada brasileira) esteve presente na reunião que planejou o golpe”, que teve como anfitrião o encarregado de negócios estadunidense, Bruce Williamson.

Até o momento não há documentos sobre a possível cumplicidade brasileira por meio de apoio econômico ou por armamentos.

Apoio que está demonstrado no nível político.

Em 12 de novembro de 2019, dois dias após a queda do governo constitucional, Brasília "felicitou" a posse de Añez, com quem prometeu "aprofundar a amizade". Uma promessa plenamente cumprida por Bolsonaro, cujas relações com Morales haviam sido mais do que distantes.

Brasília nega

O escândalo desmascarado com as revelações sobre o embarque de armas de Macri e Lenín Moreno começa a ter repercussão no Brasil.

Na semana passada, o Itamaraty alegou não ter nenhum "registro" quanto ao envio de "equipamentos de controle de distúrbios" ao governo Añez, publicou o jornal O Globo.

Não basta contentar-se com as informações prestadas por um governo viciado em notícias falsas, é preciso fazer investigações porque, desde a chegada de Bolsonaro ao Palácio do Planalto, em janeiro de 2019, sua política externa foi marcada pela "desestabilização" dos governos populares e progressistas, observa Mônica Valente, integrante da Comissão de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores.

Assumindo papel semelhante ao desempenhado pelo Brasil durante a ditadura, quando era um peão da política dos Estados Unidos na América do Sul, Bolsonaro assumiu o papel de polia de transmissão da vontade de Donald Trump. Uma espécie de cônsul honorário e vocacional.

Isso é demonstrado por várias iniciativas do ex-capitão em matéria de política externa.

Além de festejar o golpe na Bolívia, Bolsonaro incentivou e ofereceu bases na Amazônia para a suposta invasão norte-americana da Venezuela no início de 2019, mesmo ano em que apoiou as candidaturas presidenciais do uruguaio Luis Lacalle Pou e de Mauricio Macri .

No meio da campanha de proselitismo, chegou a pressentir que em caso de retorno dos esquerdistas na Argentina, com o triunfo do então candidato Alberto Fernández (a quem nunca apertou a mão), milhares de argentinos buscariam refúgio e liberdade no Brasil.

Com a mesma postura extremista, no mês passado semeou dúvidas sobre uma suposta "fraude" nas eleições peruanas e lamentou o retorno do "comunismo" que ele imagina personificado no presidente eleito, Pedro Castillo.

Um chamado para Bachelet

Lidia Patty Mullisaca denunciou duas vezes o governador de Santa Cruz de la Sierra e líder da extrema direita boliviana, Luis Fernando Camacho.

A primeira foi realizada no ano passado, pelos crimes de "conspiração" e "desestabilização" pela participação de Camacho na queda de Morales.

A segunda foi em março deste ano, quando a ativista acusou o dirigente de Santa Cruz de fazer ameaças veladas ao atual presidente Luis Arce, vencedor das eleições de outubro de 2020.

“Senhor Arce, não se esqueça de como saiu Evo Morales (em 2019), comece a respeitar e a fazer o que é apropriado”, disse Camacho, a quem alguns apelidaram de “Bolsonaro boliviano”.

Patty disse a este jornal que se "trabalharmos seriamente" nas investigações sobre Camacho, é possível que venha à tona o suposto "apoio dado pelo Brasil" ao golpe contra Morales.

Vale lembrar que o epicentro do movimento de destituições de 2019 foi a Comissão Cívica de Santa Cruz, órgão vinculado geograficamente - faz fronteira extensa - e estrategicamente com o Brasil.

Em Santa Cruz existem importantes produtores rurais brasileiros atualmente simpatizantes de Camacho e também das tentações separatistas que fermentaram outra tentativa de golpe em 2008, que foi liderada por Branko Marinkovik, asilado no Brasil onde foi elogiado por Eduardo Bolsonaro, filho do presidente.

Um dos gestos mais eloquentes dados pelo Brasil a favor da estratégia do impeachment ocorreu em maio de 2019, quando o então chanceler Ernesto Araújo recebeu e se deixou fotografar com Camacho.

Patty reconhece que às vezes se sente "um pouco solitária" nesta batalha para que "não haja impunidade" com os culpados do golpe de 2019: que inclui tanto os funcionários bolivianos quanto aqueles que "apoiaram, durante anos, de fora do país, temos investigar os países que financiaram a desestabilização."

A ativista expressa seu interesse em levar o caso ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, cuja diretora é a ex-presidente chilena Michelle Bachelet.

“É importante que isso seja conhecido internacionalmente, eu gostaria de sair, seria bom conhecer a irmã Bachelet, contar a ela o que aconteceu, contar a ela sobre as pessoas que morreram”.

“Também gostaria de falar perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, gostaria de expor o que aconteceu, seria muito importante”, finaliza a incansável Patty.

*Postado originalmente em Página 12 | Traduzido por César Locatelli



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