Pelo Mundo

Crise e fidelidade: a Igreja na despedida do Papa

27/02/2013 00:00

Dermi Azevedo

A realidade da crise na Igreja Católica Romana e a fidelidade a essa instituição, que não consiste em um projeto pessoal, foram destaques no discurso de despedida do Papa Bento XVI, na manhã desta quarta-feira (27), diante de 700 mil pessoas reunidas na Praça de São Pedro. O papa estava sereno e emocionado, ao receber os aplausos dos católicos.

Um em cada seis habitantes da Terra é católico. O mundo tem 32% de cristãos em sua população, dos quais 15, 9 milhões são católicos; 11,6 % são protestantes e 3,8% são ortodoxos. Existem ainda 23 milhões de muçulmanos; 16,3% dos homens e mulheres do mundo não têm filiação religiosa; 7,1% são budistas. Na França. um país tradicionalmente cristão. 61% são católicos; 25% não têm filiação religiosa; 7% são muçulmanos; 40% são protestantes e 2% são de outras religiões.(fonte: IFOP/França)

Diversidade
No Brasil para uma população de 184.227.000, há um total de 78.95% de católicos, ou seja, 145.446.000 (fonte: Catholic Hierarchy). De acordo com o Censo Demográfico de 2010, do IBGE, cresce a diversidade dos grupos religiosos. Como se observa nas duas décadas anteriores, a proporção de católicos segue a tendência de redução, embora tenha permanecido majoritária. Consolida-se o crescimento da população evangélica, que passou de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010. Dos que se declararam evangélicos, 60,0% são de origem pentecostal, 18,5%, evangélicos de missão e 21,8 %, evangélicos sem referencia a uma ou a outra igreja.

Aumenta o total de espíritas, dos que se declaram sem religião, ainda que em ritmo inferior ao da década anterior, e do conjunto pertencente às outras religiosidades. Os dados de cor, sexo, faixa etária e grau de instrução revelam que os católicos romanos e o grupo dos sem religião são os que apresentam percentagens mais elevadas de homens. Os espíritas demonstram os mais elevados indicadores de educação e de rendimentos.

Evangélicos: de 6,6% para 22,2%

Os evangélicos são o segmento religioso que mais cresceu no Brasil no período intercensitário. Em 2000, eles representavam 15,4% da população. Em 2010, chegaram a 22,2%, um aumento de cerca de 16 milhões de pessoas (de 26,2 milhões para 42,3 milhões). Em 1991, este percentual era de 9,0% e em 1980, 6,6%.

Já os católicos passam de 73,6% em 2000 para 64,6% em 2010. Embora o perfil religioso da população brasileira mantenha, em 2010, a histórica maioria católica, esta religião vem perdendo adeptos desde o primeiro censo, realizado em 1872. Até 1970, a proporção de católicos variou 7,9 pontos percentuais, reduzindo de 99,7%, em 1872, para 91,8%.

Esta redução no percentual de católicos ocorreu em todas as regiões, mantendo-se mais elevada no nordeste (de 79,9% para 72,2% entre 2000 e 2010) e no sul (de 77,4% para 70,1%). A maior redução ocorreu no norte, de 71,3% para 60,6%, ao passo que os evangélicos, nessa região, aumentam sua representatividade de 19,8% para 28,5%.

Entre os estados, o menor percentual de católicos foi encontrado no rio de janeiro, 45,8% em 2010. O maior percentual era no Piauí, 85,1%. Em relação aos evangélicos, a maior concentração estava em Rondônia (33,8%), e a menor no Piauí (9,7%).

8,0% dos brasileiros se declararam sem religião em 2010

Entre os espíritas, que passaram de 1,3% da população (2,3 milhões) em 2000 para 2,0% em 2010 (3,8 milhões), o aumento mais expressivo foi observado no sudeste, cuja proporção passou de 2,0% para 3,1% entre 2000 e 2010, um aumento de mais de 1 milhão de pessoas (de 1,4 milhão em 2000 para 2,5 milhões em 2010). O estado com maior proporção de espíritas era o Rio de Janeiro (4,0%), seguido de São Paulo (3,3%), Minas Gerais (2,1%) e Espírito Santo (1,0%).

O censo 2010 também registrou aumento entre a população que se declarou sem religião. Em 2000 eram quase 12,5 milhões (7,3%), ultrapassando os 15 milhões em 2010 (8,0%). Os adeptos da umbanda e do candomblé mantiveram-se em 0,3% em 2010.

Homens

Com proporções de 65,5% para homens e 63,8% para mulheres, os católicos são, junto com os sem religião (9,7% para homens e 6,4% para mulheres), os que apresentam mais declarantes do sexo masculino. Nos demais grupos, as mulheres eram maioria.

A proporção de católicos também foi maior entre as pessoas com mais de 40 anos, chegando a 75,2% no grupo com 80 anos ou mais. O mesmo se deu com os espíritas, cuja maior proporção estava no grupo entre 50 e 59 anos (3,1%). Já entre os evangélicos, os maiores percentuais foram verificados entre as crianças (25,8% na faixa de 5 a 9 anos) e adolescentes (25,4% no grupo de 10 a 14 anos).

No que tange ao recorte por cor ou raça, as proporções de católicos seguem uma distribuição aproximada à do conjunto da população: 48,8% deles se declaram brancos, 43,0%, pardos, 6,8%, pretos, 1,0%, amarelos e 0,3%, indígenas. Entre os espíritas, 68,7% eram brancos, percentual bem mais elevado que a participação deste grupo de cor ou raça no total da população (47,5%). Entre os evangélicos, a maior proporção era de pardos (45,7%). A maior representatividade de pretos foi verificada na umbanda e candomblé (21,1%). No grupo dos sem religião, a declaração de cor mais presente também foi parda (47,1%).

O Papa baseou seu discurso, na catequese do Angelus, na força da Igreja se basear os seus esforços pastorais em Deus e em Jesus Cristo “e não em projetos pessoais”. Destacou ter tomado uma decisão muito difícil e afirmou também quem continuará a servir à igreja.

Sintomas da crise

A cada dia são visíveis os sinais da crise do Catolicismo, assim como o seu imenso potencial de superação. A primeira das crises refere-se ao descompasso entre os valores da pós-modernidade e algumas realidades que ainda persistem na Igreja. Por outra parte, destaca-se que Roma praticamente esmagou os teólogos da libertação e se deslegitimou como interlocutor junto ao setores mais comprometidos com as lutas sociais, sobretudo na América Latina.

O novo Papa encontrará também um clima pesado de denúncias que atingem duramente os princípios éticos cultivados pela Igreja. O principal problema é o do uso de instituições do Estado do Vaticano para atividades de lavagem de dinheiro. Uma parte desconhecida das finanças ilegais do mundo já passou ou irá passar pelos cofres do Vaticano. Da mesma maneira, a existência de redes de pedofilia montadas à revelia do Papa representa um desafio urgente a ser vencido. Registra-se ainda a disputa do poder entre o Papa, a Cúria Romana, o conjunto dos bispos do mundo e os movimentos católicos de direita e do centro-direita.

A mulher, por exemplo, continua marginalizada na atividade eclesial. Não se ouviu hoje nenhuma voz feminina na cerimônia de despedida. Por outra parte, a manutenção do celibato obrigatório influi nos impasses da vida sacerdotal. Paralelamente a Igreja vem abrindo mão há séculos, de um grande potencial de trabalho: os padres casados. Eles são 100 mil no mundo, dos quais 8 mil são brasileiros. Já os padres oficialmente comprometidos com o celibato são 16.853 no Brasil, dos quais 6.902 pertencentes a congregações religiosas e 9.951 vinculados diretamente aos bispos.

O novo Papa

Daqui a 15 a 20 dias, provavelmente entre os dias 15 a 20 de março, será realizado o conclave. Participarão 115 cardeais sendo necessários 2/3 dos votos para que o papa seja eleito (77 votos). Os cardeais votarão quatro vezes por dia. Um sinal de fumaça será visto na praça de São Pedro de manhã e a tarde. Se a fumaça estiver clara isso significa que o novo papa foi eleito. Se for escura ainda prossegue a discussão entre os votantes.

Costuma-se afirmar, no Vaticano que o cardeal apontado como favorito, entra na eleição como novo Papa e sai novamente como cardeal. Existe, na verdade um conjunto de fatores estratégicos que pesam na eleição: primeiro, os cardeais eleitores foram todos escolhidos pelo Papa Bento XVI. Nenhum é oriundo, como cardeal, do Concílio Vaticano II, nos anos sessenta, que representou a grande plataforma do Catolicismo para os séculos XX e XXI; segundo, dos nomes citados até agora como favoritos nenhum pode ser chamados de progressista; terceiro, é ilusório pensar em um papa avançado religiosa e politicamente só pelo fato de ser proveniente das Américas, da Ásia e da África.


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