Pelo Mundo

Cristina Kirchner e os desafios que tem pela frente

12/09/2011 00:00

Eric Nepomuceno

Cristina Fernández de Kirchner tem vários desafios sérios pela frente – além, é claro, das eleições presidenciais do domingo, 23 de outubro. Pensando bem, ganhar as eleições talvez seja um desafio menor que outros, menos visíveis à distância mas bastante palpáveis dentro da Argentina.

Com relação à disputa eleitoral, o panorama é relativamente tranqüilo. Continua como franca favorita, enquanto vê seus adversários digladiando-se à procura de um rumo que se torna cada vez menos visível. Esses adversários – Ricardo Alfonsín, da União Cívica Radical, Eduardo Duhalde, de uma linha dissidente, de direita, do peronismo, e o socialista Hector Binner – sabem que suas possibilidades são ínfimas. Dos três, o que aparenta ter melhor porvir é Binner. Não que tenha chances aparentes de derrotar Cristina Kirchner, mas porque surge como uma alternativa nova, que poderá formar, a partir das eleições, uma corrente poderosa o suficiente para ser cortejado tanto pelo kirchnerismo como pela oposição.

Com relação aos outros desafios, vale registrar, desde já, ao menos dois, deixando claro, no entanto, que há vários outros, de igual densidade e intensidade.

O primeiro deles diz respeito ao Brasil. À margem do permanente conflito comercial entre ambos países, desde o final de agosto Cristina Kirchner vem instruindo enfaticamente sua equipe econômica a manter diálogo estreito com seus pares do governo de Dilma Rousseff. A grande preocupação da presidente argentina é estabelecer mecanismos bilaterais de defesa diante a crise global cujo rumo ninguém sabe ao certo, mas cujas conseqüências preocupam o mundo inteiro. O temor maior do governo argentino é uma eventual retração na economia brasileira, que fatalmente acabaria provocando sérios estragos no país.

O segundo, e talvez mais urgente desafio se refere ao próprio modelo econômico em vigor na Argentina, responsável não só pelo seguido e forte crescimento do PIB mas pela própria popularidade do governo.

Cristina Fernández de Kirchner pode pecar de um sem-fim de coisas, mas nunca de ingênua. Tem plena noção de que desde o governo de Nestor Kirchner, do qual o dela é de continuidade e aprofundamento, o gasto público argentino subiu vertiginosamente em relação ao PIB, passando de 14 a 26%. O superávit primário caiu a quase zero, o câmbio vem resistindo a pressões, mas o peso se desvalorizou consideravelmente (e correm rumores de que poderá se depreciar ainda mais assim que os resultados das urnas sejam confirmados).

Disso tudo sabe a presidente, sabe a oposição, sabem os analistas e, claro, sabem os investidores. Mas sabem também, ela e todos, que o aumento formidável dos preços internacionais das commodities compensou essas variações. No primeiro ano do governo de Nestor Kirchner, a Argentina exportou soja pelo mesmo valor que hoje o governo arrecada apenas em tributos diretos à exportação. Ou seja, o preço da soja subiu de forma espetacular e, com ele, a arrecadação do Tesouro argentino e também o jorro de dinheiro que ingressa no país.

A inflação acossa, os dados oficiais continuam sendo tremendamente contestados (e possivelmente com razão) pela iniciativa privada, e talvez o indício mais claro da distância existente entre o índice oficial e o índice da vida real esteja no nível de acordos entre trabalhadores e empresas, que ronda a média de 25% ao ano. Por mais que se considerem ganhos de poder aquisitivo, é evidente que a inflação está longe dos tais 7% indicados pelo governo em suas previsões.

Ainda no campo da economia e do modelo desenhado pelo governo de Cristina Kirchner, é preciso lembrar a questão energética. A Argentina gasta cada vez mais importando gás e combustíveis, e a essa questão se soma outra, a de uma cada vez menos disfarçável fuga de divisas.

São desafios claros e conhecidos. Da mesma forma que clara e conhecida vem sendo a firme determinação de Cristina Fernández de Kirchner na hora de buscar soluções. Enquanto isso, os argentinos continuam convivendo com o consumo interno duplicado ao longo dos últimos três anos. E é no rastro desse apoio popular que ela vê se aproximar o domingo, 23 de outubro, e tudo que virá depois.

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