Pelo Mundo

Cristina Kirchner obteve maior apoio entre mais pobres

29/10/2007 00:00

PORTO ALEGRE - A maioria dos analistas políticos, dentro e fora da Argentina, escolheu a palavra “apatia” para descrever o ambiente que marcou a disputa presidencial vencida, no primeiro turno, pela senadora Cristina Kirchner. A esposa do atual presidente, Néstor Kirchner, foi eleita com cerca de 44% dos votos, confirmando o favoritismo que a acompanhou durante toda a campanha. A apatia mencionada pelos analistas pode ser lida de duas maneiras: um desinteresse da maioria da população pelo destino do país, ou a expressão da superação de um trauma ainda muito vivo na memória do povo.

Em 2001, o país mergulhou em uma grave crise que arrastou a economia, a política e o orgulho nacional para o fundo do poço. Seis anos depois, o Produto Interno Bruto argentino cresce a uma taxa anual de 9%. Um “detalhe” que talvez ajude a entender porque a maioria optou pela continuidade, recusando maiores debates.

O povo argentino visitou o inferno social, político e econômico, deu um tapa na cara do diabo e voltou à vida. Não está no paraíso, mas chegou a um lugar muito melhor do que estava até bem pouco tempo. Considerando os traumas recentes, parece razoável que tenha recusado debater mudanças de rumo neste momento.

Além da recuperação econômica, o governo Kirchner acumulou uma considerável poupança no terreno da memória do país, ao decidir não varrer para debaixo do tapete o problema dos crimes da ditadura militar. Nenhum outro governante de um país da América Latina, que tenha passado por uma ditadura, fez o que Kirchner fez. Não é pouca coisa. Se é assim, seria até estranho que a eleição presidencial deste ano fosse marcada por um acalorado debate sobre os rumos do país. Até porque um setor da oposição a Kirchner integra o grupo social e político que quase acabou com a nação.

Um país fragmentado
Julio Blanck, articulista do jornal Clarín, definiu a eleição de Cristina como um prêmio outorgado por um país fragmentado. “Um terço de nós vive como se vive razoavelmente no chamado Primeiro Mundo. Outro terço de nós sobrevive na carência e na desesperança cotidianas. Essa fragmentação teve expressão palpável no corte social do voto. A vitória de Cristina rotunda e sem objeções, apoiou-se nos setores que mais precisam de proteção social por parte do Estado. O seu mandato terá o compromisso de governar para esses setores. Mas também terá que fazê-lo para a metade do país que não votou nela”, escreve Blanck.

A senadora foi eleita, sustenta o mesmo articulista por um voto conservador: o voto daqueles que querem conservar os avanços dos últimos quatro anos. Esse foi justamente o sentido do lema da campanha de Cristina: “el cambio recién empieza” (a mudança só está começando).

Na mesma direção, J.M. Pasquini Duran escreveu no jornal Página 12: “Essa eleição significa continuidade da gestão e, neste sentido, não só aposta no futuro, como manifesta sua aprovação pelo passado imediato, um passado de 59 meses contínuos de recuperação econômica, de formação da Corte Suprema sem nenhuma subordinação ao Poder Executivo e de firme compromisso contra a impunidade do terrorismo de Estado”. Duran também destaca o apoio maciço que Cristina obteve junto aos setores mais humildes do país, o que pode garantir também uma maioria no Congresso.

O fracasso da direita
Os números do escrutínio indicam que, se houve apatia, esta não se deu entre os apoiadores do governo Kirchner. O desempenho dos candidatos mais identificados com a direita argentina foi pífio. López Murphy e Jorge Sobisch não conseguiram chegar a mais de três pontos percentuais.

Dividida em 13 chapas, a oposição a Kirchner centrou seu discurso em temas como inflação, segurança pública e corrupção. Não conseguiu empolgar. Os seus melhores desempenhos ficaram por conta de Elisa Carrió, que fez cerca de 23% dos votos (venceu em Buenos Aires), e do ex-ministro da Economia, Roberto Lavagna, com 16,89% dos votos. A partir deste resultado, Carrió, da Coalizão Cívica, tentará se firmar agora como principal líder da oposição, embora tenha prometido não disputar mais a presidência da República. A candidata da Coalizão Cívica encontrou forte apoio entre setores da classe média argentina. Sabedora disso, Cristina Kirchner fez de suas primeiras declarações um apelo à concórdia e à concertação social. A senadora sabe que mais de metade do país não votou nela e que precisará ampliar sua base de apoio social para governar. Por isso fala em conciliação e união.

Esquerda dividida. Para variar...
Quanto à esquerda argentina, esta permanece dividida e, apesar de todo o desgaste dos partidos tradicionais, não conseguiu apresentar um programa capaz de conversar com setores mais amplos da sociedade. O melhor desempenho que obteve foi com a candidatura do cineasta Fernando Solanas, do Partido Socialista Autêntico, que obteve cerca de 1,6% dos votos. Durante a campanha, Solanas fez pesadas críticas ao governo Kirchner.

Para ele, Kirchner "aprofundou os elementos estruturais do modelo neoliberal ao confirmar e estender o processo de privatização nos setores petrolífero, de gás e minérios, propiciar a concentração da propriedade agrícola e a monocultura em favor das corporações, das commodities (especialmente da soja) e do projeto de agrocombustíveis, tudo isso com um custo ambiental que será pago pelas próximas gerações". (ver matéria "Argentina, una certeza Y múltiples dudas", de Victor Ego Ducrot, da Agencia Periodística del Mercosul)

As críticas de Solanas apontam embates futuros. Superado o trauma da crise de 2001, a Argentina volta-se para um novo período. Cristina aproveitou a poupança acumulada pelo governo Kirchner e sabe que não poderá governar apenas com esse recurso. Enfrentará problemas sérios, como a ameaça da volta da inflação, a pobreza, o desemprego e a crescente desnacionalização do território argentino. Suas escolhas desenharão a imagem do seu governo e mostrarão até onde o povo argentino está disposto a ir na trilha da mudança do modelo que, há seis anos, levou o país à ruína.


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