Pelo Mundo

Crônica de um embuste anunciado: ''eu cedo, tu cedes, nós não cedemos''

 

17/11/2019 14:27

 

 
O senador “opositor” Jaime Quintana é um criador de palavras que produzem terremotos políticos. Em 2014, quando era uma espécie de porta-voz da Nova Maioria (coalizão de centro-esquerda), assegurou que o segundo governo de Michelle Bachelet utilizaria uma retroescavadeira para acabar com o modelo neoliberal, e explicou que “é preciso destruir os cimentos da ditadura”. A direita entrou em pânico e iniciou um contra-ataque comunicacional que não se deteve, até entender que Bachelet não propunha nada diferente do que já se vinha fazendo desde os governos dos Anos 90: preservar o modelo neoliberal instaurado pela ditadura.

Porém, Quintana conseguiu fortalecer sua imagem, a ponto de ser eleito presidente do Senado, e agora, nessa posição, disparou outro míssil político: “este é o momento de ceder, e ceder não é perder”. Com esta ideia, e em 48 horas, ele realinhou as forças políticas em defesa do sistema. O presidente Sebastián Piñera havia “cedido” na noite anterior, pediu paz social e admitiu abriu o caminho para uma nova Constituição, através de uma fórmula de “congresso constituinte”. Daí em diante fluiu como sempre. A classe política se apropriou das demandas sociais carentes de condução política, e se produziu um pacto que dá início a um processo constituinte tutelado pelos mesmos de sempre.

A velocidade do jogo político a partir do pontapé inicial de La Moneda se refletiu na desventurada conduta da oposição. No dia seguinte ao da mensagem presidencial, os treze partidos opositores – desde a centrista Democracia Cristã até a progressista Frente Amplio, passando pelo indefinível PPD (Partido Pela Democracia), do senador Quintana – reagiram com uma solene declaração que rejeitava a proposta governista de um congresso constituinte, porque “está longe do que as ruas estão exigindo”. E justificaram: “neste momento, o caminho para construir o futuro é o do plebiscito, com assembleia constituinte e nova constituição”.

Contudo, ainda não se secava a tinta da declaração opositora quando Quintana enviou o sinal acima citado: “temos que ceder”, e em menos de 48 horas se consumou a audaz jogada política.

O que obrigou a oposição a abaixar a cabeça? Talvez a explicação esteja na advertência do deputado Mario Desbordes, presidente do partido direitista Renovação Nacional, que assegurou que “só restam um ou dois dias para se chegar a um acordo que coloque fim ao levantamento popular”. Sua peremptória notificação foi aceita imediatamente pelos democratas-cristãos, e pouco depois pelo resto da oposição. No dia seguinte, 14 de novembro, dirigentes e parlamentares governistas e opositores (com a exceção do Partido Comunista e do Partido Humanista), se aquartelaram nos escritórios do Senado. Em permanente coordenação com o Palácio de La Moneda, que funcionou como o chef dessa cozinha política, realizaram a árdua e republicana tarefa que culminou às 2h da sexta-feira. Nascia, então, um acordo transversal, que promete um plebiscito para abril de 2020 e que dará início ao processo constituinte. Não está assegurado que seja uma “convenção” eleita 100% pelo povo, ou se será uma fórmula com 50% de delegados designado pelo Congresso. Mas o mais grave consiste em que o articulado da nova carta magna deverá ser aprovado por dois terços dos constituintes. Ao mais puro estilo da atual constituição pinochestista, instala um quórum mínimo que permite à minoria conservadora vetar qualquer mudança efetiva, garante a vigência da economia de mercado, a desnacionalização do cobre e do lítio, a privatização da água, e todos os demais problemas do país. Em suma, estamos diante de um embuste colossal, que se burla do grande esforço realizado pelo povo que exige ser ouvido.

O que precipitou o relâmpago de reviravoltas políticas iniciado por aquela frase do senador Quintana? Uma hipótese é a de que, por trás da cena que todos vimos, estavam os convidados ocultos de sempre: as Forças Armadas. A escalada de saques e incêndios – uma violência sem freio, com a intervenção de grupos organizados –, levava a supor que Piñera anunciaria o Estado de exceção, e talvez até um Estado de sítio, na noite do dia 12. Se conjecturou que as Forças Armadas haviam pedido garantias para assumir a responsabilidade de um provável massacre.

Paradoxos de um governo direitista: Piñera não é santo de devoção das Forças Armadas. Não pertence à “família militar”. Em seu primeiro governo, ele fechou o Presídio Cordillera, o hotel-spa-penitenciária construído especialmente para oficiais condenados por graves violações aos direitos humanos. Em seu segundo governo, Piñera cortou as cabeças dos altos mandos do Exército e dos Carabineros (polícia militarizada). Dezenas de generais – entre eles três ex-comandantes-chefes - estão sendo processados por corrupção e outros delitos.

O rumor do perigo golpista, real ou suposto, surgiu quando Desbordes (um ex-policial) sentenciou que só restavam alguns dias para pacificar o país. Se estima que este ex-tenente mantém relação privilegiada com as instituições armadas.

Em todo caso, a manobra permitiu aos desprestigiados partidos recuperar o protagonismo. O fez mediante uma suplantação de identidades. As massas populares e as organizações sociais, que tiveram fugaz aparição com a Mesa de Unidade Social, foram suplantadas por esses partidos que carecem de credibilidade perante a cidadania. Horas depois do anúncio do pacto governo-oposição, o povo foi novamente às ruas, reiterando suas demandas democráticas, e foi reprimido com extrema dureza. A ausência de condução política – algo que o movimento não foi capaz de criar – e a atividade provocadora de grupos cujas ações afastam o apoio dos amplos setores sociais, poderiam coroar com sucesso essa armadilha política, e condenar o povo a uma nova frustração… até a próxima explosão social.

*Publicado originalmente em Punto Final | Tradução de Victor Farinelli



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