Pelo Mundo

Cuba ao resgate, mas não contem ao povo estadunidense

Enquanto a crise caminha, vemos a tragédia da super potência com seu sistema de saúde privatizado e disfuncional falhando com seu povo, enquanto seu vizinho empobrecido - que está sob constante ataque da super potência - estende a mão para ajudar o mundo.

26/04/2020 17:04

Médicos e enfermeiras da Brigada Médica Internacional Henry Reeve, de Cuba, posam com um retrato do falecido líder cubano Fidel Castro enquanto se despedem antes de viajar para a Itália, que foi duramente atingida, para ajudar na luta contra a pandemia de coronavírus COVID-19, na Unidade Central de Cooperação médica em Havana, em 21 de março de 2020. (Yamil LAGE / AFP via Getty Images)

Créditos da foto: Médicos e enfermeiras da Brigada Médica Internacional Henry Reeve, de Cuba, posam com um retrato do falecido líder cubano Fidel Castro enquanto se despedem antes de viajar para a Itália, que foi duramente atingida, para ajudar na luta contra a pandemia de coronavírus COVID-19, na Unidade Central de Cooperação médica em Havana, em 21 de março de 2020. (Yamil LAGE / AFP via Getty Images)

 
Enquanto Bernie Sanders pagou um preço político por falar algo positivo sobre o programa de alfabetização de Cuba, a pandemia atual tem mostrado ao mundo todo o lado heroico do sistema de saúde de Cuba.

Eu presenciei esse heroísmo em primeira mão quando trabalhei com médicos cubanos em vilarejos pobres e remotos da África. Eram os anos 70 e eu era uma jovem nutricionista da Organização de Comida e Agricultura da ONU. Meus colegas eram boas pessoas que estavam ajudando a alimentar crianças famintas. Também ganhavam salários altos e viviam um estilo de vida rico que nunca teriam em casa. Os cubanos eram diferentes. Eles viviam de maneira simples, trabalhavam em condições péssimas, e ganhavam quase nada pelos seus serviços. Sua motivação era puramente ajudar pessoas necessitadas.

Eles chamavam isso de internacionalismo e diziam que era seu dever revolucionário pagar sua dívida com a sociedade. Eles citavam Che Guevara: “a vida de um único ser humano vale milhões de vezes mais que toda a propriedade do homem mais rico da terra”.

Eu estava inspirada e acabei me mudando pra Cuba. Quatro anos, um casamento e um bebê depois, fui acusada pelo governo cubano de escrever artigos críticos à revolução e fui deportada. Certamente, eu vi e experienciei aspectos do sistema cubano que não gostei, mas nunca perdi minha admiração pelo sistema público de saúde do país e pelo seu comprometimento com a solidariedade internacional.

É realmente inspirador que essa pequena e pobre ilha tenha indicadores de saúde básica iguais, ou melhores, que os dos países mais ricos do mundo. Isso é até mais impressionante depois de ter lidado com um brutal embargo estadunidense e com sanções por seis anos. A taxa de mortalidade infantil do país, de 4 em 1.000 nascidos vivos, é mais baixa que a dos EUA – e isso de acordo com a CIA! Tem pouca comida nas prateleiras dos mercados e há escassez nas farmácias, mas, como dizem os cubanos, “vivemos como pobres, mas morremos como ricos”. Isso porque sua expectativa de vida de 79 anos é a mesma que a dos EUA, mesmo com o fato de Cuba gastar menos de 800 dólares por pessoa ao ano em assistência médica em comparação com os 11.000 mil dólares dos EUA.

Como a maior parte do mundo, Cuba está lidando, agora, com o coronavírus. Em 20 de abril, tinham 1.137 casos confirmados, com 38 mortes. Mas o sistema de saúde público, universal e gratuito, incluindo uma gama de profissionais da saúde, coloca a ilha em uma melhor posição para lidar com a crise em comparação com outros países. Com um foco intenso no treinamento de profissionais da saúde, Cuba tem a densidade mais alta de médicos no mundo. Sua proporção de médicos em relação a pacientes é quase três vezes mais alta do que a dos EUA.

Cuba não somente treina seus próprios médicos; treina médicos do mundo todo. A ilha de apenas 11 milhões pessoas é lar para a maior escola de medicina internacional do mundo, a Escola de Medicina da América Latina (ELAM). Desde sua inauguração em 1999, a escola treinou mais de 35.000 jovens de 138 países, incluindo os EUA. E o melhor de tudo: é de graça.

Pastores pela Paz, o grupo que seleciona estudantes estadunidenses das comunidades “mais humildes e carentes”, diz que a bolsa inclui matrícula completa, habitação, três refeições por dia, livros, uniformes escolares e um pequeno auxílio financeiro mensal. Enquanto graduandos de escolas de medicina dos EUA deixam o curso com dívidas de seis dígitos, a única dívida que os alunos da ELAM têm é o comprometimento em praticar a medicina em comunidades de baixa renda e carentes de auxílio médico. É por isso que você encontrará graduados como a Dra. Melissa Barbar na linha de frente no Bronx, lutando contra o coronavírus.

Se isso não te emociona, olhe a brigada de médicos indo para missões internacionais para a área mais afetada pela Covid-19 na Itália, a Lombardia. “Não somos super-heróis”, disse Leonardo Fernandez, especialista em terapia intensiva, à Reuters enquanto a primeira brigada deixava Havana. “Somos médicos revolucionários.” Em 1 de abril, Cuba já havia enviado 800 profissionais da saúde para lutar contra a Covid-19 em 16 países, de Angola a Andorra, e mais estão a caminho.

Para Cuba, assistência médica tem sido um pilar da revolução: ajudando vítimas do terremoto chileno em 1963; nicaraguenses e hondurenhos devastados pelo furacão Mitch em 1998; vítimas do tsunami na Indonésia em 2004; haitianos depois do desastroso terremoto de 2010 e o surto de cólera subsequente. Equipes também foram enviados para a Libéria, Guiné e Serra Leoa para combater o Ebola em 2014.

Gradualmente, esse “exército de jalecos brancos”, como Fidel Castro os chamava, não somente respondia a emergências internacionais, mas também começou a servir como médicos de família em comunidades pobres pelo mundo. Países mais pobres pagam somente os gastos da equipe médica ou procuram por apoio internacional para compensar Cuba; países mais ricos pagam mais.

Mas a administração Trump representa um desafio significativo para os programas sociais de Cuba. Quando foi eleito, sua administração começou um ataque à economia cubana: estabelecendo novas restrições às viagens dos EUA para a ilha, reduzindo a quantidade de remessas que os cubano-americanos poderiam enviar para casa, interferindo com o transporte do petróleo venezuelano para a ilha, e tentando sabotar as colaborações médicas de Cuba.

Os fanáticos anti-Cuba da administração Trump têm atraído médicos cubanos trabalhando fora do país a desertarem, pagando jornalistas para escrever histórias negativas, estabelecendo sanções aos cubanos liderando o programa, e armando países para expulsar os médicos cubanos.

O cerne do ataque tem sido pintar o programa como forma de escravidão moderna porque os médicos somente recebem cerca de um quarto do dinheiro que os países pagam pelo serviço. Mas os profissionais de saúde do país se voluntariam para essas missões – querem a experiência, ganham muito mais do que ganhariam em casa, e sabem que o resto do dinheiro é direcionado para apoiar o sistema nacional de saúde do país.

A administração Trump tem conseguido convencer os governos de direita que foram eleitos na Bolívia, no Brasil e no Equador desde 2018 para mandar cerca de 9.000 cubanos fazerem as malas. Em uma revira volta trágica, esses mesmos países estão, agora, sobrecarregados com o coronavírus e lamentando a perda desses profissionais experientes.

Enquanto a crise caminha, vemos a tragédia da super potência com seu sistema de saúde privatizado e disfuncional falhando com seu povo, enquanto seu vizinho empobrecido – que está sob constante ataque da super potência – estende a mão para ajudar o mundo. Vemos Trump desesperado para desviar do assunto com sua gerência catastrófica dessa pandemia, incluindo a retirada de financiamento da OMS, que um editor médico prestigiado chamou de “traição da solidariedade global”, enquanto o exército de jalecos brancos de Cuba se tornou a personificação da solidariedade global.

Mas se você é um estadunidense com ambições políticas, é provável que você pense duas vezes antes de dizer algo bom sobre o sistema de saúde de Cuba.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares





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