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Cuba e o tabu das esquerdas

 

20/07/2021 13:42

(Reprodução/El Clarín Chile/bit.ly/36VqXh3)

Créditos da foto: (Reprodução/El Clarín Chile/bit.ly/36VqXh3)

 
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Em relação aos recentes protestos em Cuba, nos quais o governo de Miguel Díaz-Canel fez um apelo explícito a seus apoiadores para que saíssem às ruas para enfrentar os manifestantes, uma nova oportunidade se abriu para se posicionar criticamente sobre o que acontece na ilha, para além das clássicas posições reducionistas, que continuam a reproduzir esquemas políticos binários, que prestam um péssimo serviço à possibilidade de pensar alternativas e soluções transformadoras para a crise atual.

Uma crise que se agravou com as consequências da pandemia, em que o turismo foi consideravelmente afetado, o que é economicamente dramático, já que este setor contribui com 10% do PIB e 11% do emprego. O que acaba afetando fortemente a receita do Estado e a importação de alimentos, que equivalem a 70%.

Consequentemente, isso gerou uma escassez de alimentos básicos, cortes no serviço de eletricidade e também um colapso no sistema de saúde, produto da Covid 19, em que a infraestrutura dos hospitais se deteriorou tremendamente com o passar do tempo.

A questão é que esta crise tem gerado protestos que poderiam levar a uma revolta sem precedentes em Cuba, somando-se ao atual cenário regional, onde pouco importa se o governo é de esquerda ou de direita, pois o que está em jogo é questionar o poder político existente, a partir de diferentes movimentos organizados (estudantes, feministas, ambientalistas, dissidentes sexuais, afro, indígenas).

Portanto, a resposta do governo cubano, reprimindo e prendendo até figuras da revolução e da esquerda da ilha, como os casos de Frank García Hernández, Leonardo Romero Negrín e Marcos Antonio Pérez Fernández, deve despertar a reflexão regional e não ser cúmplice de um processo político fechado em si mesmo.

Proponho isso, pois parece que o processo político cubano se tornou ao longo do tempo uma espécie de tabu para boa parte da esquerda no mundo, especialmente na América Latina, onde qualquer crítica a esse respeito é rapidamente insultada e descartada por seu caráter imperialista e contrarrevolucionário.

Embora seja inegável a importância crucial que a experiência da revolução cubana teve para a autonomia política da região, sendo talvez a mais influente de todas, acima de outros processos políticos latino-americanos fundamentais, ela não a torna um processo isento de erros e horrores na muitos sentidos.

É verdade que historicamente o questionamento do governo cubano tem sido uma constante dos setores conservadores (pró-estadunidenses) para desestabilizar e intervir no processo político interno, que se mantém há mais de 60 anos, apesar de um bloqueio criminoso de parte dos Estados Unidos, que só causou sofrimento à população da ilha, como acontece com a falta de remédios, por exemplo.

Mas daí, a omitir o caráter centralista, militarista, autoritário e burocrático do Estado em Cuba, estruturalmente conformado pela partidocracia castrista, é simplesmente se deixar levar por uma noção estática e essencialista do que foi a revolução nos últimos 62 anos. .

José Martí, um dos maiores antirracistas, anticolonialistas, anti-imperialistas latino-americanos e referência fundamental para a revolução cubana, já na época questionava os efeitos devastadores da concentração do poder político, destacando que “todo o poder exercido de forma ampla e prolongada degenera em castas., com as castas vêm os interesses, os altos cargos, os medos de perdê-los, as intrigas para sustentá-los”.

Isso é exatamente o que acabou acontecendo em Cuba, gerando um processo de apropriação da revolução e proibição da auto-organização e participação popular, onde qualquer dissidência tornou-se um argumento perfeito para reprimir quem duvidasse ou levantasse a possibilidade de discutir o que dissera a casta no poder.

Assim, este estado-centrismo na ilha bloqueou a possibilidade de permitir ao sujeito popular cubano pensar e construir mundos diferentes e sustentáveis, onde a soberania alimentar, a soberania energética, a propriedade comunitária, a defesa dos bens comuns, a descolonização, os direitos da Mãe Terra, a despatriarcalização, a multinacionalidade, a autogestão e a democracia direta pudessem ser horizontes factíveis.

Obviamente, esta crítica não omite a persistência dos Estados Unidos em derrubar o governo cubano e o papel dos meios de comunicação concentrados, que fornecem argumentos para uma intervenção militar (não com a China), ignorando irresponsavelmente também a soberania do país e a autodeterminação do povo cubano.

Por isso, trata-se de monitorar criticamente o processo cubano, sem cair em retóricas binárias e simplistas, que só acabam beneficiando os poderes existentes, sejam da partidocracia cubana ou do imperialismo norte-americano.

*Publicado originalmente por El Clarin Chile | Traduzido por César Locatelli



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