Pelo Mundo

Cuba não está só e vencerá

O ataque de extrema violência na mídia, dentro do esquema de uma implacável guerra contra-insurgente, com milhões de mensagens falsas

20/07/2021 12:07

(Reprodução/Twitter)

Créditos da foto: (Reprodução/Twitter)

 
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Cuba está em perigo, em grave risco, quando o decadente império ali instala uma quinta coluna de traidores da pátria, que agem sabendo da difícil situação no marco de uma pandemia que assola a humanidade.

É um país sob o cerco de uma guerra criminosa imposta pelos Estados Unidos há quase 60 anos em torno da ilha, aprofundada por mais de 240 sanções nos últimos anos para sufocar o heroico povo do país caribenho.

O ataque de extrema violência midiática, dentro do esquema de uma implacável guerra contrainsurgente, com milhões de falsas mensagens, apropriação de nomes de pessoas que nunca assinaram, publicação de fotografias tiradas em outros países em circunstâncias diversas, tentou impactar com uma suposta massa de insurreição popular o relato nas redes da máfia hegemônica e do poder terrorista. Foi uma armação perfeita de um golpe de efeito para confundir o mundo.

Uma bolha aterrorizante que durou o tempo necessário para que os eternos servidores do império rapidamente se alinhassem, os cúmplices e os servos cujo único objetivo é agradar ao senhor e entregar a pátria despedaçada, como acontece na Colômbia.

Enquanto se distraem com a tentativa de golpe contra Cuba, em nome dos direitos humanos se reprime o povo colombiano, que recolhe os corpos dos desaparecidos devido à brutalidade das forças de segurança contra os grandes protestos populares.

Muitas dessas pessoas foram decapitadas, cortadas em pedaços com motosserras, uma das torturas mais temíveis praticadas pelos paramilitares naquele país.

Diante dessa insurreição do povo colombiano, que há mais de dois meses enfrenta uma repressão brutal nas ruas, que deixa centenas de mortos e desaparecidos, milhares de feridos e detidos, mulheres estupradas por membros das forças de segurança, não se nota qualquer reação das organizações internacionais 'democráticas e humanitárias'.

Mercenários da mídia

No caso cubano, os mercenários da mídia agora correm para tentar ganhar, nessa maratona de criminosos, um novo cheque enviado para suas volumosas contas nos bancos do sistema. É o tipo de mercenarismo mais confortável e lucrativo.

Por sua vez, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e o governo revolucionário como um todo, estão na vanguarda da resistência para derrotar mais uma vez a máquina imperial que há mais de meio século mantém uma guerra terrorista contra aquele país, violando todos as normas internacionais, os direitos humanos e os direitos dos povos.

Se este bloqueio imposto ao pequeño, mas imenso país caribenho acabou por ser o local da mais longa guerra da humanidade, também o é da resistência do povo cubano que, junto com seu governo, tantas vezes nos apoiou solidariamente, ensinando-nos a dignidade, a consciência revolucionária, a forma mais humana de amor, a mão estendida, o coração aberto perante os humilhados, os 'condenados da terra'.

Só uma grande fé na humanidade pode tornar possível o maior exemplo de resistência de que o mundo se lembra, que aí se aninha, numa pequena ilha do Caribe, que fez da solidariedade um modelo e enfrenta a maior potência imperial do mundo, cuja decrepitude é evidente e por isso mesmo a cada dia se torna mais selvagem.

Cuba é o único país verdadeiramente independente de nossa região, que cercado, rodeado, demonstrou como se pode desenvolver um autêntico processo revolucionário que transformou uma ilha - de pouco mais de 11 milhões de habitantes em uma área de 109 mil 884 quilômetros quadrados - a 90 milhas ao largo da costa da América do Norte, a sede imperial - em uma potência na educação.

Também na cultura, na saúde, na Ciência e Tecnologia, na dignidade, no voo da imaginação criadora, que é uma das maiores conquistas da Revolução Cubana sitiada.

Esse mesmo país - que enviou seus médicos para qualquer parte do mundo onde se precisasse, tanto para nações muito poderosas quanto para as mais esquecidas, para ajudar a salvar vidas durante a primeira grande onda da pandemia de Covid-19 - está submetido a um roteiro com o intento de provocar uma forma insurrecional, uma falsa 'primavera' cubana, considerando que depois das recentes sanções aplicadas pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mantidas pelo democrata Joe Biden, o garrote se fecha cada vez mais no pescoço do povo cubano.

Bloqueio, crime contra a humanidade

Em tempos de pandemia, impedir a chegada de insumos de saúde, desde seringas e agulhas para injetar vacinas, até respiradores, equipamentos e produtos essenciais, alimentos e outros para atender às necessidades prementes da população é um crime contra a humanidade, cujo objetivo visa encurralar uma população no desespero, momento em que passam a atuar seus mercenários internos.

Se as consequências da pandemia já são uma tragédia para a humanidade, imaginemos o que significa para a ilha de Cuba, rodeada pelo mar do Caribe, onde há mais de meio século seu povo deve renascer a cada dia, porque esse é o objetivo central, nada menos do que da maior potência imperial terrorista do mundo.

Essa potência converteu-se em uma pandemia permanente para todos os povos, mesmo sob colonialismos encobertos ou neocolonialismos, um eufemismo para expressar as várias formas de dependência que nos sufocam neste século XXI.

As novas tecnologias digitais e outras, que deveriam servir para a comunicação entre povos soberanos, facilitando os grandes projetos desenhados para o mais harmonioso desenvolvimento humano que se poderia imaginar, estão sendo utilizadas para a extorsão selvagem de uma nação irmã, tentando trazê-la para rendição, uma das táticas de submissão veladas usadas pela Rede Imperial de Propaganda na tentativa de escravizar a humanidade e degradar os seres humanos.

A isso somamos o ambiente dos últimos acontecimentos, como o recente assassinato, em 7 de julho, do Presidente do Haiti, Jovenel Moïse, por um grupo de mercenários que invadiram sua casa e cuja esposa foi ferida no ato, levada ao hospital de Miami, pediu a "intervenção" dos Estados Unidos, o que aumenta a dura tensão naquela região.

Ficou demonstrada a intervenção de mercenários colombianos e norte-americanos, inclusive da DEA (administração de controle de drogas dos EUA), neste crime mafioso, contratado por uma empresa de Miami dedicada a operações especiais que também inclui alguns membros ativos e aposentados do governo de Washington .

A empresa CTU Security - registrada como Counter Terrorist Unit Federal Academy LLC- de propriedade do venezuelano Antonio Enmanuel Intriago Valera, contratou os 26 colombianos para se apresentarem em Porto Príncipe.

A CTU foi criada para atuar contra o governo do ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013) na Venezuela. O governo deste país denuncia que a própria CTU esteve envolvida na logística da tentativa de assassinato do presidente Nicolás Maduro em 4 de agosto de 2018.

Outro grupo de mercenários paramilitares colombianos foi detido na Venezuela cometendo atos de extrema violência, atuando como gangues criminosas, que foram desmanteladas pelas patrióticas Forças Armadas daquele país, também bloqueado e sitiado.

Ninguém pode descartar nada nestas circunstâncias, enquanto a esquadra dos Estados Unidos patrulha o Pacífico e o Atlântico, e Cuba denuncia nestas horas a possibilidade de tentarem cercar a ilha.

Também neste contexto aparece a ameaça de intervenção na Nicarágua após a tentativa fracassada de golpe de 2018, que deixou morte e destruição, para derrubar o presidente Daniel Ortega.

Esta tentativa de golpe, foi conduzida de forma semelhante ao que foi feito pela oposição liderada por Leopoldo López, com ao mesma cenografia da Venezuela em 2017 para derrubar o presidente Maduro. López também foi derrotado, mas também deixou morte e destruição.

Diante da certeza de que a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) vencerá as eleições de novembro na Nicarágua, surge a sombra de outro golpe: a documentação mostra a entrega de milhões de dólares dos Estados Unidos a fundações e ONGs da oposição de direita nicaraguense que, como os "insurgentes" de Cuba, também pedem a intervenção de Washington. Em qualquer país do mundo isso é chamado de traição.

No mesmo sentido, devemos considerar a extrema tensão no Peru, onde o vencedor não é oficialmente reconhecido, o professor rural e dirigente sindical Pedro Castillo, a poucos dias de assumir o governo, enquanto a coalizão de direita que o enfrentou clama, também, por um golpe militar.

O Peru, assim como a Colômbia, tem várias bases militares, tropas e estabelecimentos dos Estados Unidos que fazem parte da rede de militarização estrangeira do Pentágono em nossa região.

O golpismo contra Cuba afeta a América Latina

O golpe contra Cuba atinge o Caribe e a região centro-americana, mas também toda a América Latina, o que deve ser levado em conta tanto quanto a sede de vingança de Washington por sua derrota durante a recente votação na Assembleia Geral da ONU. O mundo votou pelo levantamento do bloqueio àquele país, que foi vetado pelos Estados Unidos e seu parceiro Israel.

As revoltas insurrecionais dos povos preocupam Washington, que, como no Chile, voltou triunfante à cena política, ou a histórica demonstração do povo boliviano que, apesar do golpe de estado de novembro de 2019, nunca saiu das ruas até recuperar seu governo do Movimento ao Socialismo via processo eleitoral, apenas um ano após o sinistro golpe liderado pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

A ingerência dos Estados Unidos na América Latina está causando violência em todos os nossos países, onde os povos estão tentando fugir de seu controle, enquanto a potência hegemônica tenta avançar seu Plano Geoestratégico para a Recolonização de nossa região.

Somos seu 'quintal' rebelde com grandes reservas de recursos naturais, que eles não estão dispostos a perder.

Nossa América é um território em disputa, em uma desesperada corrida imperial ante o surgimento de outras grandes potências que obriguem a um equilíbrio, que se acreditava havia desaparecido para sempre, o que pode afetar seu sistema de dominação regional.

Integração institucional

Os especialistas da potência hegemônica parecem não ter considerado que, após a primeira década do século XXI, concretizou-se o mais importante projeto de integração com características emancipatórias e na diversidade de governos, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC ) no final de 2011.

Por trás dessa conquista, estava a mais extraordinária rebelião dos povos da região desde meados da década de 1990 contra o neoliberalismo, que foi derrotado nas ruas, instalando novos protagonistas no cenário de resistência.

Pouco se fala sobre esta importante conquista deste início de século, graças à qual se experimentou uma verdadeira 'primavera' em toda a região, com vários governos populares que juntos eram uma força e que formavam um bloco de características muito diferentes das conhecidas. Cuba foi uma peça central e sua presença na região resultou em um grande desafio para os controladores imperiais.

Muito do que acontece hoje aparece como broto daquelas raízes plantadas no início deste século. Cuba deixou de ser a imagem da história da Cinderela ou do ogro e pela primeira vez esteve entre nós, seus dirigentes debatendo na grande mesa de uma região que começava a recuperar seu status de soberania e o direito à independência.

Tampouco se avaliou que, por meio dos Congressos populares que acompanharam cada reunião das Cúpulas da América Latina, se realizou o maior intercâmbio de nossos povos em todos os níveis. Nos redescobrimos como irmãos e é isso que continua a viver entre nós, como uma experiência única e enriquecedora.

O inimigo é o mesmo com as mesmas manobras, embora mais selvagem e sem máscaras, mas não somos os mesmos depois dos abraços continentais. Hoje sabemos que esta guerra terrorista aplicada a Cuba ameaça a América Latina e a humanidade por suas características e pela assimetria quase apocalíptica entre o agressor e a vítima.

É por isso que esta é a hora da rebelião continental contra a tentativa de avançar sobre Cuba, entendendo que os Estados Unidos acreditam que uma vez derrubado o bastião da dignidade de Nossa América, poderá avançar sobre nossos territórios.

Marcha e mensagens de solidariedade

Após o efeito 'golpe' das primeiras horas de envio de mais de dois milhões de mensagens, de uma série de contas falsas armadas pelas novas armas digitais que controla, Washington foi surpreendido por uma forte reação em cadeia de marchas de solidariedade, mas também de mensagens de vários países do mundo.

Enquanto isso, dentro dos Estados Unidos, membros importantes do Partido Democrata no poder exigiram que o presidente Joe Biden levantasse o bloqueio, e também o fizeram, empresários e alguns oponentes republicanos, intelectuais, artistas e líderes dos grandes movimentos que surgiram nas rebeliões que marcaram aquele país em 2020.

Na América Latina, com o melhor de seus povos solidários nas ruas e com os governos regionais afetados por esta metodologia de ingerência nos assuntos internos de nossos países, multiplicaram-se as vozes pedindo o levantamento do bloqueio já.

Não parece o melhor momento para um império em declínio atingir um continente que resistiu por mais de dois séculos e está em um período de saturação e rebeliões emancipatórias, quando a pandemia desmascara especialmente a senescência e o vandalismo de um capitalismo decadente.

O Império parece não compreender que está em sua fase final de colapso e que qualquer excesso em sua política para a região pode ser o início de sua implosão inevitável.

Stella Calloni é escritora argentina, jornalista e analista internacional, correspondente do La Jornada de México. Prêmio Latino-americano de Jornalismo 'José Martí' (1986).

*Publicado originalmente em 'Diálogos do Sul' | Tradução de César Locatelli





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