Pelo Mundo

Cuba responde à pandemia, embargo e novos problemas econômicos

 

27/10/2020 13:24

(NatalieMaynor %u213 CC BY 2.0)

Créditos da foto: (NatalieMaynor %u213 CC BY 2.0)

 
Esbofeteada por seis décadas pelo embargo econômico dos EUA e recentemente tendo que lidar com restrições na vida diária e laboral devido ao covid-19, a já abalada economia cubana está deteriorando. Líderes do governo recentemente traçaram passos para uma recuperação em direção ao que eles chamam de “novo normal”.

A CEPAL reportou em outubro que a região “está experienciando sua pior crise econômica em um século” e que o PIB de Cuba esse ano cairá ao menos 8%. O rendimento do turismo, as remessas, comércio exterior, e coletas de impostos caíram. Escassez de petróleo e gasolina, o resultado das sanções estadunidenses contra a Venezuela, estressaram a economia.

Gastos públicos em assistência médica, compensações aos desempregados, e aposentadorias subiram; 150.000 trabalhadores estatais e 250.000 trabalhadores do setor privado estão inativos. Efeitos do embargo econômico dos EUA combinam os problemas com restrições que afetam a indústria do turismo, importações estrangeiras e o acesso à moeda estrangeira e empréstimos.

Respondendo à pandemia, oficiais cubanos excluíram visitantes estrangeiros (o turismo voltou em julho) e instituíram um vigoroso rastreamento de casos, isolamento rígido dos infectados e seus contatos, e hospitalização de pessoas infectadas pela covid-19 que apresentaram sintomas. O povo cubano tem recebido atualizações com informações compreensíveis regularmente. Vacinas e produtos para tratamento estão sendo desenvolvidos. Trabalhadores da saúde trataram vítimas da pandemia em 39 países.

Dados do Centro Johns Hopkins de Pesquisa sobre o Coronavírus mostram que, desde 21 de outubro, a covid-19 infectou 6305 cubanos; 127 morreram. Mortes a cada 100.000 pessoas nos EUA, Cuba, China e Vietnã são, respectivamente: 67.28 (a 11ª maior), 1.12, 0.34, e 0.03.

Líderes cubanos apareceram em rede nacional em outubro para traçar planos para a gerência dessa crise multi-facetada. Em suma, Alejandro Gil Fernández, ministro da Economia e Planejamento, apontou que “nunca tivemos esse dilema entre saúde e economia. Obviamente as medidas restritivas que adotamos ... tiveram um impacto na economia, mas não há espaço para dúvidas de que a saúde vem em primeiro lugar”.

Crise na saúde

Os oficiais reportaram que a intensidade da transmissão viral estava baixa, que menos novos casos estavam sendo diagnosticados, e que mais pacientes com covid-19 estavam deixando os hospitais do que entrando neles. Surtos surgiram recentemente em Havana, Ciego de Avila, Pinal del Rio e províncias do Sancti Spiritus, enquanto não há sinal de casos novos em outras 11 províncias de Cuba.

O Presidente Miguel Díaz-Canel disse aos cubanos que a partir de agora exigências de isolamento e distanciamento serão menos rígidas. Ele os aconselhou a “aprender a viver com a doença, voltar às atividades econômicas e sociais, fortalecer protocolos de prevenção e tratamento, e aspirar à uma nova realidade com risco mínimo”.

O Primeiro-Ministro Manuel Marrero Cruz em 9 de outubro apresentou protocolos elaborados para uma transição ao “novo normal”. Esforços para prevenir a transmissão do vírus seriam acompanhados pela “mitigação dos impactos econômico e social da covid-19 e do embargo estadunidense”. Novos casos incitariam medidas locais para evitar a disseminação da infecção, mas as atividades comunitárias continuariam como antes.

Estágios e fases da evolução da pandemia se misturam com o modo com que a intensidade e amplitude das medidas de prevenção são determinadas. Autoridades locais participarão das tomadas de decisão. Sob novos protocolos de isolamento, pessoas infectadas somente com sintomas leves serão monitoradas na comunidade e não mais nos hospitais. Os gravemente doentes darão entrada em hospitais especialmente designados, permitindo que outros hospitais possam voltar ao tratamento completo de outras doenças.

Está sendo pedido que os cubanos tenham responsabilidade pessoal para prevenir infecções. Muitos vão continuar a trabalhar em casa pelo computador ou telefone. Alunos têm ido às escolas desde setembro na ilha toda, exceto em Havana, onde as escolas abrirão em 2 de novembro, e exceto por fechamentos temporários em outros locais devido a focos de infecção.

A impressão aqui é que, sem dúvidas, explicações fornecidas por muitos oficiais e os protocolos apresentados pelo primeiro-ministro são testemunhas de um processo de planejamento e análise marcado pelo rigor, compreensão e respeito pela vida humana.

Crise econômica

Por mais de 10 anos, o governo tem trabalhado para transformar a economia de Cuba. Acordos fundiários mudaram em 2008. As “Diretrizes Econômicas, Políticas e Sociais” do Partido Comunista, aprovadas pelo sexto congresso do partido em 2011, estabeleceram o molde para a mudança que está evoluindo desde então. A crise atual é um solavanco que demanda uma reconfiguração.

Entre as áreas prioritárias, estão: produção e distribuição de produtos alimentícios, capacidades de exportação aprimoradas, reformulação das empresas estatais, apoio aos trabalhadores autônomos, e reforma monetária – em outras palavras, a unificação da moeda dupla e taxas de câmbio cubanas.

Há muitos passos pelo caminho. “Cadeias de produção” novas e eficientes irão se estender da matéria-prima, ao processamento e à manufatura, até as vendas. Envolverão empresas estatais e não estatais e afetarão tanto o comércio externo quanto o interno. Empresas estatais receberão incentivos pela boa gerência. Empresas estatais de comércio agrícola receberão apoio renovado.

Os cubanos perderão subsídios, mas alguns bens e serviços estarão disponíveis sem custo. Consumidores terão acesso a mais bens produzidos localmente e a menos itens importados. As vendas de exportação são uma prioridade. A reforma monetária irá acarretar a regulação dos preços, desvalorização da moeda, preços de atacado elevados, incertezas quanto ao salário e à poupança, e risco de inflação.

“A eliminação da moeda dual e da taxa de câmbio ... constituem o processo que é mais decisivo para a atualização do modelo econômico cubano.” Essa foi uma fala do ex-presidente Raúl Castro em 2017. Agora o processo de mudança, esperado há muitos anos, está nas mãos de “14 subgrupos laboriosos”.

As duas moedas de Cuba são o “peso nacional cubano” (CUP) e o “peso conversível cubano” (CUC), que está pronto para ser eliminado. Em relação a instituições, empresas e atacadistas, as duas possuem o mesmo valor – 1 dólar estadunidense. Em situações de varejo ou em transações entre indivíduos um CUC também vale 1 dólar, mas nessas situações também vale 25 CUPS.

Para ilustrar o problema: um produtor de leite cubano vendendo diretamente aos cubanos recebe 4.50 CUP por litro ($4.50), o que equivale a 450 centavos por litro. Mas o leite produzido fora e vendido a um comprador cubano chega a $3000 (ou 3000 CUC) por tonelada. Para cobrir o custo, o preço de venda para os consumidores cubanos precisa ser somente 30 centavos por litro.

Há boas notícias. O Paris Club é um grupo de bancários europeus e estadunidenses que tenta amenizar as dificuldades dos países pobres com refinanciamentos de dívidas. Em 15 de outubro eles concordaram em suspender a obrigação de Cuba de realizar o pagamento até 1 de novembro de uma dívida de $5.2 bilhões. Quanto vai demorar o adiamento não se sabe.

Em comunicado ao povo cubano em 8 de outubro, o presidente apontou que, “nosso socialismo exclui a manipulação política de aplicar a terapia de choque nos trabalhadores. Aqui, com isso, ninguém será deixado sem auxílio. É pré-ordenado que se alguém acabar em uma situação vulnerável por causa do projeto de reorganização, ele ou ela será auxiliado(a). Somos responsáveis e prometemos que as conquistas fundamentais da Revolução como a saúde e a educação pública serão preservadas”.

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares



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