Pelo Mundo

Cuidado com os agentes moscovitas

O dia ia longo e o congresso fervia de intriga e espadeirada, Montenegro tinha acabado de tirar as luvas.

01/03/2018 13:27

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Créditos da foto: Reprodução

 
Não ficou fácil para o distinto orador que subiu depois ao palanque, apesar da sua aura de orador potente e subtil. Durante os sofridos meses das primárias, andara camuflado sem tomar posição, pois detesta ambos os contendores, afinal nenhum deles era ele próprio, um fastídio. Mas veio a hora e chegou-se ao palco, enfrentou os refastelados congressistas e falou.

Voz puxada, nada. Gesticulação cabal, menos ainda. Ninguém bulia. Palmas, cerimoniais. Bocejos, vários. Então não é que o eterno candidato, opositor convertido em passista, candidatável contra Rio mas discretamente retirado, não anuncia disponibilidades ou lutas ferozes? O congresso gosta de frisson, não de acomodatícios.

O que pode então fazer um tribuno com pergaminhos, para captar a atenção? O que resta, em desespero de sonolência? Resta o mais antigo dos truques, rasgar as vestes pela Europa, apontar o dedo aos ignaros que não seguem a luz e que, pasme-se, até se atrevem a desgostar da Nato, o nosso escudo, a nossa alegria. Eles são contra a Nato, vocifera. A sala levanta o sobrolho, ouvem-se alguns aplausos. O Costa anda mancomunado com essa gentalha que NÃO ANDA DE NATO, arremata, devastador. A sala acordou, se é Costa é para malhar.

O congresso, que é boa pessoa e temente às divindades disponíveis, ficou satisfeito e esqueceu depressa. Mas houve alguém que apreciou a coisa: os agentes moscovitas, é deles que tenho que falar aos leitores que não se deixam enganar pelo foguetório.

Eles estão por todo o lado. Custa-me dizer isto, sei que fere a sua sensibilidade, mas eles estão na Nato, nem sei mesmo se não mandam na Nato. Veja bem: diz o Procurador-especial Mueller, veterano da caça aos moscovitas, que a campanha de Trump estava contaminada. Havia reuniões entre o genro do "génio estável" e espiões russos. Havia paletes de trolls russos a tuítarem trumpismo de ódio à outra candidata. Houve até agentes moscovitas que viajaram pela Florida para organizarem comícios republicanos, diz Mueller que tinham uma cena divertida com uma gaiola de grades e uma sósia da Hillary Clinton, o povo do America First adorou. O conselheiro de Trump para a segurança era uma criatura deles, dos moscovitas, o dos Negócios Estrangeiros é sócio dessa súcia. Se estão na Casa Branca, a sério que acha que a Nato lhes escapou?

Tenho ainda piores notícias para si. Olhe à sua volta. A quem é que paga a luz da casa? À EDP. A quem é que a EDP foi oferecida pelo partido deste congressista pró-Nato? Ao Partido Comunista Chinês. Mexia, ex-ministro laranja e tão boa pessoa, tem mais relações com o Comité Central chinês, que aliás o remandatou, do que qualquer partido nacional que seja suspeito. A quem é que o governo de Passos e Portas entregou redes energéticas, companhias de seguros, bancos, hospitais e sabe Deus o que mais? Pois foi aos moscovitas chineses, que agora mandam em quase tudo em Portugal.

Desculpe a franqueza, mas tenho para mim que aquela de tentar levantar o congresso em defesa da Nato é uma forma torpe de esconder que Washington, o Pentágono, a Nato, a São Caetano à Lapa e o Largo Amaro da Costa estão dominados por agentes moscovitas. Falta-me apurar se o tal orador é dessa laia ou se é só trouxa.

Artigo publicado no jornal Expresso de 24 de fevereiro de 2018 e disponível na página de Francisco Louçã no facebook




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