Pelo Mundo

Cúpula informal europeia opõe Merkel e Hollande

23/05/2012 00:00

Eduardo Febbro - Paris

Paris - Dois modelos em confronto se cruzam na cúpula informal da União Europeia. Dois modelos e duas capitais : Berlim e Paris, a austeridade como biblia contra o crescimento como salvação. O cardápio da cúpula informal que reúne os 27 membros da União Europeia tem dois pratos que a chanceler alemã Angela Merkel não esperava degustar há dois meses : o crescimento e os eurobônus. O presidente francês, François Hollande, que fez campanha com essas duas ideias, fixou como meta servir a Merkel na bandeira dois temas que a responsável pela camisa de força da austeridade que prende a Europa não quer nem ouvir falar. Mas os europeus, em seu conjunto, emfrentam também um par de problemas maiores que não estavam na ordem do dia.

Um : as bolsas e o euro sofreram uma queda livre. Paris, Madri, Milão, Frankfurt e Londres foram literalmente sugadas para baixo (entre 2 e 3%) devido aos temores suscitados pela Grécia e ao alarme que soou nos últimos dias sobre a eventualidade de a Grécia sair do euro. Segundo revelou o jornal francês Libération e a agência Reuters, a partir de documentos vindos de várias fontes europeias, na última segunda-feira, as delegações da eurozona (17 dos 27 países da UE) receberam instruções para ir preparando « um cenário » sobre a saída de Atenas do Euro. O chefe de Estado francês desmentou a informação, mas o chefe do Executivo grego, Lukas Papademos, disse a Wall Stret que « o risco de que a Grécia saia do Euro é real ».

O desastroso panorama financeiro moveu as peças em uma direção inesperada. Os 27 dirigentes da União Europeia se reúnem concretamente em Bruxelas de maneira informal para ver como plasmar o crescimento econômico e a criação de postos de trabalho em uma União Europeia que registra desemprego crescente e um crescimento subterrâneo. « Se nos colocarmos de acordo sobre os principais elementos para criar um plano de crescimento, poderemos seguir aindante e tomar decisões em junho », escreveu Herman van Rompuy – presidente do Conselho Europeu – na carta-convite. Mas o encontro não será tão feliz para a grande cacique da austeridade europeia. A campanha protagonizada por François Hollande contra a austeridade alemã e a favor do crescimento, da transformação do Banco Central Europeu e da emissão de eurobônus – a mutualização das dívidas – mudou o sentido das alianças internas que existiam há apenas dois meses.

Dois dos cinco responsáveis políticos que se negaram a recebeu François Hollande, quando este era só candidato às eleições presidenciais francesas em março passado, são agora seus aliados contra Merkel. O presidente espanhol Mariano Rajoy e o presidente do Conselho intaliano, mario Monti, correm na mesma faixa que Hollande. Acabou o idilio de austeridade que Merkel vivia com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy. Sua posição comum valeu-lhes o qualificativo de de « gendarmes da Europa » e o apelido de « Merkozy ».

Assim que chegou à cúpula, François Hollande disse que existiam medidas de longo prazo, como as reformas estruturais ou os esforços em matéria de comércio e mercado interno, mas que « é preciso agir imediatamente em favor do crescimento porque, do contrário, não alcançaremos os objetivos de redução do déficit e se criarão dúvidas nos mercados ». Hollande assinalou ainda que o tema dos eurobônus faz parte da discussão. Merkel diz o contrário : para a chanceler alemã, a questão dos eurobônus « é um instrumento errado em um mau momento ». A mutualização das dívidas é a própria imagem do demônio para Berlim.

Hollande conta hoje com apoios cada vez mais sólidos. A Itália e a Espanha se somaram ao próprio presidente da Comissão Europeia, José Manoel Barroso, e o presidente do Eurogrupo, Jean Claude Junker. Os eurobônus permitiriam aos Estados europeus obter empréstimos comuns nos mercados mediante a emissão de euro-obrigações. Com isso, se protegeriam dos ataques especulativos e considerariam em conjunto suas dívidas públicas. O dispositvo permite também aos países mais débeis obter taxas de juros semelhantes às pagas pelas nações mais sólidas, ou seja, mais baixas já que o risco é menor.

Um exemplo concreto é de Itália e Espanha. Esses dois países pagam hoje seus créditos em um prazo de dez anos a uma porcentagem que oscila entre 5 e 6%. Se os eurobônus estivessem valendo, Madri e Roma pagaram uma taxa semelhante a da Alemanha, ou seja, 1,4%. Merkel se opõe a essa ideia com o argumento de que esse regime conduziria os países mais frágeis a ser menos atentos aos seus déficits. Berlim é hoje praticamente o único país que se beneficia com a crise : registrou crescimento e a porcentagem de suas obrigações caiu a um dos níveis mais baixos da história.

Em uma coluna publicada no Le Monde, Guido Westerwelle, o ministro alemão de Relações Exteriores, voltou a defender com unhas e dentes o rigor orçamentário acima de qualquer coisa. A batalha interna é e seguirá sendo árdua entre o capitalismo de ajustes alemão e aqueles que, como François Hollande, vem a austeridade como a receita de um buraco negro que tragará a estabilidade europeia. O antagonismo ganhou plenamente a luz do dia. Nas mesmas páginas do Le Monde, Hannes Swoboda, presidente da Aliança progressista dos socialistas e democratas do Parlamento Europeu, convoca à formação de uma « aliança transatlântica progressista », contra as ideias de Merkel. Swoboda defende a transformação da famosa « regra de ouro » que impõe a austeridade em outra « regra de ouro do equilíbrio orçamentário obtido a partir da reativação do crescimento graças ao crescimento e aos instimentos públicos ».

O « paradigma liberal » mostra suas feridas abertas. A eleição de François Hollande rompeu o consenso, inclusive na própria social democracia que estava amordaçada pela corda neoliberal. Já não são os intelectuais ou os analistas que debatem sobre este ou outro modelo. A questão se transportou para a mesa onde são tomadas as decisões que transformam para o bem ou transtornam para o mal o destino dos povos. Os exércitos estão preparados : Berlim e a ortodoxia do rigor e da austeridade liberal ; Paris com seu novo emblema social democrata : deixar um pouco de lado a linha de rigor a qualquer preço e colocar no centro o crescimento como rumo e prioridade da política europeia.

Tradução: Katarina Peixoto

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