Pelo Mundo

Davos: conversando sobre o clima e a desigualdade

 

07/02/2019 10:31

 

As duas questões que os ricos e famosos do capitalismo mundial gostam de discutir atualmente, esfregando as mãos e lacrimejando ao mesmo tempo, são o aquecimento global, com sua consequente crise climática, e o aumento da desigualdade de renda e riqueza. O Foro de Davos percebeu que a reação popular a estas questões ameaça destruir o que eles chamam de “ordem liberal”, ou seja, o movimento livre do capital e das matérias primas, sem travas, de forma a maximizar os benefícios.

Pode ser que a neve congele Davos, mas a hipocrisia das deliberações do Foro sobre esses dois temas fica evidente a cada ano, que sempre termina com notícias de que os participantes chegam à estação de esqui suíça em mais de 1,5 mil voos privados individuais, o que deixa uma trilha de carbono considerável. Os devotos Davos são transportados a um aeroporto especial em Dubendorf, para que não tenham que se mesclar com a plebe. Não deixa de ser uma piada cruel a sessão em Davos dirigida pelo famoso antropólogo David Attenborough, que assegurou à audiência que era necessário tomar medidas urgentes contra a crise climática. O número de voos de jets privados cresceu 11% no ano passado. “Parece que há uma tendência de uso de aviões maiores e mais pesados, de preferência como os Gulfstream GV e os Global Expresses, que se utilizam mais de 100 vezes por ano“, contou Andy Christie, diretor da empresa de aviões privados ACS.

Com relação à crescente desigualdade, a ONG internacional Oxfam, dedicada à luta contra a pobreza, publica todos os anos, na mesma época do encontro em Davos, seu informe sobre a desigualdade per capita a nível mundial. Neste ano, a notícia era que só 26 personas possuem mais riqueza que os 50% mais pobres (3,8 bilhões) do mundo. Ao parecer, entre 2017 e 2018, se cria um novo milionário a cada dois dias. Segundo a Oxfam, a riqueza dos mais de 2,2 bilhões de multimilionários em todo o mundo aumentou em 900 bilhões de dólares em 2018, o seja, 2,5 bilhões por dia. O aumento de 12% na riqueza dos mais ricos contrasta com uma queda de 11% da riqueza da metade mais pobre da população mundial.  O homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, dono da Amazon, viu sua fortuna aumentar até os 112 bilhões de dólares. Como comparação, pode-se dizer que 1% de sua fortuna equivale a todo o orçamento de saúde da Etiópia, um país de 105 milhões de pessoas.

Os economistas ortodoxos gostam de dizer que a pobreza mundial (segundo parâmetros do Banco Mundial) tem diminuído rapidamente, mas a Oxfam responde que a maior parte desta redução se deve ao rápido crescimento da China durante as últimas quatro décadas. Isto é algo que já comentei em artigos anteriores.

Branco Milanovic, especialista em desigualdade global, afirmou em uma conferência simultânea à de Davos que o aumento da renda de centenas de milhões de chineses foi tanto que atualmente 70% da população chinesa possui renda similar à renda média estadunidense, algo impressionante se considerarmos que há 15 anos eram só 23% que alcançavam tal patamar.



Ademais, a Oxfam acrescenta que os dados do Banco Mundial mostram que a taxa de redução da pobreza se reduziu à metade desde 2013. Aliás, na África subsaariana, a pobreza extrema tem aumentado.

Segundo a Oxfam, sua metodologia para avaliar a brecha entre ricos e pobres se baseia em dados de distribuição da riqueza a nível mundial proporcionados pelo livro de estatísticas sobre a riqueza global da Credit Suisse, que abarca o período entre junho de 2017 e junho de 2018. A riqueza dos multimilionários foi calculada utilizando a lista anual de multimilionários da Forbes, publicada em março de 2018. Já comentei sobre o informe da Credit Suisse em outras ocasiões, mas agora, em um novo artigo, Gabriel Zucman atualizou os dados sobre a desigualdade da riqueza mundial. Segundo Zucman se produziu um aumento na concentração da riqueza mundial desde o início da globalização, e da “ordem mundial liberal”, nos Anos 80. Para China, Europa e Estados Unidos juntos, a quota de riqueza de 1% superior aumentou de 28% em 1980 para os 33% atuais, enquanto o 75% inferior tinha ao redor de 10%.



O aumento da riqueza dos muito, muito ricos, segundo o informe da Oxfam, é verdadeiramente assustador nos Estados Unidos: o mais alto em 100 anos.



E isso subestima a desigualdade real, porque os muito, muito ricos ocultam grande parte de sua riqueza em paraísos fiscais secretos.



Apesar destes dados assombrosos, o público de Davos não está nem um pouco interessado em redistribuir. A Oxfam faz um modesto apelo a favor de um imposto à riqueza do 1%, similar ao que o economista francês Thomas Piketty recomenda em seu Informe Mundial sobre a Desigualdade, publicado em 2018, que mostrou que entre 1980 e 2016 o 50% mais pobre da humanidade recebeu somente 12 centavos de cada dólar do crescimento da renda mundial. Pelo contrário, o 1% superior ficou com 27 centavos de cada dólar. A congressista democrata de esquerda Alejandra Ocasio-Cortés também defende uma taxa fiscal mais alta para os estadunidenses mais ricos. Mas os poderosos e virtuosos em Davos jogaram mais um balde de água fria sobre todas estas modestas medidas políticas.

Zucman e Emmanuel Saez argumentam porque é necessária uma reforma fiscal, em um recente artigo do New York Times. “Temos o desafio de uma crise climática, temos o desfio de uma crise de desigualdade. Durante mais de uma geração, a metade inferior da pirâmide tem sido excluída do crescimento econômico: sua renda por pessoa adulta foi de 16 mil dólares em 1980 (ajustado pela inflação) e continua sendo de cerca de 16 mil atualmente. Ao mesmo tempo, a renda de uma pequena minoria se disparou. Para o 0,1% superior das pessoas, a renda cresceu mais de 300%; e para o topo da pirâmide, o 0,01%, a renda cresceu em até 450%. Finalmente, para o exclusivo 0,001% (os 2,3 mil estadunidenses mais ricos), a renda cresceu mais de 600%”.

Uma objeção comum da teoria econômica convencional ao aumento da taxa de impostos marginais aos setores mais ricos é o argumento de que isso prejudicaria o crescimento econômico – algo que foi expressado novamente pelos participantes em Davos. Mas Zucman e Saez afirmam que os Estados Unidos cresceram com mais força nos Anos 50, quando sua taxa impositiva marginal máxima era ao redor de 90%. Evidentemente, o que isso demonstra é que quando o capitalismo estadunidense crescia rapidamente e a rentabilidade era alta, a elite podia se permitir o luxo de pagar impostos progressivos – quando se pressionava por eles. A mesma história aconteceu no Japão, depois da guerra. Como dizem Zucman d Saez: “talvez, naqueles anos, os Estados Unidos, como a potência hegemônica após a Segunda Guerra Mundial durante décadas, podiam permitir a si mesmo ter uma política fiscal ruim?”.  Pelo contrário, quando a Rússia foi recuperada pelo capitalismo, os tipos impostos marginais mais altos foram cortados de 85%, até se chegar a um imposto único para todos, de 13%. A parte inferior do 50% da população russa sofreu um corte massivo em seu nível de vida real durante mais de uma década e a desigualdade se disparou.

Zucman e Saez se fazem eco da opinião de Marx: “os impostos progressivos sobre a renda não podem resolver todas as nossas injustiças. Mas a história serve como guia, e pode ajudar a estimular um país na direção correta, .... Democracia ou plutocracia: fundamentalmente, essa é a questão que está por trás das taxas fiscais mais altas”. Uma vez dito isso, a causa da alta e crescente desigualdade se encontra no próprio processo de acumulação do capital. A questão principal não é a falta de impostos progressivos sobre a renda, nem a falta de um imposto sobre o patrimônio, ou mesmo a falta de intervenção para enfrentar os paraísos fiscais. Tais medidas políticas sem dúvida ajudariam a melhorar as coisas, mas se a renda antes dos impostos do capital (lucro, renda e juros) continuam aumentando às custas da renda do trabalho (salários), então há uma tendência intrínseca à desigualdade, que é crescente.

Branco Milanovic demonstra que é justamente isso o que vem ocorrendo nas economias capitalistas durante os últimos 50 anos. Os capitalistas muito ricos vêm se tornando cada vez mais ricos, em comparação com os capitalistas menos ricos, e os profissionais que percebem rendas salariais mais altas têm observados aumentos relativamente maiores que os que recebem salários baixos.



O aumento da desigualdade global não será revertido por uma ação de redistribuição da riqueza baseada somente em medidas fiscais. É preciso uma reestruturação completa da propriedade e o controle dos meios de produção e dos recursos a nível mundial. Enquanto isso não ocorrer, Davos continuará derramando lágrimas de crocodilo.

Michael Roberts é um conhecido economista marxista britânico que trabalhou por 30 anos na City londrina como analista econômico, e publica seus textos no blog The Next Recession

*Publicado originalmente em sinpermiso.info | Tradução de Victor Farinelli




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