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De Mao a Xi Jinping: a mudança política mais improvável

Um século depois da fundação do PCCh, o marxismo mais dogmático se transformou em pragmatismo tecnocapitalista com características chinesas que busca liderar o mundo. Do semifeudalismo à Quarta Revolução Industrial 4.0 à velocidade da luz

06/07/2021 12:49

(Reprodução/gva.be)

Créditos da foto: (Reprodução/gva.be)

 
Xi Zhongxun e seu filho Xi Jinping - presidente da China – cobrem quase toda a história do primeiro centenário do PCCh, fundado em 1º de julho de 1921 em uma casa clandestina da Concessão Francesa de Xangai com doze delegados, entre eles Mao Tsé-tung, e mais dois russos da Terceira Internacional. Xi pai aderiu em 1926 e teria um papel-chave na guerra civil. Mais tarde foi preso por seu partido, que o marcou com um sinal de "traidor", o reabilitou e o transformou em secretário-geral, um ciclo cumprido por grande parte daqueles líderes.

Os primeiros 50 anos

Em seus primeiros 50 anos o PCCh esteve perto de ser extinto, se aliou e se divorciou do nacionalista Kuomintang, depois de ser traído por Chiang Kai Shek - que foi apoiado por Hitler -, e se retirou para as montanhas de Jinggang, de onde deu início à épica Longa Marcha em 1934 com o Exército Vermelho, percorrendo 12.500 km. Fundaram grandes sovietes, se aliaram mais uma vez a seus adversários a fim de expulsar os japoneses e retomaram a guerra revolucionária até entrarem vitoriosos em Pequim em 1º de outubro de 1949. Tiveram êxitos na alfabetização, na saúde, nos direitos da mulher e na expectativa de vida. E fracassos como o Grande Salto Adiante - 1958/62 - que terminou em uma grande fome. Nos seus primeiros 50 anos o PCCh estava tomado pela paranoica Revolução Cultural: Xi pai esteve a quatro dias de ser fuzilado até a intercessão de Mao. Estes dois episódios históricos deixaram milhões de mortos.

Morto Mao - com o país já sem fome, convertido numa potência nuclear com um assento no Conselho de Segurança da ONU e em paz com os EUA – ascende ao poder em 1978 seu camarada Deng Xiaoping (reabilitado de um aprisionamento). Ele se dedica a suavizar o falido dogmatismo maoísta. E foi Deng - junto com Xi pai - que rompe as barreiras: fez a experiência da Zona Econômica Especial em Shenzhen. O enxerto capitalista em pleno comunismo funcionou e começaram a replicá-lo por todo o país sob uma nova premissa: "ser rico é glorioso" (10 anos antes escutar Beethoven convertia a pessoa em burguês). Mas quando os estudantes exigiram mais liberdades em 1989, Deng olhou para uma URSS em decomposição e não hesitou: os massacrou na Praça da Paz Celestial.

O segundo cinquentenário

O segundo cinquentenário encontra hoje o pós maoísmo no lugar mais inesperado: na vanguarda da nova Revolução Industrial 4.0 e à frente na tecnologia 5G nas mãos de Xi filho, cuja filha se formou em Harvard. Um dado emblemático da metamorfose: em 1978 100% da produção econômica eram públicas (hoje são 20%). Segundo o sérvio Branko Milanovic, a China atende às características básicas de uma economia capitalista: maior parte da produção em mãos privadas a quem o Estado não impõe decisões sobre produção e preços. O crescimento chinês rebate a tese ocidental de que o êxito econômico exige um vínculo entre capitalismo e democracia liberal (a origem do modelo dos Tigres Asiáticos sugeria o contrário).

A equação política chinesa seria - segundo Milanovic - que o Estado se vê na obrigação de gerar crescimento para se legitimar, limita o acesso da classe capitalista a cotas de poder próprio e lida com altos níveis de corrupção. Sua hipótese é que os regimes comunistas da China e do Vietnã consolidaram as condições para uma transformação capitalista: "assumiram funcionalmente o mesmo papel da burguesia na Europa no século XIX". O PCCh transformou a sociedade semifeudal em capitalista com o uso arbitrário da lei em benefício das novas elites, mantendo a autonomia do governo em relação a elas. Assim pode direcionar e ordenar a economia de acordo com planos estratégicos centrais, algo muito difícil no capitalismo ocidental. O PCCh parece seguir a teoria marxista sobre o papel progressista da burguesia: desempenhou ele mesmo tal papel já que a burguesia lhe faltava.

O confucionismo

O modelo político confuciano que impera na China há milhares de anos nunca aceitou que o poder econômico fosse independente do central. Os ricos ascendem como indivíduos, não como classe social: carecem de agenda política própria. Jack Ma - megaempresário digital dono da Alibaba – teve as asas cortadas ao buscar maior autonomia: quase não aparece mais em público.

Tendo perdido o trem da Revolução Industrial e desmembrada por potências estrangeiras até 1945, a China entrou com Mao em um labirinto do qual parece estar saindo vitoriosa em apenas 40 anos de "socialismo com características chinesas" (apesar de que "capitalismo com traços chineses" seja mais adequado). Sua plataforma de lançamento será a nova Rota da Seda com a qual se conectará ao mundo por terra e mar.

Todo este ciclo ocorreu em escassos 100 anos no contexto da única civilização antiga com certa continuidade até hoje, desde sua unificação faz 2.242 anos por Qin Shi Huang, cuja tumba secreta é até hoje protegida por 8.500 soldados de terracota em Xian. Parece que Xi Jinping se vê como um novo imperador que veio "rejuvenescer" a China e relança-la como potência mundial.

O ying e o yang

Desde nossa perspectiva binária é difícil entender essas mudanças. O raciocínio do Ocidente advém do princípio aristotélico de não contradição: algo não pode ser uma coisa e ao mesmo tempo seu contrário. Mas o pensamento chinês – à parte da ideologia - tem raiz taoísta. No símbolo de ying e yang, o negro penetra no branco e vice-versa, em harmonia complementar: são uma unidade. A dualidade grega é A ou B. A chinesa: A e B. Por isso o Extremo Oriente assimila melhor a mudança e se adapta à circunstância. O marxismo já teve de trocar alí o proletariado pelo campesinato – mudando seu fundamento - e agora substituíram "economia planificada" por uma de "mercado à moda chinesa": um capitalismo de Estado. Quem deu início a esta fase foi um herói da Longa Marcha - Deng Xiaoping – e ele tem afinidade com o filho de outro grande revolucionário: Xi Jinping. E ninguém vê contradição. São comunistas que promovem o capitalismo com uma eficiência e velocidade nunca vistas (similar a seus vizinhos japoneses, sul-coreanos e taiwaneses). A Razão ocidental considera que o ser das coisas é uma substância rígida perdurável, uma pureza a ser mantida para que não se perca sua essência. Mas o Leste da Ásia não é essencialista: Lao Tsé teorizou: "nada é permanente, a não ser a mudança". Se algo falha, se toma outro caminho com a maior naturalidade. Quando "o Grande Timoneiro" Mao se transformou em dogmático, emperrou: o quiseram eclipsar e para se defender gerou a trágica Revolução Cultural. Uma vez ausente o heroico líder que havia se afastado da "fluidez do tao", a China retomou seu caminho. Um dito popular diz: "Mao acertou em 70% e errou em 30%”.

O êxito econômico com estabilidade política do PCCh é indiscutível – o PIB cresceu 412% desde 1978 -, fora a falta de liberdades. O Ocidente se queixa por formalidade sobre direitos humanos, mas logo os deixa de lado: se impõe a lógica comercial. Este ano se anunciou a erradicação da pobreza extrema, um conceito relativo. Mas ninguém discute que cerca de 770 milhões de chineses ascenderam à classe média ou alta desde 1949 (99 milhões desde 2012). Ao serem exatos os dados, eles são um recorde na história da humanidade. Este é um pilar de um partido que em 1922 tinha 300 integrantes e em 2021, 92 milhões, apesar de os exames para se entrar sejam exigentes e levem anos. Quando Xi Jinping quis se filiar, seu pai cumpria 7 anos de prisão e o rechaçaram nove vezes. Claro que hoje é tudo diferente: em suas origens, ser comunista podia custar a vida. Agora, para que um empresário desfrute de grande flexibilidade trabalhista e sindicatos amigos, ele tem de estar filiado ao PCCh.

O impressionante é que tudo isto foi feito por um mesmo partido com uma cintura política tão flexível que pode girar 180º sobre seu dorso sem quebrar a coluna, seguindo postulados da Arte da guerra, de Sunzi: uma avaliação constante das possibilidades, adequando-se a um quadro da situação e não a um plano à moda ocidental: um objetivo inamovível se transforma num obstáculo.

O PCCh é hoje coerentemente chinês: manejável e adaptável, aproveitando a inclinação facilitadora como a água: tem pouco em comum com o de Mao. O nível de consenso parece ser alto devido ao êxito econômico em um tipo de casamento por conveniência. A linha patrilinear Xi pai-Xi filho é uma continuidade divergente que conflui, não uma contradição (o primeiro executou um plano A e o segundo, um "oposto" plano B). Esta história familiar ilustra os últimos 100 anos na China, esse breve instante para uma civilização milenar, enquanto o paciente dragão vermelho vai tomando posição para seu grande salto para o trono global, a partir de um diagrama situacional nunca pré-fixado.

Julián Varsavsky é formado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Buenos Aires (UBA), fotógrafo e documentarista.

*Publicada originalmente em 'Uy.press' | Tradução de Carlos Alberto Pavam




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