Pelo Mundo

De Tony Blair a Matte Frederiksen

 

21/06/2019 13:18

 

 

No último ano, os socialdemocratas, que vinham desaparecendo pouco a pouco desde a crise de 2008, protagonizaram um discreto retorno. Estão no poder na Espanha, em Portugal, na Suécia, na Finlândia e, mais recentemente na Dinamarca.

Mas as estatísticas são desanimadoras. As eleições europeias deram aos membros do grupo socialista somente 20% dos votos contra os 25% de 2014, e em uma evidente erosão dos 34% alcançado em 1989 e 1994.

O último sucesso na Dinamarca teve 25,9% dos votos, inferior à votação de 2015. Na Finlândia, obtiveram 17,7%, somente dois décimos mais que a direita. Na Suécia, Stefan Lofven conseguiu seu mandato com a votação mais baixa em décadas. Nos grandes países, como Reino Unido, Alemanha, França e Itália, a socialdemocracia vem se tornando irrelevante. O interessante é que os votos perdidos não foram a favor da esquerda mais radical. Na eleição continental, os dois grupos europeus que se unem ao grego Syriza, ao espanhol Podemos, ao França Insubmissa, ao alemão Linke, entre outros, obtiveram somente 5%, abaixo dos 7% de 2014. A maioria dos migrou para a nova direita alternativa (apelidada “Alt Right”). Agora, os socialdemocratas têm apoio popular somente na Espanha (PSOE, com 33%) e em Portugal (PS, com 33,4%). Assim, a socialdemocracia deixa de ser destaque pela região escandinava, para ser tendência na Península Ibérica. Hoje, Portugal é o que foi a Suécia há 20 anos: um modelo de valores cívicos, tolerância e inclusão.

O debate se centra, agora, no modelo dinamarquês. Matte tem um discurso bastante radical contra os imigrantes, praticamente idêntico à cisão da Alt Right: deportação de imigrantes a uma ilha deserta (ao estilo australiano); confisco de joias e outros objetos de valor que trazem consigo, proibição do uso de burka e do niqab em espaços abertos. Estas ideias também foram parte do programa do Alt Right. Em 2015, quase 60 mil migrantes chegaram à Dinamarca, mas somente 21 mil obtiveram asilo. Em 2017, a cifra caiu a somente uma quarta parte das solicitações. Ao mesmo tempo, Matte prometia aumentar o bem-estar, os subsídios aos segmentos mais pobres da população, os incentivos para os jovens, além de desestimular o hábito de fumar: prometeu aumentar radicalmente o custo dos cigarros).

O modelo dinamarquês se baseia em um fato simples. Hoje, os europeus são governados pelo medo. Medo do futuro, da chegada da Inteligência Artificial e dos robôs que poderiam levar ao fim de 10% dos trabalhos atuais: só a automatização dos automóveis deixaria sem emprego quase dois milhões de taxistas, motoristas de ônibus e de caminhões, e isso não é culpa dos imigrantes. A chamada “nova economia” declara abertamente que a mão de obra é um pequeno componente do produto industrial. O excesso de trabalhadores disponíveis coloca um ponto final ao tempo dos trabalhos fixos. Claro, essa realidade contradiz o fato de que a população europeia enfrenta um declínio evidente. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2030, a Europa precisará ter ao menos 10 milhões de habitantes a mais do que tem hoje, se quiser continuar sendo competitiva. Quando os sentimentos, e não as ideias, se tornam a base da política, e as decisões são tomadas a partir do instinto e não da razão, a mitologia se encarrega de nos afastar da realidade.

Agora, a grande maioria dos trabalhadores italianos vota em Salvini, o líder da Liga do Norte, que fez do medo o tema central de sua estratégia de campanha eleitoral permanente. Como ministro do Interior, ele passou somente 17 dias em seu escritório ministerial, privilegiando o trabalho nas ruas. Fez dos imigrantes seus inimigos preferenciais, afirmando que são a maior ameaça para a segurança dos italianos. Ele convoca manifestações massivas, beija o rosário e a Bíblia, afirma que a Itália é escrava da União Europeia, introduz novas leis de segurança que facilitam a posse de armas e impulsa uma campanha aberta contra o Papa e seus apelos à solidariedade e à inclusão – ele sugere que o Papa Francisco poderia acolher todos os refugiados no Vaticano –, se alia com a ala conservadora da Igreja para pedir a volta do Papa Bento XVI. Assim, conseguiu duplicar seus votos e está em caminho a ser o próximo primeiro-ministro. Salvini desafia a União Europeia com a declaração de que não aceitará o limite de déficit de 3%, alegando que atua em nome dos italianos, e que “primeiro atenderemos os italianos, depois os eurocratas”. Essa é uma batalha que tende a perder. Os chefes de governo europeus são os que estabelecem o limite do déficit, e seus companheiros soberanistas, como o austríaco Kurz, o húngaro Orbán ou o polaco Kaciencky, não farão um sacrifício para permitir que a Itália possa incrementar seu déficit.

A Itália é um bom exemplo para entender como a realidade já não é tão importante, ou a base para a política. O economista internacional Tito Boeri, diretor acaba de deixar o Instituto Nacional de Seguridade Social (INPS, instituição bastante respeitada), acaba de publicar seu artigo “Os gerentes do medo”. Os italianos foram convencidos pelo discurso de que há um imigrante a cada quatro italianos: a realidade é que há um a cada doze. As pesquisas mostram que os italianos (e isto é válido para todos os europeus) estão convencidos de que enfrentam quatro problemas com os imigrantes: 1) que os imigrantes querem roubar os empregos; 2) que os italianos têm que financiar o bem-estar dos que não trabalham; 3) as cidades com mais imigrantes são menos seguras; 4) os imigrantes difundem doenças contagiosas. Segundo Boeri, quase 10% dos imigrantes criaram empresas. Em média, cada imigrante que se tornou empresário contrata 8 trabalhadores e o emprego dos imigrantes está altamente concentrado em atividades que os italianos desprezam. Eles proporcionam 90% do trabalho que se realiza nos campos de arroz, 85% na indústria de têxtil e 75% na colheita de frutas e hortaliças. Os salários nestes setores aumentaram nos últimos 20 anos, mas eram baixos, e continuam sendo.

Mas a razão mais importante (e isso também serve para toda a Europa) é que agora, de cada quatro italianos, um tem mais de 65 anos. Enquanto um de cada 50 imigrantes tem mais de 65 anos. Como o sistema previdenciário pode sobreviver sem os imigrantes? Entretanto, os italianos de más de 65 anos são, agora os que votam pela “Alt Right”. Na Itália, há dois aposentados para cada três trabalhadores e esta relação desequilibrada segue crescendo. Para manter o sistema atual, 83% de cada salário se destina ao sistema previdenciário. No futuro, quanto custará aos poucos trabalhadores manter esses aposentados? Atualmente, 150 mil jovens abandonam a Itália a cada ano.

Vejamos o que acontece com respeito ao crime. As estatísticas mostram que, embora os imigrantes sejam cada vez mais, o crime vem diminuindo. Também há estatísticas sobre doenças contagiosas, publicadas pela Organização Mundial da Saúde: a Turquia, o país que recebeu a maior parte dos imigrantes (mais de 4 milhões), e em pouco tempo, não tem dados que demonstrem um aumento das doenças contagiosas. A Alemanha, que é quem mais recebeu imigrantes na Europa Ocidental, tampouco mostra um aumento das doenças contagiosas.

Para os historiadores, o medo e a cobiça são os grandes motores que impulsam as mudanças. Quando começa o medo? Com a crise econômica de 2008, que foi resultado de um mercado financeiro irresponsável, pois esse é o único setor global do mundo que está sem controle. A crise deixou claro o fracasso da globalização. Em vez de impulsar todos os barcos, como seus propagandistas proclamavam, só abasteceu alguns poucos iates, e os enriqueceram em níveis sem precedentes: agora 80 indivíduos acumulam a mesma riqueza que 2,3 bilhões de pessoas. A cobiça antecede o medo. Após a queda do Muro de Berlim, o mundo entrou numa orgia do privado sobre o público. O Estado passou a considerado inimigo do desenvolvimento. Todos os gastos sociais se reduziram, em particular os da saúde e da educação, considerados não produtivos. No Brasil, Bolsonaro segue o mesmo roteiro: corta o orçamento das universidades e anuncia que quer tirar filosofia e sociologia da grade curricular, em favor dos “estudos técnicos”, como os negócios, a engenharia e a medicina. O lucro passou a ser visto como uma virtude essencial. As empresas passaram a ter o direito de buscar o máximo benefício, e de levar essa ganância aos países mais baratos, deslocando as fontes locais de trabalho, reduzindo salários e marginalizando os sindicatos. A globalização, em sua trajetória neoliberal, foi considerada imparável. “Não há alternativa”, disse a famosa Margaret Tatcher, considerada a sereia do neoliberalismo, junto com Ronald Reagan.

A maré foi tão forte que se chamou la pensèe unique (“o pensamento único”). No começo, a esquerda não tinha uma resposta. Contudo, em 2003, o primeiro-ministro britânico Tony Blair apresentou uma proposta alternativa. Como a globalização era vista como inevitável, a ideia foi a de avançar, e tentar domesticá-la, por uma Terceira Via. Foi assim que a esquerda aceitou globalização. O resultado foi que a socialdemocracia apenas se adaptou, e os perdedores da globalização deixaram de se sentir defendidos pela esquerda. A globalização entregou ao mercado tudo o que era remunerável (finanças, comércio, transporte) e deixou ao Estado somente a responsabilidade do inalterável: educação, saúde, previdência e todos os gastos sociais.

Este processo foi acompanhado de uma redução considerável da arrecadação dessas nações, pois a globalização permitiu (e ainda permite) ocultar os lucros e driblar os sistemas fiscais nacionais: se estima que 80 bilhões de dólares se encontram em paraísos fiscais, uma das principais razões da diminuição das rendas nacionais. Assim, havia muito menos recursos a se distribuir. As dívidas públicas começaram a se acumular. No instante em que escrevo, elas já estão em 58.987.551.309.132 dólares (segundo o relógio da dívida do The Economist). Como resultado, aumentam os juros das dívidas e são reduzidos a quantidade disponível para gastos. Ninguém fala desta espada de Dâmocles que pende sobre a cabeça dos países e seus cidadãos. Não é de se estranhar que a União Europeia introduzisse um limite para os déficits nacionais… A Itália deve pagar e deve pagar 30 bilhões de euros cada ano pelo seu déficit. Logo, a proposta do governo de aumentar o seu déficit para ganhar votos é absolutamente irresponsável…

Vale a pena destacar que antes da crise de 2008 não havia partidos da direita alternativa na Europa, à exceção do de Le Pen na França. Era questão de tempo para que, em todos os países, alguém começasse a usar o medo e o declínio dos partidos tradicionais, que não davam respostas satisfatórias aos problemas da globalização neoliberal. Os imigrantes foram o elemento que faltava para acionar o medo. E todas as vítimas da globalização se tornaram os novos campeões…

Agora, é lugar comum dizer que a direita e a esquerda já não existem. De fato, a luta é entre os soberanistas, nacionalistas pintados de xenofobia e populismo, e contra os globalistas, aqueles que ainda acreditam que a cooperação e o comércio internacionais são vitais para o crescimento e a paz. Este debate sobre o presente ignora que a esquerda é um processo histórico, que começou na primeira revolução industrial, no princípio do Século XIX. Um número incalculável de pessoas deu sua vida para alcançar a justiça social, frear a exploração dos trabalhadores e introduzir os valores de uma sociedade moderna e justa nas relações internacionais: equidade, democracia participativa e transparente, direitos humanos, paz e desenvolvimento. Estas foram as bandeiras da esquerda. Este tesouro histórico deve se vincular necessariamente aos tempos atuais.

A dialética direita-esquerda não desapareceu. Basta ver como o crescente movimento ambientalista dos nossos dias se viu afetado pela divisão. De Trump a Bolsonaro, todos os líderes da nova direita passaram a defender que a crise climática é uma conspiração da esquerda. E que leu a encíclica do Papa Francisco, Laudato Si (lamentavelmente ninguém mais faz isso), verá que a luta contra a crise climática é, antes de tudo, uma questão de justiça social e dignidade humana. Nesse sentido, os Partidos Verdes passaram a assumir parte das batalhas da esquerda histórica.

E isso nos leva a uma questão central. Seria a solidariedade parte integral do legado da esquerda? Matte conseguiu sua vitória na Dinamarca abandonando a solidariedade e utilizando o nacionalismo e a xenofobia. Claro, está oferecendo aos eleitores dinamarqueses a sensação de segurança da restauração dos privilégios para os seus cidadãos. Está claro que esta é, no atual momento, uma fórmula vencedora, como foi a Terceira Via para Tony Blair, nas eleições britânicas de 1997. Apesar de sua reverência à globalização como na Terceira Via. Ela se inclinou diante do nacionalismo, do populismo e da xenofobia, o novo pensèe unique para tantas pessoas no mundo. Seria sensato observar se isso tem um efeito duradouro para o que se considera esquerda.

Roberto Savio é um jornalista e economista ítalo-argentino, especialista em comunicação, comentarista político, ativista pela justiça social e climática, além de defensor de uma governança global anti neoliberal. Diretor de relações internacionais do Centro Europeu para a Paz e o Desenvolvimento, co-fundador e presidente emérito da agência IPS e presidente do Other News.

*Publicado originalmente no Other News | Tradução de Victor Farinelli


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