Pelo Mundo

Debate sobre efeito estufa não convence ambientalistas

05/07/2005 00:00

Londres – Reunidos a partir de quarta-feira (6) no luxuoso Hotel de Gleneagles, localizado na área central da Escócia, os líderes das sete nações mais ricas do mundo (Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Japão, Canadá) e a Rússia se colocam mais uma vez na posição de quem tem legitimidade para definir as soluções para os principais problemas do mundo. Neste ano, a pauta da cúpula traz várias questões globais, sendo que os focos centrais são dívida externa e ajuda aos países pobres, comércio e aquecimento global.

Uma recente entrevista do primeiro ministro britânico Tony Blair à rede de televisão BBC poderia ilustrar a preocupação dos líderes mais poderosos com as conseqüências das mudanças climáticas. “A questão do aquecimento global é bastante séria e está agravando-se devido ao aumento da emissão de gases de efeito estufa à atmosfera. Comunidades inteiras irão ser afetadas e a hora de agir é agora”, afirmou Blair, o anfitrião do encontro e responsável por colocar o aquecimento global no centro das negociações.

Pelo lado da sociedade civil, o objetivo é aproveitar a reunião do G8 para exigir ações emergenciais e eficazes principalmente no sentido de reduzir substancialmente a emissão de gases e a dependência mundial econômica nos combustíveis fósseis. Também pretende evidenciar como a pobreza e o aquecimento global estão vinculados e que as maiores vítimas deste último são as nações mais pobres do planeta, que têm muito mais dificuldades de se protegerem de seus efeitos drásticos.

Cobrando ações
Dentre outras manifestações, nesta quinta-feira (7) inúmeras organizações e movimentos ambientalistas participam do Alarme do Clima. O ato consistirá na utilização de sinos, sirenes, apitos e buzinas com a finalidade simbólica de tentar acordar os governantes para a necessidade urgente de definir ações e estratégias para deter o aquecimento global. Programado para acontecer em vários lugares do mundo, mas com enfoque na reunião do G8, o ato acontece às 13h45 porque os países participantes do grupo representam somente 13% da população mundial, no entanto são responsáveis por 45% das emissões globais de gases de efeito estufa.

O último dia do encontro (8), foi definido como Dia Internacional de Ação Contra as Causas das Mudanças Climáticas. As grandes organizações internacionais como Greenpeace, Water Aid e Corporate Watch, entre outras, estarão denunciando a dependência econômica aos combustíveis fósseis e o quanto a taxa de redução de gases definida no Protocolo de Quioto é patética diante da real necessidade de redução para resultar em um equilíbrio atmosférico.

Outro foco de denúncia ds socioambientalistas é o fato de que as instituições internacionais de financiamento são as líderes no financiamento de projetos de petróleo, gás e carbono ao redor do mundo. “Só o Banco Mundial tem financiado mais de 25 bilhões de dólares nestes projetos desde que a Convenção do Clima das Nações Unidas foi assinada pela maioria dos países em 1992. Além disso, mais de 80% de todos os projetos financiados pelo Banco Mundial são destinados a produzir petróleo para exportação para os países ricos do hemisfério norte”, afirma a Declaração da Sociedade Civil sobre o Clima e a Dívida que será apresentada em uma conferência à imprensa internacional nos próximos dias, na Escócia.

Ainda segundo o documento, dessa forma, financiamentos públicos, que deveriam ser destinados para o combate à pobreza e ao desenvolvimento sustentável, acabam tornando-se mais um subsídio público para as corporações, consumidores e governos dos países ricos.

Por trás da cortina
No entanto, apesar da movimentação de centenas de organizações socioambientalistas, da organização de várias campanhas, atos, protestos e abaixo-assinados, representantes da sociedade civil assumem que não têm esperanças de que o G8 adote medidas pró-ativas que realmente mudem a atual situação de caos ambiental do planeta.

“Há muito discurso, mas será muito mais fácil para os líderes se concentrarem na chamada ajuda humanitária aos países da África do que realmente atacar as causas da mudança climática ou as causas da miséria. Afinal, nenhum deles vai querer deixar Bush para trás. E nós sabemos muito bem o nível de comprometimento dele com as grandes companhias de petróleo, que o impede até hoje de assinar o Protocolo de Quioto”, declarou à Carta Maior o assessor de imprensa do Greenpeace do Reino Unido, Ben Stewart.

Quando a atenção é voltada mais para os fatos, ao invés das promessas, é fácil entender o porque do pessimismo – ou realismo – de Stewart e da maioria das organizações. De acordo com dados da própria Organização das Nações Unidas (ONU), de 1990 a 2002, metade dos países do G8 aumentaram suas emissões de gases de efeito estufa. O Canadá aumentou em 20%, os Estados Unidos aumentou em 13%, Japão em 12% e a Itália em 8%.

Rússia teve seus índices diminuídos devido à grande recessão que se seguiu às implementações do choque econômico proposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) na década de 90. E a substituição do carvão pela utilização de gás foi o motivo que levou o Reino Unido a diminuir em 14% suas emissões. No entanto, segundo a própria ONU, devido às emissões decorrentes do transporte, o índice britânico de emissões aumentou nos últimos três anos.

Mesmo considerando que a França diminuiu suas emissões em 1% e Alemanha em 18%, todos os países-membro do G8 estão há anos-luz do corte de 60% nas emissões que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) afirma ser necessário para equilibrar a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre.

Outros indícios
Além desses dados, outras ações dos governantes do G8 evidenciam que ao invés de se preocuparem com o equilíbrio ambiental do planeta, o que eles realmente querem é assegurar o lucro proveniente das indústrias ecologicamente devastadoras. “Os grandes investimentos nos transportes aéreo e rodoviário, na exploração do carvão e na energia nuclear feitos por esses mesmos líderes políticos são exemplos de como eles só usam de retórica. Como é possível deste modo mudar o cenário?”, questiona Stewart.

Outro dado a ser considerado é a revelação de que um olhar mais atento às últimas reuniões dos líderes mostram que os problemas das mudanças climáticas sofreram um acentuado declínio na agenda do G8. Em 1998, em seu pronunciamento final, o grupo afirmou que “a maior ameaça ao futuro do planeta era o aquecimento global”. Já na reunião de 2001, foi vagamente definido como um problema urgente que necessitaria uma solução global.

Consciência individual
Como mecanismo para causar uma efetiva alteração nos rumos da situação climática do planeta, pequenas organizações e movimentos socioambientais europeus estão apostando na mudança individual de comportamento. Trata-se de perceber e refletir sobre as conseqüências de cada ação para o meio-ambiente e substituir ao máximo as que são consideradas prejudiciais. Dos simples atos de trocar as lâmpadas por outras mais econômicas e economizar água durante o banho até se negar a utilizar o transporte aéreo. “Eu sei que nós precisamos mudar. Sei que da forma que nós consumimos atualmente é impossível continuar. É insustentável. Portanto, não me resta outra alternativa a não ser mudar radicalmente meus hábitos e ações”, afirmou Shannon Smy, cantora do grupo inglês Seize the Day, que tem como mote “Faça da ganância uma coisa do passado”.


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