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Democracia ou a máfia da supremacia branca: em qual lado está o Partido Republicano?

 

09/02/2021 12:49

Nessas poucas semanas desde a vandalização do Capitólio pela máfia, que acarretou em cinco mortes, líderes Republicanos se banharam mais no esgoto do fascismo do que na glória (Susan Walsh/AP)

Créditos da foto: Nessas poucas semanas desde a vandalização do Capitólio pela máfia, que acarretou em cinco mortes, líderes Republicanos se banharam mais no esgoto do fascismo do que na glória (Susan Walsh/AP)

 
No julgamento do impeachment de Trump, os Republicanos terão mais uma chance de se voltar contra os extremistas. Será que farão isso?

Em 2001, nove dias após terroristas atacarem os EUA e seu governo federal, um presidente Republicano ficou na frente do Congresso com o apoio esmagador de uma nação aterrorizada, enquanto apresentava uma escolha difícil ao mundo.

“Toda nação em todas as regiões agora têm uma decisão a tomar: ou você está conosco, ou está com os terroristas”, disse George W. Bush para uma salva de palmas em setembro de 2001. “De hoje em diante, qualquer nação que continuar a abrigar ou apoiar o terrorismo será tida pelos EUA como um regime hostil.”

 Com isso, nasceu a era pós 11/9, que sobreviveu pela maior parte de duas décadas, custando trilhões de dólares e dezenas de milhares de vidas, e realinhando a diplomacia estadunidense e a política em termos complicados.

Os Republicanos lutaram e ganharam duas eleições com base no argumento de que eram fortes e certeiros em defender a nação, enquanto os Democratas eram fracos que tentavam ganhar com os dois lados da moeda.

Hoje Washington está encarando algo que parece como um novo amanhecer – o começo da era pós-Trump – e os Republicanos não sabem em qual lado da guerra estão. Eles estão com os EUA ou com os rebeldes?

As respostas iniciais são catastroficamente fracas em um mundo onde as ameaças não estão distantes ou não são abstratas. Esse não é um risco imposto aos oficiais estadunidenses ao redor do mundo, ou uma ameaça em potencial que pode um dia se materializar em uma capital estrangeira.

Esse é um perigo claro e presente para os próprios membros do Congresso que devem agora decidir entre proteger suas próprias carreiras ou proteger as vidas das pessoas que estão trabalhando no corredor. Com o segundo julgamento de impeachment de Donald J Trump na próxima semana, não há como ao menos 50 senadores Republicanos escaparem do momento decisório: você está com os Estados Unidos ou não?

Em todos os outros ambientes de trabalho, essa não seria uma escolha difícil. Sendo imposta a escolha de salvar o próprio emprego ou salvar as vidas de seus colegas de trabalho – mesmo as de quem você não gosta – a grande maioria das pessoas decentes salvaria vidas.

Apenas ouça os relatos em primeira mão das deputadas Alexandria Ocasio-Cortez e Katie Porter. Ocasio-Cortez relatou o momento assustador em que se escondeu no banheiro do seu escritório para salvar sua vida enquanto rebeldes tomavam o Capitólio.

Não há dúvidas de que ela, como muitos outros, temeram por suas vidas. Porter lembrou de sua amiga buscando refúgio em seu escritório. Ela deu um par de tênis para AOC caso precisassem correr por suas vidas.

A ameaça mortal não estava reservada para os Democratas do alto escalão. Mike Pence, o mais bajulador dos fiéis de Trump, estava se escondendo da multidão com sua família, enquanto terroristas cantavam sobre enforcá-lo. Se alguém precisava de confirmação sobre suas intenções assassinas, tinham calabouços improvisados do lado de fora do Capitólio.

Já passou da hora de admitirmos o óbvio: o Partido Republicano foi sequestrado por fascistas extremistas. Agora é uma organização de extrema direita em coligação com neonazistas que deixaram dolorosamente evidente que querem derrubar a democracia e tomar o poder, usando a violência se necessário.

Toda decisão que os ditos líderes fazem a essa altura define em qual lado estão: o lado dos Estados Unidos como os conhecemos, ou da máfia da supremacia branca.

Nessas poucas semanas desde a vandalização do Capitólio pela máfia, que acarretou em cinco mortes, líderes Republicanos se banharam mais no esgoto do fascismo do que na glória. Podendo optar entre a conservadora Liz Cheney e a fascista Marjorie Taylor Greene, os Republicanos da Câmara rejeitaram a primeira e abraçaram a última.

A posição de Cheney como parte da liderança Republicana está sob ameaça, enquanto Greene somente sofre pressão dos Democratas – que por alguma razão são os únicos a se aterrorizarem quando Greene defende a supremacia branca e a execução de Democratas.

Líderes Republicanos agora se encontram em um dilema que eles mesmos criaram. Tanto Mitch McConnell no Senado dos EUA e Kevin McCarthy na Câmara poderiam escapar da pior punição pública se agissem juntos para tomar de volta seu próprio partido. Ao invés, estão se queixando um do outro.

McConnell declarou que Greene era uma ameaça existencial para o partido. “Mentiras doidas e teorias da conspiração são um câncer para o Partido Republicano e para o nosso país”, ele disse, enquanto apoia a liderança de Cheney.

Tecnicamente, McCarthy que tem que limpar essa bagunça, na Câmara ao invés de no Senado. Mas ele não consegue falar nada publicamente sobre a cultista de QAnon Greene, ou sobre o que ela representa.

Ao invés, ele viajou para a Flórida no final de semana para beijar o anel do homem que de fato está no centro dessa ameaça à nossa democracia: Donald J Trump, que supostamente é fã de Greene, de acordo com a própria.

Podem existir razões racionais a curto-prazo para McConnell e McCarthy terem se separado nessa questão fascista.

McConnell acabou de perder o controle do Senado porque é realmente desafiador ganhar competições a nível estadual – mesmo em locais conservadores como a Georgia – quando se está tentando derrubar a democracia ao mesmo tempo. McCarthy, enquanto isso, se ilude pensando que pode se aproximar do poder pelo fato de os distritos da Câmara serem tão manipulados a ponto de os Republicanos só se sentirem ameaçados pelo poder canibalizador da máfia.

Mas, na realidade, não há escolha. Não é sobre mentiras doidas e teorias da conspiração, como sugere McConnell. Não é sobre as primárias Republicanas ou a reprovação de Trump, como teme McCarthy.

A escolha perante os Republicanos é se eles apoiam ou não a democracia; se eles querem viver e trabalhar com medo da máfia, ou não. QAnon pode ser doideira, mas seus objetivos são assassinar representantes eleitos e seus apoiadores incluindo rebeldes fortemente armados. Os fascistas dos anos 30 também eram desequilibrados e provaram que falavam sério sobre assassinatos em massa.

Nessa semana, os Republicanos em Washington têm mais uma chance de se voltar contra o fascismo. Eles poderiam rejeitar as alegações cômicas dos advogados de Trump de que ele estava meramente exercendo seus direitos à liberdade de expressão ao dizer à multidão que marchasse para o Congresso e lutasse como nunca. Aparentemente tal conduta não constitui incitação à revolta, porque a palavra “incitação” perdeu toda a sua relação com a realidade.

Ninguém espera que os senadores Republicanos votem em quantidade suficiente para condenar Trump pelas denúncias óbvias que apareceram na TV. Ninguém espera que eles rejeitem a derrubada violenta da democracia que os colocou no Senado.

Eles representam, para usar a linguagem de Bush, um regime hostil dentro da capital da nação. Até que os Republicanos rompam com os rebeldes – ao retirá-los do partido ou formando um partido próprio – a democracia não está em segurança.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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