Pelo Mundo

Denunciam graves violações aos direitos humanos no Chile: torturas abusos sexuais e mortes

Detenções arbitrárias, menores de 16 anos em celas sem água, comida ou acesso para conversar com suas famílias; nudez forçada e outras formas mais graves de violência sexual, tortura, uso excessivo de violência; mortes e desaparecimentos. Tudo isso tem sido denunciado nos últimos dias pelas entidades de defesa dos direitos humanos

25/10/2019 16:12

(AFP)

Créditos da foto: (AFP)

 
“Há violações dos direitos humanos todos os dias, isso não é algo que parece, é algo que é, que acontece. É por isso que precisamos de colaboração internacional, precisamos de fortes declarações sobre o que está acontecendo em nosso país, com esse estado de sítio virtual”, diz Constanza Schonhaut, colaboradora do Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), com evidente angústia, após verificar, em um passeio noturno por delegacias e comunas de Santiago, a repetição de crimes cometidos pelo Estado por meio de suas Forças Armadas e de Segurança. Embora “crimes” seja uma palavra que fica aquém de um território que tem em sua memória as feridas do terrorismo de Estado. “O presidente pretende tratar isso como se fosse uma catástrofe natural, como se fosse o resgate dos 33 mineiros – metáfora que o presidente chileno Sebastián Piñera usou na apresentação de medidas de emergência na terça-feira à noite –, mas aqui ele o que há é uma convulsão social, um protesto transversal e maciço, e que é respondido com os militares que atacam o povo”.

Michel Bachellet, ex-presidenta e atual Alta Comissária para os Direitos Humanos da ONU, disse que enviará uma missão de “verificação” das denúncias. Foi um pedido de Piñera, certamente desesperado para defender sua ideia do Chile como um “oásis” latino-americano, e país duas cúpulas internacionais deveriam ocorrer, uma em novembro e outra em dezembro. O primeiro seria o fórum comercial da APEC (sigla em inglês da Cúpula Econômica Ásia-Pacífico), onde os chefes de estado da China e dos Estados Unidos estariam presentes. O segundo é a COP 25, reunião sobre a crise climática em um país onde empresas altamente poluentes estão instaladas em territórios de alta vulnerabilidade social. Bachellet, no entanto, não anunciou sua visita na primeira pessoa. Ele falou em vez de “encontrar soluções para lidar com a insatisfação”, e pediu “àqueles que planejam participar dos protestos, que o façam pacificamente”.

Detenções arbitrárias, menores de 16 anos em celas sem água ou comida ou acesso para conversar com suas famílias, nudez forçada e outras formas mais graves de violência sexual – já existem oito queixas oficiais, e muitas mais que não foram oficializadas por medo de represálias –, tortura, uso excessivo de violência; mortes e desaparecimentos. A situação é muito séria e mesmo quando as ruas ainda estão ocupadas e o cotidiano está interrompido há uma semana, pelo povo que foi às ruas com uma lista completamente transversal de demandas que exigem para sair da crise: o fim da repressão, o retorno das Forças Armadas aos quartéis e uma Assembleia Constituinte que revogue a constituição que vigora atualmente, e que foi escrita no meio da ditadura militar, a vida institucional continua a gerar imagens de profundo desprezo pelos direitos humanos.

O papelão desempenhado pelas deputadas Camila Flores e Paulina Nuñez quando rasgaram os cartazes expostos pela colega do Partido Humanista, Pamela Jiles, como as cifras de mortes, desaparecimentos e detenções foi o primeiro exemplo da indiferença da direita dominante, que também se expressou na voz do ministro das Relações Exteriores Teodoro Ribera, quem assegurou não haver razão para cancelar as cúpulas APEC e COP 25. Antes, dentro de apenas 15 dias, também acontecerá no país a Conferência Regional dos Direitos da Mulher. Será discutido o tema da violência sexual, no contexto de repressão que não cessa? Estupro com o cano uma arma é a descrição de apenas uma das queixas apresentadas ao INDH.

Quatro detidos “crucificados” numa antena da delegacia de Peñalolén, amarrados pelos pulsos com algemas cortavam a circulação. Claro que os detalhes sobram quando a crueldade é tão evidente. A denúncia foi feita na manhã de quinta-feira (24/10), quando o INDH descobriu essa brutalidade em suas viagens. Até agora, devido a esse fato, a proibição da abordagem da polícia aos detidos foi alcançada e um apelo por amparo foi imposto. Um dos muitos que foram exibidos no Senado, onde o chefe de polícia, Mario Rozas, conversou com o diretor do INDH, Sergio Micco. Rozas assegurou que iniciará investigações sobre os excessos. Micco, expôs alguns dados: 1512 prisões no interior do país, 898 em Santiago e sua região metropolitana, 535 pessoas feridas (210 com ferimentos de bala), 10 pedidos de amparo, 55 reclamações por tortura, 5 por homicídio e 8 por violência sexual.

Na porta da Faculdade de Medicina, uma dúzia de estudantes do ensino médio testam sua paciência esperando para serem atendidos, pelos ferimentos que tiveram após serem atacados pelas forças de segurança. O pior caso é o de Valentina Miranda, de 19 anos, estudante de uma pública da periferia, daquelas que nunca garantem a entrada nas melhores universidades. Ela é a líder da Comissão Nacional de Estudantes Secundaristas e membro do Partido Comunista. Registra contusões, queimaduras e uma bala de chumbinho pero do ouvido, que causou uma infecção, tudo isso depois que os policiais a prenderam ilegalmente dentro do prédio onde mora seu companheiro, Pablo Ferrada. Assim que saiu da enfermagem, após três horas de atendimento, ela foi para a rua, para continuar apoiando a rebelião. “Estamos felizes porque os indiferentes finalmente acordaram, felizes por viver isto”, disse ela, apontando para os amigos.

Mais de 45 pessoas perderam a visão na última semana por causa de tiros de espingarda. O que Piñera chamou de “guerra” deixou marcas apenas em um lado. E não, não é uma guerra. “Podemos falar sobre ditaduras do Século XXI, assim como falamos das esquerdas do Século XXI?”, se pergunta Constanza Schonhaut. “Acho que precisamos analisar isso melhor, porque o que vemos é terrorismo de Estado em ação, olhos perdidos, feridos ao longo da vida, tortura... e tudo o que não sabemos porque acontece à noite, em comunidades vulneráveis, em regiões que não cobrimos. Há um presidente à frente, sim, mas enviando o exército contra o protesto”, afirmou.

Bélgica Brione é uma militante feminista e faz parte da articulação das Assembleias Feministas da Zona Oriental (ABZO). Na manhã de quinta-feira, as comunas da Flórida, Peñalolén, Macul, Villa Frei e Ñuñoa se reuniram para a organização da mobilização nesses dias. Os “caldeirões comunitários”, verdadeiros mutirões alimentares, são reproduzidos nas periferias e ajudam a reunir gente para conversar sobre questões como o incentivo ao autocuidado feminista, e também antirracista e anticolonialista. “Porque os mapuche sabem o que vivemos agora, para eles a perseguição é constante. E a repressão aumenta, também se intensifica no interior do país, lá sempre é muito pior”, diz Bélgica. Ao lado dela, um companheiro fala da preocupação com os cuidados infantis. “Ontem decidi que era hora de assistir filmes e comer guloseimas, relaxar a cabeça. Passaram dias ouvindo histórias sobre tortura e violência sexual, coisas que sofreram pessoas próximas a eles, que têm entre 8 e 12 anos. Isso claramente os afeta, precisam descansar”.

A intensidade da mobilização das ruas foi menor nesta quinta que nos dias anteriores, mas as panelas não pararam de tocar. No centro de Santiago, durante toda uma semana, as multidões passaram com suas bandeiras e cartazes, enquanto há quem beba cerveja nos bares de cortinas fechadas, e assim se vive o Estado de exceção no país. De vez em quando, uma pedra atinge o prédio da Câmara de Comércio, e outros grupos chegam para frear esse impulso. A raiva não para, o desejo de que tudo seja transformado também. O Chile ainda está ardendo.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado