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Devemos impedir que os EUA entrem em guerra com o Irã

Trump fez campanha para tirar os EUA de 'guerras infinitas' - mas sua administração está nos levando por um caminho que torna a guerra mais e mais provável

30/06/2019 13:58

Vozes de discordância foram ignoradas nos eventos que levaram à guerra do Iraque. Devem ser atendidas agora (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Vozes de discordância foram ignoradas nos eventos que levaram à guerra do Iraque. Devem ser atendidas agora (Brendan Smialowski/AFP/Getty Images)

 

Os tambores de guerra estão batendo em Washington novamente.

Hoje vimos que os EUA chegaram muito perto de atingir alvos dentro do Irã em resposta à um drone norte-americano abatido no Golfo Pérsio. Na semana passada, a Casa Branca anunciou que um adicional de 1.000 tropas seria enviado ao Oriente Médio em resposta à um suposto ataque iraniano a dois tanques de petróleo no Golfo de Oman. No mês passado, o New York Times relatou que o Pentágono apresentou um plano para a Casa Branca que visa enviar 120.000 tropas para a região para lutar contra o Irã.

Temos que repensar nossa abordagem atual. Uma guerra com o Irã seria um absoluto desastre. Como colocou o ex-general Anthony Zinni: “Se você gosta do Iraque e do Afeganistão, você irá amar o Irã”. Se os EUA fossem atacar o Irã, o Irã poderia responder com ataques às tropas norte-americanas em países da região. O que levaria à uma maior desestabilização da região de um jeito inimaginável e resultaria em guerras que durariam anos e provavelmente custariam trilhões de dólares.

Dezesseis anos atrás hoje, os EUA cometeram um dos piores erros de política externa da história do nosso país ao atacar o Iraque. Aquela guerra foi vendida ao povo norte-americano baseada em uma série de mentiras sobre armas de destruição em massa. Um dos grandes defensores dessa guerra foi John Bolton, que serviu como membro da administração Bush e agora é conselheiro nacional de segurança de Trump. Incrivelmente, até hoje, Bolton é um dos poucos remanescentes que acreditam que a guerra do Iraque foi uma boa ideia.

Aquela guerra levou à morte de mais de 4.400 tropas norte-americanas, com dezenas de milhares de soldados feridos, muitos severamente, e centenas de milhares de civis iraquianos mortos. Desencadeou uma onda de radicalismo e desestabilização ao redor da região que ainda vamos lidar por muitos anos. Foi o maior desastre de política externa na história dos EUA.

Trump fez campanha para tirar os EUA de ‘guerras infinitas’ - mas sua administração está nos levando por um caminho que torna a guerra mais e mais provável.

Primeiro, teve a decisão imprudente do presidente de sair do acordo nuclear com o Irã um ano atrás e impor novamente sanções esmagadoras ao Irã. Foi uma ação que até seus principais oficiais de segurança se opuseram, incluindo o então secretário de Defesa James Mattis. Porque? Porque eles sabiam que, como a grande maioria dos experts em segurança nacional nos EUA, Europa e ao redor do mundo, o acordo nuclear estava prevenindo efetivamente que o Irã continuasse com seu programa nuclear.

O acordo nuclear do Irã põe o programa nuclear do país sob o mais intenso regime de inspeções da história. Fez o Irã desistir de mais de 98% de urânio enriquecido. A campanha de “pressão máxima” de Trump reverteu esses ganhos. O Irã recentemente anunciou que, em resposta à um ano de sanções norte-americanas crescentes, aumentaria seu estoque de urânio enriquecido além dos limites impostos pelo acordo nuclear. Bizarramente, Trump agora alerta o Irã a não violar um acordo que sua administração violou há um ano atrás.

Enquanto há muito o que precisamos saber sobre o ataque aos tanques e o abatimento do drone, claramente a retórica da administração Trump e as sanções crescentes são tensões progressivas. Os EUA e a comunidade internacional têm um interesse em comum em proteger rotas internacionais de navegação e espaço aéreo. Precisamos trabalhar multilateralmente nisso. Infelizmente, os EUA estão isolados dos seus aliados mais importantes no momento por causa da saída de Trump do acordo nuclear e da campanha contra o Irã. Por causa das mentiras constantes de Trump, a palavra dos EUA não é confiada por muitos ao redor do mundo.

Vozes de discordância foram ignoradas nos eventos que levaram à guerra do Iraque. Devem ser atendidas agora.

O Congresso deve fazer de tudo para evitar essa guerra. A constituição é muito clara: é o Congresso, não o presidente, que decide quando entramos em guerra. É imperativo que o Congresso, imediatamente, deixe claro ao presidente que nos levar à hostilidade com o Irã, sem autorização congressional, seria tanto ilegal quanto inconstitucional.

Muitos meses atrás, fizemos história no Congresso ao passar, pela primeira vez em 40 anos, uma Resolução de Poderes de Guerra para retirar os EUA de uma guerra ilegal e não autorizada no Iêmen. Fizemos isso com o forte apoio de uma coalizão transpartidária, com progressistas e conservadores trabalhando juntos para trazer sanidade à nossa política externa. Precisamos dessas mesmas vozes para deixar claro ao Congresso e ao establishment intervencionista da política externa aqui de Washington que não iremos aceitar outra guerra norte-americana no Oriente Médio. E dessa vez precisamos trabalhar juntos ainda mais fortemente para reunir uma maioria à prova de veto no Congresso.

Quero ser claro nisso: o Irã segue muitas políticas péssimas. Reprime violentamente sua própria população e apóia grupos extremistas ao redor da região. O mesmo poderia ser dito da nossa parceira de longa data, Arábia Saudita. Temos que ter uma abordagem mais neutra no Oriente Médio, e não simplesmente apoiar um lado contra o outro em um conflito regional. Os EUA são fortes o suficiente para lidar com essas questões diplomaticamente, trabalhando com aliados ao redor do mundo, e é isso que deveríamos estar fazendo. Não devemos lutar uma guerra desnecessária.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Isabela Palhares

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