Pelo Mundo

Dia do Trabalho 2020: a mudança de poder

 

08/09/2020 12:49

 

 
No Dia do Trabalho [comemorado este ano em 7 de setembro nos EUA], apenas oito semanas antes de uma das eleições mais importantes da história norte-americana, é útil considerar a realidade econômica que alimentou a vitória de Donald Trump quatro anos atrás.

Nenhuma outra nação desenvolvida tem, nem de longe, as desigualdades de renda e riqueza encontradas nos Estados Unidos, embora todas essas nações tenham sido expostas às mesmas forças da globalização e da mudança tecnológica. As três pessoas mais ricas dos EUA têm tanta riqueza quanto a metade inferior de todos os norte-americanos juntos, mesmo com 30 milhões de norte-americanos relatando que suas famílias não tinham comida suficiente.

O capitalismo americano está fora dos trilhos.

A principal razão é que grandes corporações, bancos de Wall Street e um punhado de indivíduos extremamente ricos ganharam poder político suficiente para burlar o sistema.

Os executivos-chefes têm feito todo o possível para evitar que os salários da maioria dos trabalhadores aumentem juntamente com os ganhos de produtividade, de modo que a maioria dos ganhos vai para os bolsos dos principais executivos e grandes investidores.

Eles terceirizaram no exterior, instalaram tecnologias de substituição de mão de obra e passaram a trabalhar em regime de meio período ou por contrato. Eles destruíram os sindicatos, cujos membros representavam 35% da força de trabalho do setor privado há 40 anos e hoje diminuíram para 6,2%. Eles neutralizaram a aplicação da lei antitruste, permitindo que seus monopólios tivessem rédeas soltas.

O chamado mercado livre foi dominado pelo capitalismo de compadrio, resgates às corporações e bem-estar corporativo.

Essa enorme mudança de poder lançou as bases para Trump. Em 1964, quase dois terços dos norte-americanos acreditavam que o governo era dirigido para o benefício de todas as pessoas. Em 2013, quase 80% acreditavam que o governo era dirigido por alguns poucos grandes interesses.

Grande parte do establishment político deseja atribuir a ascensão de Trump apenas ao racismo. O racismo desempenhou um papel, com certeza, mas a história sórdida do racismo na política norte-americana é muito anterior a Trump.

O que deu ao racismo de Trump - assim como sua odiosa xenofobia e misoginia - virulência particular foi sua capacidade de canalizar a raiva cada vez maior da classe trabalhadora branca. Não é a primeira vez que um demagogo usa bodes expiatórios para desviar a atenção do público das verdadeiras causas de seu sofrimento.

Trump fala a linguagem do populismo autoritário, mas age no interesse da oligarquia emergente da América. Seu trato com os interesses dos endinheirados foi simples: ele alimentaria a divisão para que os norte-americanos não vissem como a oligarquia assumiu as rédeas, distorceu o governo em seu benefício e desviou as recompensas econômicas.

Ele deixaria os norte-americanos com tanta raiva uns dos outros que não prestariam atenção aos CEOs recebendo salários exorbitantes, enquanto cortavam o salário dos trabalhadores médios; não notariam o corte gigantesco de impostos que foi para as grandes corporações e para os ricos; e não ficariam indignados com a cultura dos conselhos de administração que tolera conflitos de interesses financeiros, informações privilegiadas e o suborno total de funcionários públicos por meio de doações ilimitadas para campanha.

Dessa forma, os interesses pecuniários podem manipular o sistema enquanto Trump reclama que o sistema é manipulado por um "estado profundo".

Apesar de tudo isso, a falha indesculpável de Trump em conter o coronavírus está tendo um impacto maior sobre os eleitores indecisos do que a divisão que ele fomenta. A morte tem um jeito de fazer a mente se concentrar.

Mas se Joe Biden for eleito, seria bom se lembrar das forças que Trump explorou para ganhar o poder e começar a tarefa de remediá-las. A solução não está na mera redistribuição de renda. É encontrada na redistribuição de poder.

Se a riqueza continuar a se concentrar no topo, ninguém será capaz de conter a influência corruptora do dinheiro grosso no sistema norte-americano e a raiva que ele desencadeia. Como o juiz Louis D Brandeis disse uma vez: “Podemos ter democracia neste país ou podemos ter uma grande riqueza concentrada nas mãos de poucos, mas não podemos ter os dois”.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli



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