Pelo Mundo

Do 'venceremos' ao 'vem, seremos'

Talvez seja necessário reformar o 'Venceremos', de Allende, por um 'Vem, seremos'; que é um chamado a não ficar por baixo, a não deixar de pensar a vida.

30/03/2014 00:00

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Créditos da foto: Arquivo


“Venceremos”, disse Allende. E venceu com um programa político repleto de mudanças sociais. Mas as novidades não agradam a história, de forma que, rapidamente, as forças armadas colocaram a realidade de volta em seu devido lugar: veio, como cai a noite, o Golpe de Estado. Pinochet se transformou no primus inter pares, o primeiro entre seus pares. Passaram-se os anos.

Freedman, nos Estados Unidos, precisava de um país para uma misteriosa experiência. Pinochet, no Chile, tinha um país a oferecer. E o aperto de mãos inaugurou no Chile o laboratório do capitalismo mais fundamentalista do mundo.

Em 11 de setembro de 1980, Pinochet disse: “De cada sete chilenos, um terá automóvel; de cada cinco, um terá televisão e, de cada sete, um terá um telefone”. Essa, basicamente, foi a aposta política, a aposta baseada em um discurso econômico em que o caminho para a felicidade seria trilhado pela acumulação de bens. Por aí nasceu este que vos escreve, em 83, para ser mais preciso.

Passaram-se os anos e todas as ditaduras da América Latina caíram.

Como as novidades não agradam a história chilena, tampouco o fato de ser original, aqui a ditadura também caiu. O “NO” ganhou; com aquela vitória, o laboratório mudou de donos, mas continuou funcionando. A Concertación tirou as guitarras do armário e cantarolou no calor do mercado oferecido e imposto por Pinochet. Como descreveu uma criança em uma carta: “vejo que saem barcos cheios de troncos para entrarem barcos cheios de automóveis”.

Da “esquerda” para a direita, no calor do mesmo discurso, as forças políticas se acomodaram. E assim o modelo político nos fez acreditar que os bens eram sinônimo de felicidade. A televisão impôs essa confusão. Então, o poder vestiu todos os seus trajes e nos convenceu de sua aposta: uma educação individualista, separada pela capacidade de pagamento, com propagandas que bombardearam nossas cabeças com promessas absurdas, com o mercado, totalmente desregulado, que reduziu a condição humana à acumulação de bens, ao individualismo e à competitividade.

Sobre esses pilares, foram criados os hábitos mentais da sociedade chilena.

E nós (não falo somente por mim), que apenas vivemos alguns anos na ditadura, filhos e vítimas de uma das piores tragédias políticas do país, sem percebermos, traçamos metas e objetivos que outros estabeleceram. Devemos, definitivamente, nos acomodar a promessas inauguradas com bombardeios de Hawker Hunter sobre o Palácio La Moneda.

Atualmente, vemos que a aposta foi, para dizer sutilmente, insuficiente: o Chile é o país com maior índice de desconfiança entre seus cidadãos de toda a América Latina, o terceiro país do mundo com maior quantidade de presos para cada mil habitantes. Espalha-se aquilo que já é uma epidemia de transtornos psicológicos: depressão, estresse, crise de pânico, obesidade, enfim, múltiplas derivações de um vazio interior que é preenchido com coisas, comprimidos ou comida. O que falar de aposentadorias miseráveis, da saúde e da educação transformadas em mercadoria? Ou do modelo de desenvolvimento baseado em detonar pedras, absorver até o último peixe do mar e derrubar e derrubar árvores? Estamos carcomendo as entranhas do país com problemas ambientais terríveis. Olhamos sobre o ombro dos demais países do continente e nossa arrogância se sustenta pela riqueza de um metal apenas: sim, apenas um.

E sim, temos mais carros, casas maiores, mais roupa para escolher, mais diversidade de comida, mais esperança de vida, inclusive mais direitos. Mas somos mais felizes? ... Não somos.

O que aconteceu? A fórmula não funcionou? Ou será que tudo tem seus custos? Pessoalmente, acredito que essa aposta pelo materialismo simples não funciona; a vida é outra coisa.

Já se passaram vários anos desde a imposição daquele discurso. Hoje, passamos da transição política à transição social. E essa transição exige circular o coração do discurso: o mercado.

Em todos os tempos e lugares do mundo, o mercado sempre funcionou sob considerações éticas: os mercados eram lugares de reunião, onde as pessoas comprovam coisas, falavam com as pessoas,  respirando o cheiro de frutas e de antiguidades. Era mais um âmbito da sociedade. Mas neste laboratório a ordem se inverteu: o mercado tomou posição sobre todas as nossas relações humanas. Hoje, é a sociedade que, a cotoveladas e empurrões, deve se adaptar ao mercado: as ruas foram tomadas pelo mercado, a saúde, a educação, as telecomunicações, a energia, a água, a terra, a velhice, os alimentos, a morte, as sementes... tudo se transforma em mercadoria!

Nesse ritmo avassalador, nessa corrente apocalíptica, o mercado, claro, também se atrelou às consciências, nos convidando a competir para satisfazer necessidades inventadas, nos fazendo confundir valores com benefício e nos transformando em seres desconfiados e receosos. E assim, sensações tão íntimas como a felicidade hoje são consideradas como uma finalidade: será feliz quando pagar a casa, quando terminar de pagar a última parcela de seja lá o que for, ou quando tiver dinheiro suficiente para se considerar melhor do que o resto. E é assim. Entretanto, o quê?… Toda atividade se realiza com a finalidade de adquirir coisas, o que é um insulto e também um reducionismo à condição humana, que está destinada a finalidades maiores do que a mera acumulação de bens.

Outra armadilha do discurso: convidar a acumular e acumular coisa para se despreocupar da política (entendida como o lugar em que discutimos as grandes ideias para conviver em sociedade) por medo de ficar para trás. Então me pergunto: são essas as finalidades da vida? Suspeito, para dizer o mínimo.

Porque estamos aqui, respirando a vida, aproveitando este presente que não escolhemos para sermos felizes, para buscar a melhor versão de si próprio e depois compartilhá-la com o mundo para sentir a máxima expressão da alma humana: o amor. Mas senti-lo sem as incômodas grades das dívidas, das doenças impagáveis, do turbilhão de notícias, da educação, da saúde e da energia mais cara do mundo em relação à renda, e o tempo corre contra, nunca a favor.
 
Definitivamente, estamos prestes a ser quem queremos ser. E não nos transformamos naquilo que o poder quer que sejamos e naquilo que fomos durante bastante tempo. Muitas vezes esquecemos por que estamos aqui e isso acontece por uma simples razão: nossa liberdade de pensamento é condicionada pela pressão de um discurso político. Por esses micropoderes, que Foucault descrevia.

E se não temos liberdade de pensar o que queremos pensar, dificilmente poderemos visualizar as verdadeiras finalidades da vida.

Alberto Mayol, em seu livro "El Derrumbe del Modelo" (A Queda do Modelo), conta como Marcelo Bielsa viveu o terremoto de 2010: ele estava em Juan Pinto Duran quando a terra começou a tremer. Bielsa, talvez de forma inconsciente, se aproximou de uma televisão para evitar que caísse no chão. E sim, Bielsa salvou a televisão. Quando o terremoto parou, Bielsa pensou no absurdo de sua reação.
 
Então chegou a uma conclusão que já não é novidade para nós: "Bielsa disse que esta sociedade nos ensina a desejar as televisões, a amá-las, a considerá-las valiosíssimas. A fantasia que ele viveu naquele instante foi resultado da sociedade em que vivemos: desejos de ter o que é desejável, desejo ter o que tenho e o que eu não tenho".

Está aí uma das maiores armadilhas que nos foi colocada na cabeça: desejar coisas como uma finalidade em si, e não como um meio para, por exemplo, se entreter, se comunicar ou passar o tempo. Ter por ter, ou para aparamentar – a mesma coisa para efeito de discurso. Não digo nada de novo, é verdade, o que digo é que, em algum momento, devemos tirar a cabeça do fundo da caverna e deixar de olhar as chamas cativantes impostas em tempos de fogueira obrigatória.

Somente quando estivermos bem situados em nós mesmos, livres de um polvoroso discurso, poderemos querer parar de salvar televisores para nos preocupar com algo um pouquinho mais importante: nossas vidas.

Atualmente, a missão da política é abrir as janelas desse discurso. Hans Kelsen, um dos maiores juristas do século passado, disse: "A busca pela justiça é a eterna busca pela felicidade humana. É uma finalidade que o homem não pode encontrar por si só. A justiça é a felicidade social, garantida por uma ordem social. A felicidade política é uma condição imprescindível para a felicidade pessoal. Temos que realizar nossos projetos mais íntimos, como o de ser feliz, integrados em projetos compartilhados, como o da justiça".

Podemos ser felizes em uma sociedade que, como disse Luther King, prioriza as coisas em detrimentos aos seres humanos? Difícil.

Como eu dizia: é missão da política assegurar o entorno necessário para que cada um possa, pelo menos, tentar alcançar seus próprios fins. Por que a política? A repartição de cargos em que um covarde trata uma mulher como "putinha"? Isso é a política? Não: esse é o lixo da política. E é um crime abandonar este espaço para que seja ocupado por pessoas desse tipo. Deixar de fazer política, outra armadilha do poder, é deixar de pensar os costumes da forma como nos organizamos. José Carlos Mariátegui tem razão: a política é a própria trama da história. E a história dota os homens e os ilumina com uma crença superior, com uma esperança sobre-humana; o restante constitui o coro anônimo da narrativa".

É tempo de abandonar o coro anônimo e de recuperar o espaço da política para reconstruí-la sobre novos pilares. E isto deve vir de baixo, mas também da academia. Até quando, eu me pergunto, se ensinará nas faculdades de Ciência Política que Maquiavel é o pai desta disciplina? Sim, Maquiavel, o mesmo que convidava a separar política da ética. Quantos levaram isso a sério? Por que não podia ser alguém como Gandhi o pai da Ciência Política? Homem que, em sua filosofia, adotou o conceito de Sarvodaya (o bem universal ou o progresso de todos), que implica, basicamente, que o bem do indivíduo é inseparável do bem comum. Será o momento de matar este pai kafkiano? Até quando se ensinará a mera formação e administração dos Estados modernos, como se fossem inamovíveis, estruturas feitas de aço, e não daquilo que realmente os forma e transforma: seres humanos. Não será tempo de a política deixar de ser a arte do possível para se transformar na arte do impossível?

Insisto: esta é a hora de recuperar este espaço. Neste contexto, o movimento estudantil deixou uma lição importante: a partir de uma doença em uma parte do corpo, despe-se o restante. A exigência do "Não ao lucro" na educação deu origem a uma possível reforma tributária e a uma mudança na Constituição.

Não será fácil recuperar esse espaço. E talvez seja necessário reformular aquele "Venceremos", de Allende, por um "Vem, seremos"; que é um chamado a não ficar por baixo, a não deixar de pensar como vamos conviver (viver-com). Enfim, a ser. E assim sendo, construir um discurso em que a acumulação de bens não seja a medida de todas as coisas, em que cada um possa definir suas próprias finalidades na vida, em que trabalhe para viver e não viva para trabalhar, em que o direito à vida seja mais importante que o direito à propriedade privada, em que as pessoas, fartas do discurso da publicidade, deixem de se endividar para comprar e comprar coisas, pois a única coisa que deixam são dívidas, que geram novas dívidas para pagar as dívidas anteriores. Um modelo que controle os números da economia, que já escaparam do laboratório há um tempo, destinados a seu verdadeiro fim: a felicidade humana. Um modelo que, definitivamente convide a ser, e não a parecer.


Tradução: Daniella Cambaúva

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