Pelo Mundo

Domingo eleitoral no Uruguai, na Argentina e na Colômbia, em uma região incendiada

 

21/10/2019 11:44

 

 
No próximo domingo, dia 27 de outubro, Argentina e Uruguai terão eleições para escolher novo presidente e legisladores, enquanto na Colômbia votará em novas autoridades dos 32 departamentos do país, dos 1122 municípios e do Distrito Capital de Bogotá.
 
Os argentinos votam para acabar com o governo de direita de Mauricio Macri, os uruguaios decidirão se o governo de centro-esquerda da Frente Ampla continuará, e os colombianos vão às urnas em um país onde líderes populares são mortos diariamente. Neste domingo (20/10), as eleições presidenciais foram realizadas na Bolívia.
 
Três eleições diferentes em uma região abalada pela crescente resistência popular às medidas neoliberais em vários países, incluindo uma revolta no Equador, a dissolução do Congresso no Peru com o grito de “fora todos” e uma violenta repressão dos estudantes no Chile, o que levou a um Estado de exceção, com toque de recolher e tudo.
 
Argentina vota pelo retorno do progressismo
 
No domingo, 27 de outubro, a Argentina vota para presidente e vice, 130 deputados, 24 senadores e governadores de várias províncias. Todos, incluindo as pesquisas, concordam que a fórmula Alberto Fernández-Cristina Fernández de Kirchner obterá uma ampla vitória, e uma das principais causas é o aumento explosivo da miséria durante o governo neoliberal do atual presidente Mauricio Macri.
 
A definição eleitoral, no entanto, será seguira de 31 dias úteis de transição, até o dia 10 de dezembro, quando acontecerá a posse do presidente eleito. As pessoas acham que sua decisão expressa nas eleições primárias de agosto estava sujeita às estruturas legais de uma instituição que retirou a vontade soberana do povo, que exigia que eles fossem embora já naquele então.
 
Não é a mesma coisa um Macri saindo do poder após aquela derrota em agosto, e outro que vai sair só no dia 10 de dezembro. As primárias e a esperança de um novo governo progressista são os elementos que contém um surto social semelhante ao que outros governos neoliberais da região já estão sofrendo.
 
Macri é um presidente desvalorizado, assim como o peso argentino, a moeda que ele desvalorizou. A crise piorou desde a crise cambiária de abril de 2018, e eclodiu com as eleições primárias, após a vitória da oposição.
 
O país tem 21 meses consecutivos de queda no consumo. A pobreza atinge quase 40% da população, 16 milhões de pessoas são pobres no país que é um dos grandes celeiros do mundo. Uma em cada duas crianças vive na pobreza, graças às políticas neoliberais. Além disso, 64% da população que consideram a gestão macrista como negativa.
 
Dois grandes flagelos são projetados como riscos que ameaçam o futuro governo: aumento da miséria e da dívida externa, particularmente a mais recente, adquirida por Mauricio Macri junto com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
 
A perda da autoridade política por parte de Macri fez com que a nova diretora administrativa do FMI, Kristalina Georgieva, se recusasse a negociar com a Argentina até que o resultado das eleições fosse conhecido. Traduzindo: ela disse que Macri não tem autoridade para assinar nada.
 
Até o final deste ano, a dívida externa superará os 90% do Produto Interno Bruto, que será reduzido em pelo menos 4%. É calculada uma queda na capacidade de compra de salários em 20% e uma taxa de desemprego acima de 12%. Se a coalizão opositora Frente de Todos vencer no primeiro turno, tudo indica que será necessária uma renegociação da significativa dívida de 57 bilhões de dólares, com os quais o FMI tentou, sem sucesso, sustentar o atual governo.
 
A fuga de capitais nos quase quatro anos do atual governo ultrapassará 72 bilhões de dólares, através de vários mecanismos que beneficiaram, em particular, o setor financeiro nacional concentrado e, especialmente, o transnacional.
 
Antes de partir, Macri tenta alcançar pelo menos um número de legisladores que permita que sua corrente permaneça como uma alternativa de oposição; ordenar e limpar as “sujeiras” deixados pelo governo e garantir uma justiça amistosa através de uma tempestade de nomeações de juízes e promotores nesta reta final do seu mau governo. Nem ele acredita que seu esforço final de campanha possa reverter os resultados, e tampouco que a armadura da mídia o salvará.
 
O problema adicional de ter um presidente que não governa é que a crise econômica não termina quando as eleições passarem. Até o dia em que terá que entregar o poder ainda haverá que lidar com uma cria econômica que não para de devorar empresas, empregos, reservas, salários e aposentadorias.
 
No Uruguai, a oposição sonha com uma coalizão de direita no segundo turno
 
Em 27 de outubro, os uruguaios devem eleger seu novo presidente e membros do parlamento. No caso da eleição presidencial, a disputa se mostra imprevisível, já que nenhum dos candidatos conseguirá mais de 50% dos votos, e o país terá que esperar para decidir o novo mandatário apenas no dia 24 de novembro.
 
Se a coalizão de centro-esquerda Frente Ampla conseguir cifras parecidas com as de 1999, com cerca de 40% dos votos, terá uma disputa decisiva com a direita muito mais complicada de se vencer, já que o Partido Nacional, principal oponente, anunciou sua intenção de formar um acordo ou aliança entre os demais partidos de direita.
 
Os 2,7 milhões de uruguaios convocados para a votação, e que têm o dever constitucional de votar, não têm nenhuma certeza. As pesquisas refletem uma profunda divisão entre a centro-esquerda, representada pela Frente Amplio de Tabaré Vázquez e Pepe Mujica, que seria apoiada por 40% da população; e uma direita fragmentado em diferentes partidos, que somados alcançariam cerca de 50% dos votos.
 
No domingo 27, a esquerda uruguaia colocará em jogo a hegemonia consolidada, pela primeira vez em anos. A campanha da Frente Ampla concentrou-se nas realizações dos últimos 15 anos, nas quais o país viu sua economia crescer, reduziu o desemprego e as taxas de pobreza e indigência a mínimos históricos. Além disso, consolidou uma série de direitos trabalhistas e sociais, como casamento igualitário, a legalização do aborto e a chamada Lei Trans.
 
No entanto, seu candidato, Daniel Martínez, ignorou em seu discurso o balanço dos últimos cinco anos, em que houve um atraso no crescimento econômico e um aumento no déficit fiscal, a multiplicação da violência e do tráfico de drogas, e uma crescente percepção de fragilidade no emprego.
 
Por outro lado, vem surgindo uma direita, que não conseguiu construir uma esperança que estimule a opinião pública, já que possui, segundo as pesquisas, um forte apoio eleitoral, mas está dividida entre os diferentes partidos. A direita, além de apresentar propostas sólidas para um “projeto de país diferente”, concentrou-se em capitalizar o desencanto da população pelo último governo de Vázquez, e vender a ideia de que a mudança de governo seria a única solução.
 
O principal desafio da direita será unir as forças necessárias para governar, algo mais complicado do que parece, devido às diferenças substanciais entre os partidos e a competitividade dos seus líderes. Luis Lacalle Pou, o principal candidato da oposição, anunciou uma coalizão com o Partido Colorado, o Cabildo Aberto, o Partido Independente e o Partido da Gente, para um eventual segundo turno que, além disso, permite a ele uma maioria parlamentar.
 
No início da campanha, os partidos com a maior representação parlamentar concordaram com a intenção de convencer os eleitores “de centro”, mas o fator mais perturbador atualmente é a expressão eleitoral da direita. É verdade que o crescimento da oposição se deve, em grande parte, ao aumento dos votos da direita, mas também é correto dizer que não se pode chegar ao governo com um discurso abertamente da direita.
 
Assim como a Frente Amplio confiou em que não havia espaço “à sua esquerda” para o crescimento significativo de outra força política, os partidos Nacional e Colorado estavam confiantes de que não teriam concorrência relevante “à sua direita”. Hoje, no entanto, esses grupos existem, devido ao crescimento do general Guido Manini Ríos e de sua legenda de extrema-direita Cabildo Aberto.
 
O legado de 15 anos de governos de centro-esquerda marcou o país que deve decidir entre continuar a aposta ou mudar de rumo e dar uma oportunidade às promessas de mudança, com a chegada da direita à Presidência.
 
Colômbia: eleições regionais em meio a onda de violência
 
Nas eleições regionais de 27 de outubro, os colombianos elegerão mais de 12 mil funcionários públicos nos 32 departamentos do país, nos 1122 municípios e na capital de Bogotá, em um ambiente de violência política que já acabou com a vida de sete candidatos.
 
A Promotoria do Povo disse que há risco eleitoral em 418 municípios do país, principalmente com a presença de grupos armados, paramilitares e traficantes de drogas.
 
As eleições regionais definirão o curso que a pacificação seguirá: serão as primeiras desse gênero após a assinatura dos acordos entre o Governo e a guerrilha das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Embora exista hoje uma disputa sobre o controle nos territórios anteriormente dominados pelas FARC, espera-se que os votos regionais nesses municípios possam definir autoridades civis que possam superar, como governo, o problema da violência.
 
Nesses territórios, foram registrados mais de 60% do assassinato dos líderes sociais, ex-combatentes das FARC e líderes camponeses comprometidos com os programas de substituição de cultivos ilícitos. Esses atores armados ilegais procuram estabelecer suas regras de jogo nas eleições dos prefeitos e conselhos municipais.
 
Esta campanha instala uma pergunta sobre os partidos e sua ascendência sobre as pessoas. As estruturas tradicionais perdem terreno e os eleitores não se declaram especialmente relacionados a nenhum movimento específico. Os colombianos procuram resolver um problema que os atormenta: a insegurança. Essa é a principal dor de cabeça que deve ser resolvida por aqueles que forem eleitos esta semana.
 
Os riscos associados à fraude eleitoral persistem, devido aos problemas de um sistema eleitoral arcaico, que incluem compra de votos, manipulação dos eleitores e outros.
 
A divisão das forças progressistas coloca em risco o avanço das forças democráticas. O exemplo mais visível é o das eleições para a Prefeitura de Bogotá, onde há um empate técnico entre o direitista Carlos Fernando Galán e a centrista Claudia López, que perdeu cerca de 10 pontos para o candidato Hollman Morris, apoiado pelo ex-presidenciável Gustavo Petro.
 
Para os analistas, o triunfo da centro-esquerda na capital seria muito importante, como contrapeso ao governo da extrema-direita representado no atual presidente Iván Duque.
 
 
 
Rubén Armendáriz é jornalista e cientista político associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
 
*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli

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