Pelo Mundo

Donald Trump unificou os EUA - contra ele mesmo

O ataque do presidente à decência criou uma coalizão, além das fronteiras de raça, classe e política partidária

22/07/2020 11:46

Manifestantes do lado de fora do Trump National Golf Club em Sterling, Virgínia, no sábado. (Michael Reynolds/EPA)

Créditos da foto: Manifestantes do lado de fora do Trump National Golf Club em Sterling, Virgínia, no sábado. (Michael Reynolds/EPA)

 
Donald Trump está quase conquistando o que nenhum outro presidente estadunidense conquistou – uma coalizão política verdadeiramente multiracial, multiclasse, bipartidária tão abrangente que poderia realinhar a política dos EUA pelos próximos anos.

Infelizmente para Trump essa coalizão surgiu para evitar que ele conquiste outro mandato.

Comecemos pela raça. Ao invés de incitar sua base, a hostilidade de Trump para com os manifestantes indignados com o assassinato de George Floyd e com o racismo sistêmico levou milhões de estadunidenses brancos a se aproximarem dos afro-americanos. Mais da metade dos brancos agora diz que concorda com as ideias expressadas pelo movimento BLM, e mais brancos apoiam os protestos contra a violência policial. Até certo grau, os próprios protestos têm sido birraciais.

Como disse o grande herói dos direitos civis que morreu recentemente, John Lewis, no mês passado, próximo ao local onde Trump e o advogado geral William Barr, posicionaram a polícia federal com equipamento antimotim empunhando gás lacrimogêneo contra manifestantes pacíficos, “Sr. Presidente, o povo estadunidense... tem o direito de protestar. Você não pode parar o povo com todas as forças que você pode ter ao seu comando”.

Até mesmo muitos ex-eleitores de Trump estão indignados com o racismo e a sordidez moral de Trump. De acordo com uma pesquisa recente do New York Times e do Sienna College, mais de 80% das pessoas que votaram nele em 2016, mas que não irão apoiá-lo novamente em 2020 pensam que “ele não se comporta da maneira que um presidente deve agir” – uma opinião compartilhada por 75% dos eleitores registrados em estados decisivos que farão a diferença em novembro”.

Um segundo grande unificador tem sido os ataques de Trump ao nosso sistema de governo. Os estadunidenses não gostam ou confiam no governo, mas quase todos sentem algum tipo de lealdade à constituição e ao princípio de que ninguém está acima da lei.

A politização de Trump do departamento de justiça, ataques ao estado de direito, pedidos para outras nações para descobrir fofocas sobre outros políticos, e o evidente amor por ditadores – especialmente Vladimir Putin – exerceram um papel ruim entre os conservadores mais inflexíveis.

Refugiados do Partido Republicano pré-Trump junto com os Republicanos “Trump Nunca” que o rejeitaram desde o início estão se unindo a grupos como o Eleitores Republicanos Contra Trump, Republicanos pelo Estado de Direito, o Projeto Lincoln e o 43 Alunos por Biden, que agrupa ex-agentes da administração George W Bush (o 43º presidente). O Projeto Lincoln produziu dúzias de anúncios anti-Trump, muitos que aparecem na Fox News.

O terceiro grande unificador tem sido a catastrófica falta de gerenciamento da pandemia. Muitos que podem ter esquecido os defeitos de personalidade e impulsos autoritários de Trump não conseguem tolerar a crise de saúde pública que ameaça as vidas das pessoas que ama.

Em uma pesquisa divulgada na semana passada, 62% disseram que Trump estava “prejudicando ao invés de ajudar” o combate à covid-19. Um total de 78% daqueles que o apoiaram em 2016, mas que não votarão nele novamente desaprovam o jeito como ele está lidando com a pandemia. Eleitores em estados como o Texas, Flórida e Arizona – que agora sente o impacto do vírus – estão dizendo para os pesquisadores que não votarão em Trump.

Embora as razões por trás das participações na coalizão anti-Trump tenham pouco a ver com Joe Biden, o provável adversário de Trump, o Democrata ainda pode se tornar um presidente transformador. Mais porque Trump preparou os EUA para a transformação e menos por causa das habilidades inerentes de Biden.

A analogia tentadora é com a eleição de 1932, em meio a uma outra série de crises. O povo mal conhecia Franklin D Roosevelt, a quem os críticos chamavam de aristocrata sem uma teoria coerente sobre como pôr fim à Grande Depressão. Mais depois de quatro anos de Herbert Hoover, os EUA estavam tão desesperados por uma liderança coerente que estavam dispostos a apoiar FDR e segui-lo onde fosse.

Ainda temos mais de 100 dias até a eleição, e muitas coisas poderiam descarrilhar a emergente coalizão anti-Trump: proibições de votação durante a pandemia, invasões hackers estrangeiras nas máquinas eleitorais, esforços Republicanos para suprimir votos, burocracias do colégio eleitoral, truques sujos trumpianos e sua provável contestação de qualquer perda eleitoral.

Mesmo agora, a abrangência da coalizão anti-Trump é uma declaração impressionante da capacidade de Donald Trump em inspirar desgosto.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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