Pelo Mundo

EUA: O debate presidencial que não aconteceu

Não houve debate no real sentido da palavra, no qual ambos, alternadamente, estabelecem posições políticas sobre questões como Síria, EI e o Iraque.

27/09/2016 13:24

AP

Créditos da foto: AP


Leitores assíduos saberão que, na minha opinião, a eleição presidencial de 2016 não aconteceu.

Da mesma maneira, o primeiro debate entre os dois candidatos também não aconteceu. Não houve debate no real sentido da palavra, no qual ambos alternadamente estabelecem posições políticas. Um debate sobre política teria envolvido posicionamentos sobre o que fazer na Síria, ou sobre o Estado Islâmico e o Iraque. A secretária Clinton tentou eventualmente mencionar uma política (aparentemente os curdos são centrais em seus planos) mas era interrompida por um Trump que tentava redirecionar os espectadores ao personagem que ele estava encenando.

Ele a interrompeu 26 vezes em 25 minutos. Nos primeiros 20 minutos o moderador Lester Holt, Republicano, estava presente porém distante. Ele deixou Trump interromper Clinton, fazer graça dela, e até tomar o papel punitivo de Holt de fazer as perguntas. Se há uma regra nos debates, é que um debatedor não pode fazer perguntas ao outro.

Trump também costurou sua realidade alternativa. Em seu mundo, ele parou com seu racismo assim que o presidente Obama fez sua certidão de nascimento, e fez ao presidente o favor de fazê-lo publicá-la (algo nunca pedido a um presidente branco).

Isso não é verdade.

Na realidade alternativa de Trump, ele nunca disse que a mudança climática é uma piada promovida pela China. Mas é claro que ele disse isso.

TWITTER: @realDonaldTrump

"O conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses de maneira a tornar a manufatura dos EUA não competitiva."



Em uma peça de ilusionismo, é claro, Trump continua a negar que a mudança climática seja uma questão, mesmo tendo negado que ele negou isso em público na frente de milhões de pessoas. É por isso que o debate não aconteceu de verdade.


Trump também defendeu que cortar os impostos dos ricos pela metade irá produzir crescimento econômico, empregos e diminuir o déficit. Iria, é claro, fazer com que o déficit se inflasse em trilhões e iria reduzir empregos aumentos o coeficiente de Gini.


Mas é claro que Ronald Reagan fez as mesmas promessas, e os Republicanos durante a Grande Depressão disseram a mesma coisa, demonstrando como uma realidade alternativa de falsidade dominou nossas ilusões políticas por décadas antes de Trump tomar controle da máquina.


Trump disse que acabou de ser patrocinado pela Agência de Imigração e Alfândega (ICE), que é uma agência federal e não endossa candidatos. A imprensa teve que ficar vasculhando para confirmar se houve algum patrocínio em alguma maneira conectado com a ICE, de modo a explicar “o que realmente aconteceu”. Mas essa atividade assume que há uma realidade na candidatura de Trump. Não há. Não importa se a ICE o patrocinou. Ele disse que sim e isso é o que importa. A realidade de Trump é tipo as cópias piratas ruins de filmes (filmadas do lado errado ou faltando metade da tela) que são comercializadas em China Town, em Nova Iorque. Nem são cópias do original mas sim algo fingindo ser uma cópia, para enganar turistas por alguns dólares.


Trump novamente afirmou que foi contra a Guerra no Iraque desde o início, o que ele não fez. Os dois melhores momentos de Lester foram quando ele pressionou Trump sobre essa questão e sobre seu racismo.


Trump novamente disse que os EUA deveriam ter tomado o petróleo do Iraque e que isso teria prevenido a ascensão do Daesh (EI, EIL). Mas o Daesh não ascendeu originalmente por causa do dinheiro do petróleo, e é principalmente na Síria que capturou algumas refinarias. O Daesh surgiu para livrar o Iraque da ocupação yankee. Não precisava de muito financiamento. Tinha ex-oficiais do ex-Baath que sabiam onde estavam as pilhas de armamentos de Saddam Hussein. O Daesh ou o EIL não surgiram pois os EUA falharam em roubar o petróleo do Iraque.


Então Trump repetiu que se Obama tivesse deixado 10.000 tropas no Iraque em 2011 e depois, o Daesh não teria surgido. Mas a ocupação militar dos EUA no Iraque foi o que provocou a al-Qaeda na Mesopotâmia, que se tornou o “Estado Islâmico do Iraque”. 10.000 tropas não teriam prevenido esse desenvolvimento se 160.000 não conseguiram, durante a ocupação Bush.


As coisas que Trump disse não têm relação com a realidade. Então o debate não aconteceu de verdade.


Estava mais parecendo uma oportunidade para ele divulgar sua habilidade de promover uma realidade alternativa para seus discípulos.



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