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EUA: distribuição às avessas de US$ 50 trilhões

Estudo mostra que 1% mais rico tirou US$ 50 trilhões dos 90% mais pobres nas últimas décadas
O salário médio do trabalhador estadunidense seria cerca de duas vezes mais alto do que é hoje se os salários mantivessem o ritmo do aumento da produção econômica desde a Segunda Guerra Mundial, revelou uma nova pesquisa

16/09/2020 16:15

Trabalhadores de baixa renda se manifestam e marcham por um salário mínimo de US$ 15 na cidade de Nova York em 10 de novembro de 2015. (Spencer Platt/Getty Images)

Créditos da foto: Trabalhadores de baixa renda se manifestam e marcham por um salário mínimo de US$ 15 na cidade de Nova York em 10 de novembro de 2015. (Spencer Platt/Getty Images)

 

Uma nova pesquisa, publicada na segunda-feira (14), descobriu que a parcela de 1% da população com maior renda nos EUA tirou US$ 50 trilhões dos 90% mais pobres nas últimas décadas, e que o salário médio do trabalhador seria cerca de duas vezes mais alto hoje, do que era em 1945, se os salários tivessem continuado a acompanhar o ritmo de aumento da produção econômica durante esse período.

Os autores do estudo, Carter C. Price e Kathryn Edwards, da RAND Corporation, examinaram a distribuição de renda e o crescimento econômico nos Estados Unidos de 1945 até o presente. Os pesquisadores descobriram diferenças marcantes entre a distribuição de renda de 1945 a 1974 e de 1975 a 2018.

De acordo com o estudo, que foi financiado pelo Fair Work Center, com sede em Seattle, o salário médio de um trabalhador norte-americano em tempo integral é atualmente de cerca de US$ 50.000. Ajustado pela inflação usando o índice de preços ao consumidor, os trabalhadores que recebem a renda média atual, ou abaixo dela, ganham agora menos da metade do que ganhariam se a renda tivesse acompanhado o crescimento econômico. Isso significa que, se os salários tivessem acompanhado a produção econômica, o salário médio do trabalhador estaria entre US$ 92.000 e US$ 102.000 hoje, dependendo de como a inflação é calculada.

Se a distribuição mais equitativa do período de aproximadamente 30 anos do pós-guerra tivesse continuado acelerada, a renda anual total dos 90% mais pobres dos trabalhadores norte-americanos teria sido US$ 2,5 trilhões maior em 2018, ou uma quantia igual a cerca de 12% do PIB. Em outras palavras, a redistribuição para cima da renda enriqueceu o grupo 1% mais rico em cerca de US$ 47 trilhões - o que agora seria mais de US$ 50 trilhões - às custas dos trabalhadores.

David Rolf, um organizador do trabalho de Seattle, presidente do Fair Work Center e fundador da Service Employees International Union (SEIU) Local 775, é mais direto. Ele chama isso de "roubo de US$ 2,5 trilhões".

"Do ponto de vista das pessoas que trabalharam duro e obedeceram às regras, mas estão participando muito menos do crescimento econômico do que há uma geração, quer você chame de 'distribuição reversa' ou de 'roubo', é necessário que isso tenha um nome", Rolf, que ajudou a liderar a luta por um salário mínimo de $ 15 por hora em Seattle e em outros locais, disse à revista Fast Company.

Surpreendentemente, o estudo descobriu que os trabalhadores em todos os níveis de renda estariam em melhor situação hoje se a renda tivesse acompanhado a produção. Trabalhadores em tempo integral, em idade avançada no 25º percentil, por exemplo, estariam ganhando US$ 61.000 em vez de US$ 33.000. Os trabalhadores no 75º percentil, que em 2018 ganharam US$ 81.000, estariam ganhando US$ 126.000. Mesmo os trabalhadores do 90º percentil, que ganham US$ 133.000, estariam ganhando US$ 168.000 com uma distribuição mais equitativa.

Por outro lado, se o bolo econômico tivesse sido dividido de forma mais equitativa, a receita do 1% mais rico cairia de cerca de US$ 1,2 milhão para US$ 549.000, ainda seriam abastados.

"Ficamos chocados com os números", disse Nick Hanauer, um investidor em novas empresas que se descreve como um "zilionário" que, junto com, tiveram a ideia do estudo. "Isso explica quase tudo", disse Hanauer à Fast Company. "Isso explica porque as pessoas estão tão irritadas. Isso explica a precariedade economica."

O senador Bernie Sanders (I-Vt.), que fez da correção da desigualdade econômica um pilar de suas duas candidaturas presidenciais, lamentou a "enorme redistribuição de renda nos Estados Unidos" em um tuíte de segunda-feira.

As descobertas dos pesquisadores, que vêm em meio a uma pandemia mortal de coronavírus / Covid-19, iluminam a injustiça de uma economia - de longe a mais rica da história da civilização - na qual trabalhadores essenciais lutam fortemente, e muitas vezes em vão, para sobreviver enquanto as pessoas mais ricas ficam cada vez mais ricas às suas custas.

De acordo com a organização Americans for Tax Fairness, a riqueza total dos bilionários dos EUA aumentou em US$ 792 bilhões, ou 27%, durante os primeiros cinco meses da pandemia Covid-19. Durante esse período, o CEO da Amazon, Jeff Bezos, a pessoa mais rica do mundo, tornou-se o primeiro multicentibilionário do mundo, com um patrimônio líquido que agora ultrapassa US$ 200 bilhões. Enquanto isso, seus funcionários lutam para sobreviver, e os trabalhadores da Amazon que falam contra os salários ruins e as condições de trabalho perigosas durante a pandemia têm sido demitidos e ridicularizados por executivos da empresa.

Em comparação com outras nações mais desenvolvidas, os Estados Unidos fizeram um trabalho relativamente ruim no cuidado de seu povo durante a pandemia. Além de os EUA serem a única nação desenvolvida sem um sistema de saúde universal, seus trabalhadores receberam menos em pagamentos diretos e apoio governamental do que pessoas em muitos países comparáveis.

A lacuna entre as famílias mais ricas e mais pobres dos EUA é agora a maior dos últimos 50 anos, de acordo com os dados mais recentes disponíveis do US Census Bureau. A pandemia apenas exacerbou a situação, na medida em que cerca de metade das famílias norte-americanas de baixa renda relataram a perda de emprego ou salário devido à Covid-19.

Internacionalmente, os Estados Unidos são o 39º país mais desigual em renda, entre 150 nações, de acordo com os dados do coeficiente de Gini compilados pela CIA, colocando-os quase no mesmo nível de nações como Peru e Camarões. Entre as 40 nações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os Estados Unidos têm o sétimo maior nível de desigualdade de renda.

Os EUA têm a maior taxa de pobreza entre as nações mais desenvolvidas do mundo e a quarta maior taxa de pobreza entre as nações da OCDE, depois da África do Sul, Costa Rica e Romênia. De acordo com a UNICEF, os EUA também têm a segunda maior taxa de pobreza infantil no mundo desenvolvido, atrás da Romênia, com mais de uma em cada cinco crianças norte-americanas - e mais de uma em cada quatro crianças latinas e quase uma em cada três crianças negras e indígenas norte-americanas - vivendo na pobreza.

Este ano, mais de 54 milhões de norte-americanos, ou cerca de um em cada seis pessoas - incluindo 18 milhões de crianças - podem sofrer de insegurança alimentar, de acordo com o grupo sem fins lucrativos Feeding America.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de César Locatelli

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