Pelo Mundo

EUA: ganhe quem ganhar, a supremacia branca já venceu

Os Estados Unidos mostraram uma fidelidade ao supremacismo branco que não podemos desconsiderar, independentemente do resultado final da eleição

04/11/2020 13:13

O presidente dos EUA, Donald Trump, fala na noite da eleição na Sala Leste da Casa Branca nas primeiras horas da manhã de 4 de novembro de 2020 em Washington, DC. Trump falou pouco depois das 2 da manhã com a corrida presidencial contra o candidato democrata Joe Biden ainda muito apertada para se definir o vencedor. (Chip Somodevilla / Getty Images)

Créditos da foto: O presidente dos EUA, Donald Trump, fala na noite da eleição na Sala Leste da Casa Branca nas primeiras horas da manhã de 4 de novembro de 2020 em Washington, DC. Trump falou pouco depois das 2 da manhã com a corrida presidencial contra o candidato democrata Joe Biden ainda muito apertada para se definir o vencedor. (Chip Somodevilla / Getty Images)

 

No momento em que este artigo foi escrito, o resultado da eleição presidencial de 2020 ainda não estava decidido. Joe Biden batia Donald Trump por 238–213, de acordo com os relatórios da Associated Press, no Colégio Eleitoral. Os principais estados em disputa, Michigan, Pensilvânia, Wisconsin e Geórgia, não terminarão de contar todas as cédulas até talvez até sexta-feira desta semana. Pensilvânia pode demorar ainda mais. A campanha de Biden continua otimista de que esses votos pendentes serão suficientes para garantir a vitória.

Por ser um autoritário norte-americano neofascista, Donald Trump anunciou preventivamente e falsamente na noite de terça-feira que venceu, e que todas as cédulas ainda não contadas nos estados onde ele está perdendo devem ser desqualificadas. Trump também disse que iria ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos para impedir que os votos fossem contados após o dia das eleições.

Os advogados republicanos e outros especialistas de direita em cometer manipulação de votos, supressão de eleitores e fraude eleitoral agora darão o próximo passo em sua trama para manter Donald Trump no poder.

A eleição presidencial de 2020 será possivelmente decidida pela Suprema Corte, onde os juízes escolhidos a dedo por Donald Trump cumprirão sus parte no toma lá dá cá e lhe darão a presidência, ao contrário da vontade do povo norte-americano.

O que realmente se sabe com grande certeza sobre a eleição presidencial de 2020 é que a supremacia branca e o racismo foram reafirmados e não repudiados.

Apesar de centenas de milhares de pessoas mortas nos Estados Unidos devido ao coronavírus e à sabotagem de Trump aos esforços de ajuda humanitária, junto com sua crueldade, violência, dezenas de milhares de mentiras, comportamento traiçoeiro e destruição da economia do país; apesar dos muitos milhares de migrantes pardos e negros e refugiados mantidos em seus campos de concentração e outros centros de detenção; apesar de sua vasta corrupção, transgressão da lei, racismo, supremacismo branco e nativismo; apesar de sua destruição do meio ambiente dos Estados Unidos e do mundo, colocando assim em perigo a sobrevivência da raça humana; apesar de ser acusado, crivelmente, de estupro e agressão sexual por dezenas de mulheres; e apesar de sua ignorância, estupidez e maldade geral, Donald Trump continua notavelmente popular nos Estados Unidos.

Além disso, Donald Trump tem a maior base de apoio da história das eleições modernas nos Estados Unidos. Os membros de seu culto político e outros seguidores amam Donald Trump precisamente por causa de como ele é horrível, e não apesar disso. É uma forma de sadismo político. O trumpismo e a versão atual da política de direita nos Estados Unidos são uma forma de religião política que liga seus seguidores ao Grande Líder e ao movimento de uma forma profundamente existencial.

Mais pessoas votaram em Donald Trump até agora do que em 2016.

O que também se sabe sobre Donald Trump, a campanha presidencial de 2020 e os resultados até agora é que a popularidade duradoura de Trump e o amor de seus seguidores podem ser amplamente explicados como uma função do racismo e do supremacismo branco; "ressentimento racial"; "antagonismo étnico"; comportamento de dominação social; realidade maligna; patocracia; narcisismo coletivo, "ansiedade" racial existencial branca; a tríade sombria de comportamento sociopata e psicopata; política de identidade branca; e autoritarismo racial, de forma mais geral.

Como os analistas e outros membros da classe dos falastrões e da grande mídia norte-americana estão respondendo ao fato de Donald Trump estar tão perto da vitória sobre Joe Biden em uma corrida presidencial onde a sabedoria convencional previu uma derrota esmagadora para Trump?

Há um choque e um espanto que os modelos de votação e previsão tenham sido, novamente, como em 2016, tão imprecisos.

Há também visíveis transtorno e dor porque o consenso e a sabedoria tradicional entre os chamados observadores políticos "profissionais" se mostraram novamente inadequados para decifrar os eventos da Era de Trump. Em essência, os comentaristas mais influentes e a classe política estão experimentando (ou deveriam) uma crise de legitimidade.

Mas o fio condutor mais comum nas reações online e em outros lugares da grande mídia de notícias ao fato de Donald Trump estar tão perto de assegurar um segundo mandato presidencial é o "choque" e a "surpresa" com o poder do racismo, da crueldade e da intolerância nos Estados Unidos.

Nesse coro de vozes, há até mesmo os "mascates da esperança" que são tão ousados a ponto de realmente elogiar o "espírito democrático" do país por causa do resultado histórico, em vez de condenar quantas dezenas de milhões de norte-americanos brancos votaram com tanto entusiasmo por mais supremacia branca, desigualdade social e injustiça.

Muitos membros da turma de tagarelas e comentaristas têm uma crença profunda e fundamental (e ingênua) na bondade inerente dos Estados Unidos (norte-americanos brancos em particular), que admitir que tal suposição seja incorreta é quase impossível para eles. Por quê? Isso causaria muita dor emocional, psicológica, intelectual e financeira.

A maioria deles também está em profunda desvantagem em sua análise do trumpismo porque a maioria deles se recusou a descrever com precisão Donald Trump como sendo um "fascista" e um "autoritário" ou a invocar a linguagem moral do "mal".

Como tal, essas vozes agora têm pouca ou nenhuma credibilidade quando ou se tentam fazer isso agora.

O historiador Timothy Snyder, autor do livro best-seller "On Tyranny", explicou recentemente ao Salon:

“Mal é uma palavra útil para usar aqui. Tenho usado essa linguagem em meu novo livro ‘Nossa doença’. Há uma hesitação quase tabu em passar para julgamentos verdadeiramente éticos em nossas discussões sobre Trump e seu movimento. Enquanto estivermos evitando discussões sobre o bem e o mal, seu comportamento se tornará normal. Evitar essa linguagem do bem e do mal também deixa o público com a esperança de que esta crise, de alguma forma, volte ao normal.

Há uma dinâmica psicológica em ação aqui também. Se uma pessoa não nomeou o trumpismo como mal antes, então é difícil nomeá-lo como tal mais tarde. Se um comentarista político ou outro observador não viu o perigo de Trump e seu movimento em 2016, então eles provavelmente não estão entendendo corretamente agora, mesmo neste ponto tardio.”

Em suma, afirmar claramente que Donald Trump, seu Partido Republicano e seu movimento estão comprometidos em manter os EUA como um tipo de "espaço branco" é proibido para a maioria dos membros do Quarto Estado.

Ao contrário do que muitos liberais e progressistas gostariam de afirmar, os eleitores brancos da "classe trabalhadora" de Trump não são irracionais. Em vez disso, os eleitores da "classe trabalhadora branca" de Trump fizeram um cálculo diferente sobre o que é mais importante para eles. Aqui, a branquidade e os salários psicológicos que daí advêm (especialmente o direito e privilégio de causar dor e sofrimento aos não-brancos sem arcar com as consequências) são mais importantes para os eleitores brancos de Trump do que sua saúde, sua renda ou mesmo suas vidas.

Enquanto os Estados Unidos e o mundo aguardam os resultados finais da eleição presidencial de 2020, quais são as principais lições que a mídia norte-americana deve aprender de quantas dezenas de milhões de norte-americanos brancos prometeram novamente, como fizeram em 2016, sua lealdade com a branquidade e com a supremacia branca na forma do trumpismo?

Raça e cor são centrais para a sociedade e vida norte-americanas, não periféricas a ela. Ignorar a separação por cor é ignorar a realidade. No final, a realidade quase sempre vence.

Qualquer discussão sobre a política americana que não considere seriamente o contexto de raça e cor é, a priori, inadequada e imprecisa, senão irresponsável e um desserviço público.

As organizações de notícias dos EUA devem incluir mais pessoas não brancas, especialmente aquelas que são treinadas em ciências sociais e humanas. Ao fazer isso, as organizações de notícias estarão melhor equipadas para compreender as realidades e implicações da raça e da divisão por cor nesta sociedade e em todo o mundo.

No momento, a estrutura racial branca e o modo como ela cega muitos membros do Quarto Estado e da classe política de forma mais ampla para a verdade é um passivo extremo, que mina a credibilidade geral da mídia de notícias do país.

A mídia de notícias norte-americana também deveria incluir mais vozes de especialistas verdadeiros sobre questões de política, sociedade, raça e tópicos relacionados, em vez dos generalistas que dominam as notícias a cabo 24 horas por dia, 7 dias por semana.

À medida que os Estados Unidos avançam do dia da eleição de 2020 para o que quer que aconteça a seguir, os membros do grupo de comentaristas que estão em choque, espanto, negação, confusão, dor e experimentando outras emoções sobre o sucesso eleitoral de Donald Trump - quer ele tenha sucesso ou não em suas manobras legais - deveriam aceitar as realidades da separação de cor e raça no país, e então fazer melhor em seu trabalho como supostos "guardiões da democracia".

*Publicado originalmente em 'Salon' | Tradução de César Locatelli

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