Pelo Mundo

Egito: revolução ou golpe?

19/02/2011 00:00

Jim Lobe - IPS

WASHINGTON – Dias depois da impactante saída de Hosni Mubarak do palácio presidencial em Cairo, analistas ainda estão tentando descobrir se sua deposição representa a revolução que precede o nascimento de um governo democrático ou um golpe de estado conduzido pelas forças militares que já vinham dominando o país.

Apesar da euforia na mídia, desde a saída de Mubarak existe um elevado ceticismo entre especialistas no Egito sobre as intenções dos militares.

Jon Alterman, do Centro para Estratégias e Estudos Internacionais, por exemplo, alerta que “a ascensão do Comando Militar” pode resultar em um “gigantesco passo atrás” , enquanto Reuel Marc Gerecht, um ex-funcionário da CIA que agora está com o neoconservadora Fundação para a Defesa das Democracias, prevê que o exército irá “testar o quanto de autocracia (e riqueza) poderá manter em mãos”.

Durante uma conferência de imprensa na Casa Branca, na terça-feira, porém, o presidente dos EUA, Barak Obama, indicou sentir-se encorajado pelos passos tomados até agora pelo Comando Militar, a quem Mubarak cedeu seus poderes.

“Obviamente existe muito trabalho a fazer no Egito, mas o que vimos até agora é positivo”, ele disse, notando que os representantes da oposição que encontraram com dois oficiais na segunda-feira perceberam que o Comando Militar “é sério [no comprometimento] rumo a eleições livres e justas”

“Até agora pelo menos, temos visto os sinais corretos vindo do Egito”, ele agregou.

Mas analistas mais independentes não estão tão certos sobre qual direção os cinco comandantes que compõem o Conselho Militar pretendem levar o país.

“Eu concordo que os militares estão enviando os sinais corretos, mas a certeza só virá com o resultado” , diz James Zogby, um especialista em Oriente Médio que lidera o Instituto Árabe Americano (AAI, pela sigla inglês). “Esse foi um levante que derrubou o presidente; não derrubou o estado, e os militares ainda são o estado.”

Muitos analistas acreditam que os militares estão preparados para fazer concessões, mas irão tentar manter o máximo de poder que puderem.

“Mesmo os mais antigos membros da autoritária guarda ligada a Mubarak sabem que não há retorno e que nada que se pareça com uma democracia de fachada será tolerado”, afirma Wayne White, do Instituto Oriente Médio (MEI, em inglês) e ex-analista do Departamento de Estado dos EUA para o Oriente Médio.

“Porém, ao mesmo tempo, é difícil acreditar que esses militares que estão no comando agora não tenham debatido internamente, nos últimos dias, quanto poder eles estão dispostos a conceder – e talvez manter – em um esforço para conciliar uma completa, funcional e transparente democracia e sua visão de um Egito mais 'ordeiro' e 'estável'”, ele complementou em uma troca de e-mails com a IPS.

Até agora o Conselho – cujo titular é o marechal de campo Mohammed Hussein Tantawi, de longa data leal a Mubarak – lançou uma série de comunicados dissolvendo o parlamento, suspendendo a constituição e se comprometendo a promover eleições dentro de seis meses.

Na terça-feira, reuniu-se um comitê de juristas encarregados de revisar a constituição em 10 dias. As alterações serão submetidas a um referendo popular em dois meses, segundo o Conselho.

Enquanto esses são passos aplaudidos por Obama, o Conselho ainda não cumpriu com uma série de outras demandas das forças de oposição, agora reunidas em uma ampla coalizão chamada Ativistas para a Democracia.

Entre essas demandas estão a abolição imediata da lei marcial em vigor por 30 anos, a libertação de milhares de presos políticos, e a investigação e julgamento de policiais e oficiais de segurança suspeitos das mortes de mais de 300 pessoas durante os 18 dias de manifestações que culminaram com a deposição de Mubarak.

As demandas da coalizão para a inclusão de tecnocratas civis e representantes dos movimentos democráticos no governo de transição também foram ignoradas pelo Conselho.

“Parece que os militares estão interessados no fim da ditadura, mas não estão interessados em ceder o controle sobre o processo”, diz Joel Rubin, vice-diretor da Rede Nacional de Segurança (NSN, em inglês).

“Esse é um ponto fundamental, pois, se eles esperarem demais (para trazer os civis para o processo), é possível que se comece a questionar se ele apenas querem manter o controle do país”, afirmou, sugerindo ainda que a velocidade com a qual se pretende revisar a constituição também é um problema dado a complexidade dos desafios.

Todos concordam que Washington tem um papel importante no processo de transição dada a relação construída entre os militares dos dois países desde a assinatura dos acordos de Camp David, em 1979.

Ainda, os mais experientes militares egípcios, incluindo o general Sami Hafez Anan, que muitos acreditam ser o mais poderoso membro do Conselho, estiveram visitando Washington para consultas anuais com seus pares norte-americanos quando a crise começou em Cairo, em 25 de janeiro.

Nos últimos 30 anos, Washington deu mais de 40 bilhões de dólares em ajuda militar e treinamento, resultando que as forças armadas do Egito se tornaram quase que inteiramente dependente de equipamento norte-americano, em particular nos seus sistemas mais avançados como o caça F-16, os helicópteros Apache e os mísseis antinavio Harpoon.

“Essas relações criam uma proximidade com as forças armadas do Egito que nenhum outro país tem”, de acordo com Charles Dunne, um especialista no Oriente Médio também da MEI, que trabalhou no escritório da embaixada norte-americana em Cairo, há uma década.

Ameaças de influentes congressistas de cortar a ajuda militar anual ao Egito de 1,3 bilhões de dólares, acredita-se, foram apoios importantes aos apelos públicos de Washington – e privados do Pentágono – para que os militares não recorressem à violência ao lidar com as manifestações.

“Esse é o pagamento, no momento exato, de 30 anos de ajuda militar norte-americana ao Egito: os militares egípcios irão relutar colocar em risco essa ajuda vital ao se opor à transição à democracia ou continuar no agarrados ao poder indefinitivamente”, Dunne escreveu na segunda-feira, sugerindo que Washington usará a ajuda para influenciar as decisões dos militares no Egito.

Por outro lado, não está claro que o governo dos EUA esteja descontente com a continuidade do controle militar no processo de transição, particularmente quando tenta acalmar Israel e outros aliados na região – que claramente preferem que os militares sigam tomando as decisões, pelo menos no que diz respeito a políticas de defesa e relações exteriores.

“Eles estão muito satisfeitos que os militares disseram que irão manter o tratado de paz (com Israel). Existem políticas, como em relação a Gaza ou a acordos de cooperação sobre suspeitos de terrorismo, que os militares irão continuar a apoiar e que um governo civil, mais democrático, talvez não apoie”, diz Zogby.

Conteúdo Relacionado