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Eleições Peruanas de 2021: os rios profundos vem à tona

 

10/06/2021 12:23

(Reprodução/O Globo/glo.bo/359vhsd)

Créditos da foto: (Reprodução/O Globo/glo.bo/359vhsd)

 
Um professor de escola rural, mestiço, montado em uma égua e usando um chapéu de palha de abas largas pareceria ser a figura mais insólita para triunfar em eleições presidenciais em qualquer época, ainda mais no início desta segunda década do século XXI. Em tempos de redes sociais, de Big-data, de Duran Barba e Steve Bannon, seria, no máximo, um candidato folclórico, daqueles para arrancar uma risada em um debate eleitoral de baixa audiência e chegar com 1% no primeiro turno. No entanto, é exatamente este personagem, o professor Pedro Castillo Terrones, candidato pelo esquerdista Partido Perú Libre (PPL) quem, ao que tudo indica, acaba de vencer as eleições presidenciais peruanas, vencendo por estreita margem a candidata da extrema-direita, Keiko Fujimori (Fuerza Popular – FP), filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000). Apuradas quase 100% das atas eleitorais, Castillo atinge 50,2% dos votos válidos, contra 49,7% de Fujimori, separados por uma diferença de 71.760 votos.

Sobreviventes de um 1º. Turno, ocorrido no último dia 11 de abril, com 18 candidatos, entre os quais 6 ou 7 tinham chances de chegar ao 2º. Turno, as votações de ambos – cerca de 19 e 13%, respectivamente – mal chegavam a um terço do eleitorado. A um 1º. Turno tão fragmentado, seguiu-se um 2º. Turno agudamente polarizado, com um país quase dividido ao meio, cujo resultado acabou se decidindo no entrechoque de rejeições: o anticomunismo, contra Castillo, e o anti-fujimorismo, contra Keiko. A filha do ex-ditador reuniu trás de si toda a direita política e as elites econômicas e sociais em seu conjunto, as quais puseram em marcha a maquinaria dos meios de comunicação, praticamente em uníssono. Já Castillo arrebanhou o apoio das outras candidaturas da esquerda, notadamente Verónica Mendoza, de Juntos Por El Perú, bem como os sindicatos, as organizações camponesas e o professorado, suas bases mais fiéis.

Diante de tão desigual contenda, em que pese a memória negativa do regime de Alberto Fujimori, condenado a 25 anos por corrupção e crimes de lesa-humanidade, seria de se esperar uma derrota da esquerda na reta final, ainda que por estreita margem. Aliás, no domingo, 6 de junho, à noite, a primeira boca de urna do Instituto IPSUS sugeria exatamente isso, mas, poucas horas depois, uma contagem rápida do mesmo instituto já jogava dúvidas sobre esse final. De fato, Fujimori largou na frente, com a apuração começando por Lima e as grandes cidades do litoral, mas, ao longo da segunda-feira, à medida que o voto rural e andino foi sendo contabilizado, as distancias foram se estreitando até se inverterem, sendo que os votos dos peruanos vivendo no exterior – que favoreciam a candidata direitista -, não foram suficientes para reverter a virada. Sinal disso é que, ainda na segunda à noite, Fujimori começou a falar em fraude eleitoral, ainda que sem apresentar quaisquer provas disso. Praticamente concluída hoje (quarta-feira, 7 de junho) a apuração, restará à sua campanha apelar a justiça eleitoral para impugnar atas, ou validar outras já impugnadas, para reverter judicialmente o resultado das urnas, o que certamente atirará mais combustível a já inflamada situação política do país.

Mas, afinal, como se chegou a isso? Como um candidato que estava completamente fora do radar do stablishment político e dos meios de comunicação, quase sem campanha nas redes sociais, foi capaz de derrubar os índices da bolsa de valores e fazer disparar o dólar, pondo as elites peruanas aos pés de seu cavalo?

Para começar a responder, vale à pena apresentar alguns dados eleitorais reveladores. Keiko venceu em Lima, com cerca de 64%, triunfando assim no maior colégio eleitoral do Peru, que concentra um terço do eleitorado total. Mas, se desagregarmos por bairros ou zonas da cidade, os resultados variam consideravelmente. Se em distritos ricos, como Miraflores, Barranco e San Isidro a proporção era de cerca de 8 votos para Fujimori para cada voto de Castillo, em bairros populares, como Villa El Salvador ou San Juan de Lurigancho, as proporções giraram em torno de 6 para 4.

Pedro Castillo saúda eleitores da sede de seu partido, em Lima, na terça-feira (8)(Sebastian Castaneda/Reuters)


Mas o grande contraste reside mesmo nos departamentos dos Andes, meridionais e centrais, nos quais o professor obteve uma vitória arrasadora: 89% em Puno, 85% em Huancavelica, 83% em Cuzco, 82% em Ayacucho, 80% em Arequipa, só para ficar em alguns exemplos. Foi dessas regiões, rurais, empobrecidas e de maioria indígena que veio o aluvião de votos com os quais Castillo desequilibrou a vantagem que sua rival tinha no eleitorado urbano e litorâneo.

O retrato que sai dessa eleição é o de uma sociedade, ao mesmo tempo, fragmentada e polarizada. Não se trata apenas da contraposição entre dois programas muito distintos de como resolver os agudos problemas econômicos e sociais do país – campeão mundial de mortes na atual pandemia da Covid19 -, mas sim de duas visões opostas do que constitui a própria nação peruana, cristalizadas ao longo de linhas geográficas, étnico-raciais e de classe muito bem definidas. A origem de tal fratura vai muito além da conjuntura da crise atual e mesmo a das três décadas de hegemonia neoliberal, perpassando toda a história bicentenária do Peru independente, remontando mesmo ao período colonial.

Em 1995, o escritor peruano Mario Vargas-Llosa, quem havia sido derrotado, justamente por Alberto Fujimori, nas eleições presidenciais de 1990, publicou um ensaio intitulado La Utopía Arcaica, dedicado a um exame crítico da obra do romancista, etnólogo e ensaísta José María Arguedas (1911-1969), principal expoente da literatura indigenista no Peru do século XX. Nessa obra, Vargas-Llosa não se detém a criticar apenas Arguedas, mas o conjunto do indigenismo peruano, que inclui nomes como o do pensador socialista José Carlos Mariátegui (1894-1930), talvez o principal expoente do marxismo latino-americano. Na visão do autor, como o próprio título deixa entrever, a reivindicação da cultura indígena e andina como autêntico fundamento da nação apelaria a um retorno utópico a um passado arcaico pré-colonial, sendo não apenas regressiva, mas também racista e exclusivista.

Liberal convicto, Vargas-Llosa tinha como horizonte, para o Peru e o conjunto da América Latina, o ideal de “civilização ocidental”, moderna e cosmopolita, contraposta ao “coletivismo” tradicionalista das comunidades autóctones, recuperando e atualizando a divisa “civilización y barbárie” do escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), autor do clássico do liberalismo hispano-americano Facundo – civilización y barbárie en las pampas argentinas (1845). Para o escritor peruano, esse ideal “ocidental” se consubstanciaria em uma economia de livre-mercado, baseada na livre iniciativa, combinada à democracia liberal em sua versão mais elitista. Assim, não é casual que, por ironia do destino, Vargas-Llosa tenha apoiado “ardentemente”, segundo suas próprias palavras, a filha de seu antigo rival, como “mal menor” contra a “ameaça totalitária” representada por Castillo e seus inspiradores castro-chavistas.

A oposição entre a literatura e as posições políticas de Mario Vargas-Llosa e José María Arguedas – algo unilateral, uma vez que se tratam de autores de gerações distintas -, representa bem a contraposição histórica entre um Peru, litorâneo e criollo, e outro, andino e indígena, que vem dominando o imaginário cultural do país no último século. Ainda que certamente reducionista, ao deixar de lado parte importante da diversidade étnico-cultural do país, como os afro-peruanos ou as comunidades de origens asiáticas, das quais os Fujimori fazem parte – a polarização “costa/serra” é, não obstante, bastante eficaz no imaginário coletivo e deita raízes profundas nas condições de vida e na experiência de grande parte da população, o que é expresso de maneira cabal pelos dados eleitorais acima citados.

Ao longo de dois séculos de vida independente Lima e as elites brancas, secundadas pelas classes médias mestiças, tem hegemonizado a vida política e a autoimagem do país. Essa hegemonia já assumiu muitas formas ao longo do tempo e, desde o autogolpe de Fujimori em 1992, abraçou decididamente o ultra-liberalismo econômico como horizonte exclusivo para o país. O resultado é uma sociedade sem direitos sociais e trabalhistas, cuja grande maioria vive do mercado de trabalho informal e que exacerba ao limite suas desigualdades regionais. Não é de se estranhar, portanto, que o país experimente nas últimas duas décadas a combinação sistemática de altas taxas de crescimento econômico e de pobreza, nos marcos de uma economia extrativista mineira que deixa poluição e expropriação nos Andes e afluência e privilégio em meia dúzia de bairros limenhos.

A pandemia só veio a escancarar e agudizar essas fragilidades estruturais, expondo ao morticínio uma população condenada ao trabalho por conta-própria e quase desprovida de saúde pública, fazendo do Peru, como dito de início, o país com o maior número de mortos por Covid por 100 mil habitantes no mundo. A insensibilidade das classes dominantes é tamanha que, em um debate presidencial no 1º. Turno, o economista liberal Hernando de Soto, ex-conselheiro econômico de Alberto Fujimori e candidato contra sua filha em 2021, defendeu abertamente uma “solução de mercado” para o problema da falta de vacinas para os peruanos.

Adicione-se ainda um quadro institucional de crise política permanente – com quatro presidentes entre 2016-2021, sendo três em apenas uma semana de novembro do ano passado -, ensejado por uma elite política notoriamente corrupta que, abraçando um mesmo modelo econômico, disputa entre si o botim do Estado. Aliás, todos os Presidentes do Peru dos últimos 20 anos estão presos, autoexilados ou respondendo a processos por corrupção, sendo que, dentre os 18 candidatos no 1º. Turno, apenas 8 não respondiam a processos, incluindo-se aí justamente Pedro Castillo. Todo esse conjunto de fatores, que já haviam levado as mobilizações multitudinárias de novembro de 2020, acabaram reforçando na população, exausta pela crise econômica e sanitária, um forte sentimento de mudança, com o crescimento da demanda por uma constituinte que viesse a substituir a carta outorgada por Fujimori em 1993.Nesse cenário eleitoral, tão incerto como carregado, as esquerdas peruanas chegaram, para variar, divididas em três ou quatro candidaturas. É preciso dizer que, desde a candidatura de Alfonso Barrantes nas eleições de 1985, que ficou em segundo lugar, atrás de Alan García, as esquerdas não conseguiam apresentar uma candidatura competitiva. Contribuíram para isso, não apenas suas divisões internas, ou o solapamento de sua tradicional base sindical pelas reformas neoliberais dos 90, mas também os efeitos prolongados da guerra interna, iniciada com a insurreição do Sendero Luminoso em 1980, que deixou um saldo de cerca de 70.000 mortos e um forte sentimento anticomunista em grande parte da população.

Não por acaso, os principais estigmas lançados pelo fujimorismo contra Castillo no 2º. Turno foram os de “senderista” ou “terruco” (gíria para terrorista), tentando associá-lo à antiga guerrilha maoísta, o que, de resto, a direita peruana costuma fazer contra qualquer representante da esquerda, por mais moderado que seja. Essa associação é inteiramente falsa, inclusive pelo fato de Castillo pertencer as chamadas “Rondas campesinas”, organizações camponesas de autodefesa que, entre os anos 1980-1990, combateram a atuação do Sendero. Esse último dado, combinado à projeção do candidato como sindicalista docente na greve nacional da categoria em 2017, ajuda a entender suas conexões com o mundo popular andino, uma vez que as “Rondas” conformam uma extensa rede de organização comunitária ao longo da serranias do Peru.

É preciso lembrar, contudo, que Castillo não era a aposta principal da esquerda peruana. Esta era a já citada Verónica Mendoza, da coalizão Juntos Por El Perú, que, em 2016, havia tido um bom desempenho, ficando em terceiro lugar, a apenas 2 pontos percentuais do 2º. Turno. Talvez, por isso mesmo, as baterias comunicacionais das direitas estiveram voltadas sobretudo contra ela no 1º. Turno, deixando candidato do PPL quase inteiramente invisibilizado até dias antes da eleição, enquanto este percorria as pequenas cidades e povoados do Peru profundo.

Mas isso não explica, por si só, porque Mendonza ficou para trás em relação a seu contendente no campo das esquerdas. Aqui entram em jogo as contradições do discurso de Castillo e suas afinidades com as visões de mundo populares. Se este último abraça um programa de nacionalismo econômico e redistribuição radical da riqueza – o PPL se autodefine como “marxista” e “mariateguista” -, professa um claro conservadorismo moral, rejeitando a despenalização do aborto ou os direitos LGBTQ, por exemplo, em contraste com Mendoza, progressista nas duas esferas. Mas talvez seja justamente essa heterogeneidade que tenha tornado amplos setores das massas populares, como o importante eleitorado evangélico, mais receptivo ao nome do professor cajamarquino.

Em todo caso, a coalizão de toda a esquerda peruana em torno de Castillo no 2º. Turno, o que implicou em acordos programáticos mínimos em torno de liberdades democráticas e direitos de minorias, não deixou de ser um elemento alvissareiro, inclusive porque, para montar uma equipe de governo, o virtual novo Presidente necessitará dos quadros técnicos que lhe possam fornecer a centro-esquerda urbana e universitária, o que já se refletiu em uma primeira aproximação, na campanha eleitoral, com a comunidade acadêmica e científica do país, até pelas propostas de criação de um Ministério da Ciência e Tecnologia e de reforço ao financiamento da educação em todos os níveis.

Em síntese, embora seja aparentemente uma surpresa, o fenômeno Pedro Castillo não é de maneira alguma um “raio em céu azul”. A rigor, representa a condensação de contradições conjunturais e estruturais, articulando múltiplas temporalidades históricas dessa heterogênea e fragmentária formação social. Retomando o título do mais conhecido romance de Arguedas – Los Ríos Profundos (1958) -, é como se os “rios profundos” que correm nos subterrâneos da sociedade peruana tivessem vindo à tona, inundando o cenário cuidadosamente higienizado do Peru limenho. A solidez rochosa do voto andino no professor rural faz as elites litorâneas se lembrarem de um país para o qual sempre estiveram de costas e que sempre preferiram ignorar, ou tratar por meio de visões estereotipadas, preconceituosas, numa palavra, racistas.

Difícil será prever quais os rumos do Peru sob um eventual governo Castillo. Antes de mais nada, a confirmação da vitória e a futura posse estão longe de serem garantidas, uma vez que, como dito de saída, a candidata derrotada já começou a difundir a narrativa leviana da “fraude”, contando para tanto com a caixa de ressonância dos grandes meios de comunicação. Seus apoiadores já chegaram mesmo a apelar, de maneira tediosamente previsível, aos quartéis, apelo por hora rechaçado publicamente pelo Ministério da defesa, em exemplo, diga-se de passagem, que deveria envergonhar os militares brasileiros. Mesmo que esse conjunto de operações golpistas no plano jurídico, midiático e militar venham a fracassar, é inegável que põem mais água na fervura de um ambiente político já próximo do ponto de ebulição, com os simpatizantes do candidato vencedor já mobilizados para defender seus votos.

Outro plano de preocupação para um eventual futuro governo Castillo será o Congresso, do qual partiram todas as investidas de destituição presidencial no último quinquênio. Ainda que o PPL tenha sido o partido mais votado, contará com apenas 30 cadeiras de um total de 120, estando o restante dividido entre outras 9 bancadas ou coalizões. Mesmo com os sócios de esquerda do 2º. Turno, a sustentação do governo ainda seria precária, enfrentando uma forte oposição de direita, que não irá titubear em jogar a cartada do impeachment ou da “vacância” do cargo.

Por isso mesmo, a mobilização popular em torno de um plebiscito que convoque uma assembleia constituinte, dando início a um processo de refundação do pacto social, será fundamental para a sorte de Castillo, mas, pelos mesmos motivos aludidos acima, muito difícil de executar. Some-se a isso as pressões dos grandes interesses econômicos, internos e externos, como o das grandes mineradoras, preocupadas com eventuais nacionalizações ou revisões de contratos de conceção, cujo poder desestabilizador da vida econômica, sabe-se bem, não deve jamais ser desprezado.

Em face de tantas incertezas, vetos e ameaças, a articulação de um futuro governo Castillo com seus pares da esquerda e do progressismo latino-americano será fundamental para garantir certa estabilidade. Aqui é bom lembrar que as conexões do “Grupo de Puebla” no Peru eram com Verónica Mendoza, na qual as esquerdas regionais apostavam para chegar ao 2º. Turno. Seja como for, Castillo recebeu o pronto apoio de Evo Morales, com o qual tem afinidades ideológicas relevantes, além do uruguaio Pepe Mujica, com o qual teve uma conversação pública no final de sua campanha.

Talvez seja justamente, aqui, no terreno da política externa no qual residam as maiores potencialidades da ascensão do professor. Basta lembrar, como muitos já fizeram pelas redes sociais, que a principal articulação da direita regional se intitula, não por acaso, “grupo de Lima”, criada para isolar e hostilizar o governo da Venezuela. Tampouco é casual que o Presidente brasileiro de extrema-direita, Jair Bolsonaro, cujas afinidades com o fujimorismo são salientes, já tenha lamentado publicamente os resultados das eleições no país vizinho. Além de retirar à direita um de seus bastiões históricos na América do Sul, a vitória de Castillo e das forças que o sustentam, combinada ao processo constituinte chileno e aos governos do “Grupo de Puebla”, como Argentina, Bolívia e México abre novas perspectivas para a retomada de um projeto de integração soberana do continente.

André Kaysel é Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)



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