Pelo Mundo

Eleições e escolhas estratégicas

07/11/2007 00:00

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Créditos da foto: Arquivo
É comum atribuir à eleição de George W. Bush e aos atentados de setembro de 2001 a definição da nova doutrina estratégica, de tipo imperial, por parte do governo norte-americano. Apesar de que tenha sido seu pai, George H. W. Bush, quem propôs, em primeiro lugar, em 1990, logo depois da queda do Muro de Berlim, que os Estados Unidos adotassem uma política internacional preventiva, de contenção universal, para impedir o aparecimento de novas potências capazes de rivalizar com os Estados Unidos, depois do desaparecimento da União Soviética. Por isto, aliás, o bombardeio “teleguiado” Bagdad, em 1991, cumpriu um papel semelhante ao do bombardeio atômico de Hiroshima e de Nagasaki, em 1945: apresentou ao mundo o novo arsenal, e a nova estratégia americana, e ao mesmo tempo, definiu a nova hierarquia de poder, dentro do sistema mundial, depois do fim da Guerra Fria. Com a diferença que, neste caso, não houve uma “rendição” explícita dos derrotados, nem um “acordo de paz” entre os vitoriosos, que consagrasse uma nova ordem mundial, como aconteceu logo depois da Segunda Guerra.

Num primeiro momento, a ausência deste pacto entre os “vitoriosos”, foi encoberta pela comemoração coletiva da vitória, e depois, durante a “era Clinton”, foi encoberta pela força envolvente da utopia da globalização, com sua crença no fim das fronteiras, das guerras, e da própria história. Mas mesmo assim, à sombra da “globalização”, durante os anos do governo de Bill Clinton, os Estados Unidos mantiveram e aprofundaram a doutrina estratégica proposta pelo presidente Bush (pai), apesar da retórica liberal e multilateralista do presidente Clinton. Nos seus oito anos de governo, os Estados Unidos fizeram inúmeras intervenções militares ao redor do mundo, e o que é mais importante, avançaram silenciosamente, ocupando posições militares nos territórios que haviam pertencido, ou haviam estado sob influência soviética, até 1991. Um movimento de ocupação que começou pelo Báltico, atravessou a Europa Central, a Ucrânia e a Bielorússia, passou pela “pacificação” dos Bálcãs; e chegou até a Ásia Central e ao Paquistão, ampliando as fronteiras da OTAN, contra o voto dos europeus.

Como conseqüência, ao terminar a década de 90, os Estados Unidos já haviam construído um verdadeiro “cinturão sanitário”, separando a Alemanha da Rússia, e a Rússia da China, E haviam consolidado uma infra-estrutura mundial de poder, com cerca de 750 bases e meio milhão de soldados fora do território americano, com controle quase absoluto dos oceanos e do espaço, e com uma rede de acordos de defesa e ajuda militar, com cerca de 130 países.

Depois do governo Clinton, com a eleição de George W. Bush (o filho), e com os atentados de 2001, a política externa do governo americano adotou, de fato, uma nova retórica, mais militarista e belicista. Mas a estratégia imperial do estado americano já vinha de antes, e se manteve a mesma, desde o fim da Guerra Fria, apesar das eleições e da alternância dos governos democratas ou republicanos. Nestes dezessete anos, esta estratégia imperial acumulou vitórias, mas também teve fracassos e vem enfrentando problemas cada vez maiores para seguir se expandindo e para “gerir” o poder global que já acumulou desde o fim da Guerra Fria. As derrotas e dificuldades dos últimos anos, no Afeganistão e no Iraque, não são um sintoma do “fim” do poder ou da hegemonia americana, mas explicitam os limites e as contradições estruturais de uma estratégia que vai gerando resistências, na medida em que avança e expande seus instrumentos, e seus espaços de poder.

Do ponto de vista “vertical”, está cada vez mais difícil para os Estados Unidos, “manter a ordem” e impor suas posições dentro dos territórios “periféricos”: mais de cem estados nacionais que nasceram da desmontagem do sistema colonial europeu, na segunda metade do século XX, com o apoio, em muitos casos, dos próprios Estados Unidos. Alem disto, do ponto de vista “horizontal”, foi a estratégia expansiva dos Estados Unidos que incentivou – em grande medida -a transformação asiática que hoje lhe escapa ao controle. Os norte-americanos já não têm mais como frear a expansão econômica da China, nem podem mais seguir a frente com sua estratégia global sem contar, pelo menos, com uma parceira chinesa.

Mas além disto, a vitória americana na Guerra Fria também trouxe de volta A Alemanha e a Rússia, para dentro do jogo do poder europeu e internacional. E hoje, estes dois países estão reconstruindo suas “zonas de influência”, na Europa e na Asia Central, e competem e limitam as ambições americanas nestas regiões. Estes limites e pressões externas estão aumentando as divisões dentro dos Estados Unidos, e é provável que depois do fracasso do Iraque, ocorra um realinhamento de forças dentro do establishment norte-americano, como ocorreu no início dos anos 50, e na década de 70, depois das Guerras da Coréia e do Vietnã. São momentos em que se formam novas coalizões de poder e podem se definir novas estratégias internacionais. Mas estes processos de realinhamento são lentos, e não é provável, portanto, que nesta conjuntura tual, possa coincidir com as próximas eleições presidenciais norte-americanas.

Basta analisar os programas dos principais candidatos democratas e republicanos às eleições presidenciais de 2008, para perceber que a “velha” estratégia imperial se mantém de pé, integralmente.. Até agora, todos os candidatos se propõem reconstruir a liderança mundial dos Estados Unidos, e sua imagem ética abalada pela Guerra do Iraque, e todos defendem a necessidade de uma diplomacia multilateralista. Mas ao mesmo tempo, todos propõem aumentar os gastos militares, expandir os contingentes, e multiplicar os investimentos em pesquisa e inovações tecnológicas para uso em “guerras assimétricas”. E o que é mais interessante: quase todos os candidatos propõem a criação de “corpos”, brigadas ou agências civis, encarregadas de reconstruir e administrar os territórios e os governos incorporados ou atingidos pelo poder americano, ao redor do mundo. Uma proposta que lembra muito as instituições e os servidores encarregados de administrar o império britânico: os “imperial builders”, da Rainha Vitória.


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