Pelo Mundo

Eleições na Europa: pouca mudança

22/10/2007 00:00

Neste fim de semana e na segunda-feira o tema geral na imprensa européia foi eleitoral. Começando de longe, na China o 17° Congresso do Partido Comunista Chinês elegeu um novo Comitê Central, em dimensão adequada para o país. São mais ou menos 200 membros que constituem o “petit comité” governante. Destes, saem os nove dirigentes máximos. Por um lado, não houve surpresas: o atual mandatário na China, Hu Jintao, foi reconduzido à chefia do partido, o que quer dizer que em breve será mantido como presidente do país e chefe das Forças Armadas. Por outro lado, houve sim uma surpresa: o atual vice-presidente, Zeng Qinghong, não só não ficou entre os nove mas sequer entre os 200. Foi defenestrado para valer, o que mostra que a luta sucessória para os postos de Hu Jintao, daqui a alguns anos, já começou. O que isso significa na esfíngica política chinesa e para o país que mantém taxas de crescimento econômico altíssimas, sendo já a 4ª economia do mundo (e fora do clube do G-8), ao lado de uma desagregação rápida e violenta do tecido social, ninguém sabe ainda precisar.

Um pouco mais a oeste, na conturbada cena paquistanesa, a ex-premiê Benazir Bhutto sugeriu que houvesse ajuda internacional na investigação do atentado contra ela que produziu, segundo as cifras correntes hoje, 129 mortos e mais de 300 feridos. No clima eleitoral (as eleições devem ocorrer em meados de janeiro) a sugestão de Benazir tem como alvo o bastidor do governo do presidente (e general) Pervez Musharraf. Num projeto aparentemente desenhado em Washington, ou pelo menos do agrado da Casa Branca, Benazir concordaria em se aliar com o antigo adversário, dividindo com ele o poder, caso saia vencedora, para formar uma aliança anti-Al Qaeda no Paquistão e anti-talebã no vizinho Afeganistão. Mas ela acusa a participação de membros do Serviço Secreto paquistanês na organização do atentado que, diz ela, sem isso, não poderia acontecer. Ao mesmo tempo, Benazir declarou que segue em campanha, o que deve lhe trazer novos riscos, uma vez que no Paquistão as viagens dos candidatos são imprescindíveis para o sucesso eleitoral. Mas para o governo de Musharraf seria na verdade péssimo um novo atentado contra essa incômoda aliada/adversária, uma vez que com ou sem sucesso um acontecimento desses comprometeria definitivamente a imagem de seu governo, dentro e fora do país.

Aterrissando na Europa, a Polônia tem novo governante, o primeiro ministro Donald Tusk, do Partido da Plataforma Cívica, descrito como “liberal conservador”. O comparecimento às urnas foi de 55% do eleitorado, descrito como o maior dos últimos tempos. Da direita à esquerda houve um alívio pela Europa inteira, pois seu antecessor, Jaroslaw Kaczynski, era considerado como um político de extrema direita, seguidamente descrito como “nacionalista e populista”. Explique-se que na Europa os termos “nacionalista” e “populista” são predominantemente aplicados a políticos de direita, ao contrário da América Latina, onde ambos são brandidos pela direita contra políticos de ou à esquerda, como Hugo Chávez ou Lula.

Kacynski caracterizou-se por um governo extremamente conservador, por perseguições a seus adversários através do aparato policial, e por criar contenciosos com seus vizinhos, inclusive a Rússia e a Alemanha. Era um entusiasta da idéia de que os EUA instalassem novos mísseis no país. Seu partido, o “da Lei e da Justiça” (imagine um partido no Brasil chamado da “Lei e da Ordem”). Teve 31,3% dos votos, enquanto o de Tusk ficou com 44,2. O partido dos social-democratas e comunistas ficou com 13% e o Partido Camponês, com 8%. Este último deve entrar em coalizão com o da Plataforma Cívica, não se sabendo ainda o que farão social-democratas e comunistas.

A cena não é para muito alento. Tusk deve manter o apoio à idéia dos mísses norte-americanos, mas os comentários indicam que fará novas exigências compensatórias a Washington. Em todo caso, antes da eleição ele se manifestou contrário à permanência de tropas polonesas no Iraque, ao contrário de Kaczynski, que com seu irmão Lech (que continua como presidente do país), era um entusiasta da idéia.

Políticas do novo e pequeno Partido Feminista, formado este ano por descontentes com os partidos estabelecidos, manifestaram seu desalento diante do quadro em que mesmo partidos à esquerda não se manifestam sobre temas polêmicos como o aborto. A prática do aborto era legal na Polônia comunista e foi posta fora da lei depois da queda do regime por pressão do Vaticano de João Paulo II e da conservadoríssima Igreja Católica polonesa. Manuela Gretkowska e Magdalena Sroda, do partido, comentaram que na Polônia pós-comunista, entretanto, é mais fácil fazer um aborto do que falar sobre isso, uma vez que as estimativas correntes falam em de 140 a 180 mil abortos clandestinos por ano no país.

Já na Suíça, o relógio político parece ter desandado. As eleições para o governo e o parlamento foram marcadas por conflitos de rua e por um nacionalismo xenófobo por parte do atual homem forte em Berna e Zurique, Cristoph Blocher, do Partido do Povo, que foi o mais votado, com 29 % dos sufrágios.

A Suíça tem um sistema original de governo, pois o executivo é formado por sete membros dos quatro partidos mais votados nas eleições. O partido de Cristoph garantiu mais seis cadeiras no Parlamento e com isso, pelo menos dois cargos no executivo. O homem forte do governo é do partido mais votado, independentemente do cargo. Cristoph Blocher, por exemplo, é Ministro da Justiça.

Ele, seguidamente descrito também como “populista e nacionalista”, fez uma campanha baseada num anti-islamismo marcante e num racismo disfarçado, se é que se pode usar esse termo. Brandindo a idéia de que o perigo para a Suíça são a União Européia e a esquerda, defendeu idéias como a de que o governo possa “deportar os criminosos”, o que equivale a dizer que no país os criminosos são necessariamente estrangeiros.

Um dos principais cartazes de sua campanha mostrava quatro ovelhas num território vermelho como a bandeira suíça. Três das ovelhas, brancas, expulsavam a quarta, negra. O cartaz provocou tanto repúdio que até a ONU interpelou o candidato sobre o seu racismo, ao que ele retrucou que a expressão “ovelha negra” era comum a várias línguas e não implicava necessariamente racismo. Em todo caso o cartaz e a campanha foram eloqüentes no sentido de atrair o eleitorado conservador, num cenário em que os social-democratas foram descritos como os grandes perdedores e o Partido Verde cresceu, chegando a 10% dos votos.

Enquanto isso, nos Estados Unidos a senadora Hillary Clinton reafirmava sua liderança entre os democratas segundo uma pesquisa do jornal Washington Post, que lhe dava 52% das intenções de voto entre os membros do partido, contra 22% de Barack Obama, em segundo lugar. Além disso, novos dados lhe favoreciam, pois o eleitorado feminino nos EUA chegou a 54% do total, e na pesquisa 94% dos eleitores com 35 anos ou menos declararam que preferiam votar numa mulher. Ainda não se sabe o que fará Al Gore depois de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, mas certamente lhe será desconfortável ter de enfrentar a esposa de seu, digamos, ex-chefe, na corrida democrata. Obama, por outro lado, pode tornar-se o fiel da balança se se dispuser a ser o vice de alguém, coisa que ele até agora descarta por razões óbvias. O fator Al Gore jogou na arena política, com toda a força, o tema ambiental. Mas o nó dessa eleição ainda permanece o Iraque, questão espinhosa para todos, inclusive os republicanos. Ainda mais agora que o exército turco começou a bombardear o norte do Iraque, contra os guerrilheiros curdos do Partidos Trabalhadores Curdos (ou Partido Curdo dos Trabalhadores), que continuam provocando baixas nos adversários, entre mortos, feridos e prisioneiros. O ataque turco pode desestabilizar a única região mais ou menos tranqüila até agora para os ocupantes do país, cuja situação é universalmente descrita na Europa (e agora também entre os norte-americanos) como caótica e testemunho do fracasso da política norte-americana, como no caso do Afeganistão.


Conteúdo Relacionado