Pelo Mundo

Eleições presidenciais no Chile e os caminhos que percorri: um olhar brasileiro sobre sentidos políticos e sociais

 

26/12/2021 11:52

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
Ao chegar em Santiago, no início de dezembro do presente ano, com intuito de realizar uma pesquisa de campo, das minhas investigações de pós-doutorado,na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sobre as lutas estudantis chilenas e brasileiras; prontamente me deparei com uma organização muito elevada e rígida de controle sanitário, com intuito de controle da Covid-19. Acrescente-se a esta conduta, a necessidade de preenchimento diário de formulário de acompanhamento de sintomas (por 10 dias) e a obrigatoriedade de cumprir requisitos para obter o Passe de Mobilidade. De partida, já foi marcante a experiência de passar por uma séria política de controle da pandemia, tal vigilância se via nas ruas de Santiago e Valparaíso (as cidades que transitei) e ao que parece, houve uma adesão igualmente densa da população, que incorporou o uso da máscara, em geral.

Situo estes episódios acima para argumentar sobre as minhas percepções ao observar o dia a dia chileno, antes e nas eleições presidenciais, encerradas no domingo (19 de dezembro). A vitória de Gabriel Boric (devido à sua descendência croata, se pronuncia “Borich”) parece-me condensar uma sintonia entre sentidos sociais e políticos da sociedade civil chilena e as respostas que o Estado fornece,principalmente pós o estallido social de 2019.

Neste ponto, destaco a própria mudança do liberal e ainda presidente SebastiánPiñera, que no dia 08 de dezembro de 2021,tornou pública uma reforma importante no sistema previdenciário local (AFP). Antes deste episódio também, ao final de 2019, o presidente corroborou com outra mudança vital que o Chile enfrenta, o processo de construção de uma nova constituição, a ConvenciónConstituyente. Como o mundo político é cheio de reviravoltas, o mesmo presidente que em 2011, foi hostilàs lutas estudantis universitárias, verá assumir como seu sucessor, no Palácio de La Moneda, um protagonista daquela época.

Esta mudança de Piñera parecia já captar o que estaria por vir no país, uma guinada progressista de sentidos da sociedade e a necessidade de uma mudança da agenda política e econômica no Chile. No pleito eleitoral recente, porém, a maioria dos votantes, delegou ao jovem Boric a tarefa de conduzir tal tônica. O opositor de Boric, José Antônio Kast, parece ter entendido o recado das urnas e reconheceu a derrota, não se aventurando na tese trumpista e bolsonarista, por exemplo, de que houve fraude nas eleições. No Brasil, não sabemos se Bolsonaro fará o mesmo, caso seja derrotado, em 2022.

Desta forma, para entender o Chile hoje, é fundamental olhar para o ano de 2006, quando a geração pinguina se levantou contra o desigual sistema educacional. Posteriormente, jovens como Giorgio Jackson, Camila Vallejo e o próprio Boric, galgaram espaço na vida pública, como lideranças estudantis universitárias, em meados de 2011. Depois seguiram protagonistas, mas passando à condição de deputados, entreas eleições de 2014 e de 2018. Destes três, somente Boric alcançou a idade mínima (35 anos) e as condições políticas para poder se candidatar ao cargo máximo do poder chileno. A transição da constituição pinochetista dos anos 1980 também deve ser considerada nesta travessia.

Boricmobiliza dimensões muito significativas que precisam de mais análise, como o fato de não ser casado, não ter filho, não ser religioso, ser o presidente eleito mais jovem da história do Chile, recordista de votação, superando até mesmo a votação do plebiscito constitucional de 2020. Um precedente histórico é o plebiscito de 1980, em termos proporcionais, a resposta progressista da população, se assemelhou as eleições de 2021. Chama atenção a namorada de Boric-Irina Karamanos- que é feminista,rejeita o cargo de primeira dama. Tudo isto é bastante latente, em um país ainda fortemente católico. Sobre religião, pude ver nas ruas, uma presença cotidiana de evangélicos, tecendo orações. A liturgia, inclusive, se assemelha aos ritos brasileiros.

Diferentemente do Brasil de 2018, Boric, na reta final da campanha, ressaltava o que era o retrocesso da pauta conservadora da direita (termo usado constantemente por ele e por coordenadores da sua campanha). No Brasil, por exemplo, vimos Bolsonaro usar mais a esquerda como um adversário para demarcar o seu campo político. Em ambos os países o conceito de fascismo esteve presente nos debates, dentro do léxico da esquerda.

A candidatura de Kastfoi vacilante na profundidade do programa político-econômico e social, assim não foi em relaçãoà temática da pauta dos costumes. Só para ilustrar, no único panfleto dele que achei na rua, no chão do Barrio Itália, ao longo de 15 dias de caminhadas, o que se destacava eram os valores da família e da tradição. Outro ponto convergente com a ultradireita brasileira foi que em 2018, pouco se viu discussãode propostas. Kast, porém não se furtou de participar dos debates televisivos. Aliás, esta é uma grande diferença dele em relação a Bolsonaro, pois ele tem mais discrição, menos ódio retórico e maior capacidade intelectual. Pessoas que conversei dizem que um estilo de Bolsonaro (agressivo e etc.) teria dificuldade no campo da direita chilena. Inclusive, uma regularidade do discurso de Kast era atrelar Boric à violência, associar à esquerda ao ódio nas ruas. A respectiva estratégia era uma crítica aos atos vistos no estallido, de quebrar vidraças, por exemplo. Contudo, este debate vai bastante além. Mesmo saudosista de Pinochet,Kast vendeu-se como o candidato da paz.

Kast pode ser considerado bem sucedido na sua estratégia, apesar da derrota eleitoral, pois a direita continuou com força social, tanto que galgaram 45% dos votos e ele está sendo cotado, por analistas, como uma liderança de agora e do futuro.

Assim como o Brasil, diante de avanços de pautas sociais, a reação da direita caminhou para o extremo do reacionarismo. Para ajudar a localizar a posição de Kast, veio à tona que um familiar deletambém teve atuação no Partido Nazista alemão. Diferentemente do Brasil de 2018, a força social da direita não se manifestou nas ruas. Eu mesmo não vi uma passeata sequer de Kast, ao vivo, somente na televisão e uma única vez.

Na minha estadia no Chile, percorri as ruas de Santiago e Valparaíso, acompanhei o noticiário local, vi o último debate televisivo, visitei acampamentos, conversei com lideranças de movimentos sociais, sindicais, professores universitários, com estudantes (de escola e universitários), com militantes da campanha de Boric (de distintos bairros e nas duas cidades), com militantes do Partido Comunista de Chile, com membros da Convergência Social (partido de Boric), com três constituyentes de diferentes forças políticas, mas do campo progressista (são eles Jorge Baradit, Marcos Barraza e María José Oyarzún), ex ministros de Estado (o próprio Barraza y Roberto Pizarro), com brasileiros residentes aqui, trabalhadores informais, garçons, cidadãos em geral. No dia da eleição, visitei quatro escolas e cinco regiões de Santiago e grande Santiago. Apresento um resumo das constatações feitas.

Boric enfrentará desafios contundentes de governabilidade, deve lidar pela primeira vez, de forma mais concreta com o imperialismo, assim como precisará costurar a viabilidade (nos níveis nacional e internacional) do seu programa, que prevê a criação de um sistema único de saúde, uma reforma no sistema previdenciário, o aumento da participação do estado na educação, a descentralização das decisões políticas, mais participação política feminina e de povos originários.

Ao que parece, esta base será respaldada pela ConvenciónConstituyente (CC), que tem como ampla maioria mandatos independentes e próximos às causas sociais e da militância de esquerda. Contudo, como o mundo político do Chile passapor uma transformação visceral, os desdobramentos da CC só serão devidamente enraizados em meados de 2022 (após o mês de maio). Boric representa a sintonia política com este processo, só para ilustrar o slogan da sua candidatura foi “Apreubo Dignidade”, o que fazia uma alusão ao apoio da CC, ato este não realizado por Kast. Todavia, é preciso pensar que são muitas novidades e a falta de precedentes históricos pode ser implacável com o governo.

Se ao nível estatal, os rumos do Chile devem apontar para a solidificação destas mudanças, os aspectos sociais, envolvem muitas nuances e contradições, como por exemplo, uma parte da militância protagonista do estallido social que votou em Boric, fez por veto à Kast. Se Boric foi à síntese possível deste processo (e nenhum presidente e candidato é plenamente representante de todo conjunto social), na própria esquerda, um dos grandes símbolos recentes das transformações é a bandeira Mapuche, além da pauta feminista e da diversidade sexual. Os Mapuches são a maioria dos povos originários no Chile e estão com papel destacado na CC, sobretudo através da presidente Elisa Loncon. Porém, será necessário avançar no diálogo entre o futuro governo e tais os povos. Na América Latina, as experiências equatoriana e boliviana podem ser importantes para o novo governo.

Outros militantes de movimentos sociais que conversei, ainda aparentam ter no Estado uma desconfiança quanto a realização o mais plena possível das suas reivindicações. Pode-se atribuir isso aos muitos anos que a Consertación teve à frente da presidência (com Bachelet e Lagos). Uma tese também é que as formas descentralizadas de participação política, nas ruas, podem ainda perpassar por um processo de nova configuração para se articular mais concretamente em torno do Estado. O mercado global e a experiência chilena de berço do neoliberalismo ainda precisarão ser testados nesta dinâmica de renovação.

Falando novamente de América Latina, tanto a Bolívia, assim como o Brasil, passaram por guerras híbridas, nada impede que isso ocorra no Chile. Outra hipótese analítica é que a derrota, até então, de Trump parece ter dificultado a extrema direita e parece deixar desfalcadas as candidaturas autoritárias.

A militância feminista, no que pude notar, me pareceu mais esperançosa com os desdobramentos futuros no país. Mapuches e os movimentos estudantis parecem ser grandes expoentes dos novos ares locais. Apesar das contradições e mesmo com o voto não sendo obrigatório, Boric galgou 55% (mais de 4 milhões de votos). Os números desta eleição são fundamentais para a legitimidade do governo.

No dia 19 de dezembro, eleição em si, há denúncias de que em Santiago houve um boicote no sistema de ônibus. O metrô estava gratuito, porém os ônibus são importantes nas regiões mais distantes da capital (e grande reduto de Boric). Mesmo assim, a vontade popular foi alcançada. A gratuidade do metrô me possibilitou percorrer a comuna de La Florida, colégios eleitorais, desde o Estádio Monumental, Barrio Itália, e Maipú. Ficou visível que em Maipú o engarrafamento estava grande, o que me parece revelar uma dependência da população com o transporte rodoviário.

No dia da eleição, houve lei seca e comparando com o Brasil, os colégios são mais distantes e não tão bem distribuídos. O clima na cidade era de um vai e vem bem menos agitado do que o Brasil. Não vi nas ruas, nem nos noticiários casos de “bocas de urna”, fenômeno ainda persistente em algumas regiões brasileiras. Dois dias antes do sufrágio, no Chile, não percebi exposição de bandeiras, nem botons de candidatos, tampouco campanha nas ruas, Assim, não foi nítida a indicação do voto das pessoas que compareceram aos colégios. Nas diferentes regiões o público também era muito diversificado (em termos etários, de gênero e etc.).

Contudo, após o resultado da apuração, em torno das 19:00, o que se viu foi exatamente o contrário; uma grande explosão no centro de Santiago se desenhou e em distintas cidades. O que já se captava nos dias antecedentes, quando bandeiras de Boric e Mapuches eram hegemônicas nas janelas das casas, quando praticamente só se via, nas ruas, panfletagens, indicando o voto 1, se revelou como umentusiasmo sem precedentes (de acordo com alguns relatos que obtive).

Em uma manifestação que fui, no Cerro Santa Lucía, presenciei uma escola de samba local, comandada pelo brasileiro Sidney Fernandes da Silva (oriundo do Rio de Janeiro, músico e morador de Santiago desde os anos 1980). Ele comentou que a partir doestallido, a batucada do samba foi uma forte expressão de luta na capital.

Um dos maiores prenúncios desta virada se deu no dia 16 de dezembro , quando LucíaHiriart (viúva de Pinochet) e tida como igualmente ou até mais perversa que ele, faleceu, aos seus 99 anos. Imediatamente a Plaza Baquedano (um dos palcos do estallido) foi ocupada com centenas de militantes que cantavam “Oh, lavieja se murió”. Pude testemunhar isto também. Buzinaços foram ouvidos, além da enxurrada de mensagens nada saudosas nas redes sociais.

A imigração e o racismo me parecem serelementos ainda de muita tensão e que Boric precisará de habilidade para lidar. Kast tinha um programa mais nacionalista e avesso ao grande número de estrangeiros que o país recebe. O caso dos venezuelanos parece ser o mais delicado. O próprio Boric, na televisão (em entrevistas) fez questão de se distanciar de Nicolas Maduro. No tecido da sociedade, há uma tensão com esta população. Diversos haitianos, colombianos e peruanos também vivem hoje nessa parte dos andes. Os peruanos, inclusive, estão iniciando um movimento de mudança constitucional por lá, inspirado no Chile, mas recolhendo assinaturas na Plaza de Armas. Pude conversar com um dos ativistas. Pude ver também, através da música, que a salsa venezuelana e outros ritmos de lá, tocam a população chilena. Diante de tais fatos, parece se delinear uma incorporação do povo da Venezuela, onde às artes ocupam este papel, de algum modo, porém há outros conflitivos que exigem mais análises. Na Plaza de Armas, por exemplo, apresentações circenses de venezuelanos contam com alto prestígio, aos sábados.

Os desafios são grandes, assim como a esperança, mas Boric parece ser hábil para captar sentimentos, construir governabilidade, como na busca do diálogo com membros queestavam na exConsertacióin (como a ex-presidenta Bachelet) , com o Partido Comunista de Chile, assim como está indicando a necessidade de unir o país. Se respostas sociais e econômicas forem dadas, pode proporcionar maior vitalidade ao novo governo.

Penso que fora da vanguarda chilena (como os veículos formadores de opinião, militantes, professores e etc) ainda há um processo de assimilação da população sobre tudo que está ocorrendo e a força política desta conjuntura. Afirmo isso, ainda com pouca precisão teórica, mas pautado no diálogo com constituyentes, na quantidade de pessoas que ouvi, e que mal acompanhavam as eleições, a CC e entendiam que não haveria muita mudança, independente de qualquer cenário político. Isto pode refletir aabstenção que segue presente no Chile, onde o voto não é obrigatório. Ainda há muita gente a se encantar pela política e estes corações e mentes serão disputados ao longo dos próximos anos.

Por fim, a chamada Geração Pinguina chegou ao poder, com muita energia, jovialidade, sintonia com os novos elementos que se desenham, no Chile.

Que os ventos do festejo no Cerro SantaLucía, com enorme participação nas ruas, com escola de samba que tem presença brasileira, nos fortaleça para ampliar a integração progressista na América Latina e no Brasil, que é nitidamente reconhecido como um país chave para o continente. Hoje o Chile está dando um grande recado para o mundo.

Por agora gritemos bem alto: Viva Chilemierda!

Rafael Bastos Costa de Oliveira
Professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Membro do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj
Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação daUniversidade Católica de Petrópolis



Conteúdo Relacionado