Pelo Mundo

Em meio a conflitos, Egito prepara eleições parlamentares

24/11/2011 00:00

Martin Chulov e Jack Shenker - The Guardian

No coração simbólico da revolução, a Praça Tahrir, manifestantes entoavam os mesmos slogans usados 11 meses atrás, mas desta vez eles eram direcionados ao líder militar interino marechal Mohamed Hussei Tantawi. “Se a carruagem da democracia andar no Egito e este problema ainda estiver aqui, então a democracia terá falhado”, disse Ikramy Esayed. “A próxima segunda-feira é muito importante para o Egito, mas não porque [a votação] deva ocorrer, mas porque deveríamos reconhecer que este não é o momento.”

Um segundo homem, Nashad Bishara, concordou. “Não é apropriado que ocorram eleições agora,” ele disse. “Para aqueles que amam o Egito, primeiro é preciso que seja alcançada a estabilidade. A verdade é que o exército não quer que as eleições aconteçam.”

Hospitais de campo montados na praça estavam lotados de feridos depois que o batalhão de choque da polícia avançou em milhares de pessoas que estavam dentro da praça. Médicos disseram que parecia haver mais feridos nos últimos cinco dias do que em quase todo mês de Janeiro, quando milhares de pessoas ficaram feridas.

Os ferimentos são em grande parte causados pelo gás lançado pelos policiais, que negociaram uma breve trégua com os manifestantes antes da violência escalar novamente. O The Guardian viu duas mulheres convulsionando violentamente em uma clínica improvisada montada no quintal de uma igreja depois de terem inalado o gás. Médicos estão relatando um grande número de pacientes que reagiram de modo grave ao contato com o gás que está sendo jogado. “Nunca tinha visto uma reação assim,” disse um médico em um centro de triagem dentro da igreja em uma rua próxima à Praça Tahrir. “Estamos enviando muitas pessoas para o hospital. Não temos como cuidar delas aqui.”

Em um dos hospitais de campo um médico foi morto, de acordo com colegas e websites. Se acredita que o Dr Rania Fouad tenha morrido depois de ter inalado o gás.

Depois de terem oferecido na terça-feira fazer um referendo sobre a transição de poder para os civis e afirmado que o processo político estava encaminhado, os comandantes militares mantiveram silêncio na quarta-feira.

A insatisfação com o avanço lento das mudanças continuou a aumentar, junto com a suspeita de que as aparentes concessões de Tantawi são somente uma tentativa de ganhar tempo para evitar a transição de poder.

O Reino Unido condenou a violência no Egito, mas o Ministro das Relações Exteriores William Hague disse que reconhecia que Tantawi estava comprometido com a mudança. Hague pediu que o Egito garantisse eleições justas, confiáveis e transparentes, mas não pressionou para que isso ocorresse dentro de um prazo – uma mudança na posição do governo quando mais cedo este ano estava pressionando para que as eleições ocorressem em Setembro.

O número de protestos na Praça Tahrir continuou a aumentar desde sábado e até à noite de quarta-feira um mar de pessoas reproduziam as cenas vistas em Janeiro. “As pessoas estão exigindo o fim do Marechal,” disse um homem segurando uma faixa grande.

Longe da praça as ruas estavam tensas, com alguns residentes acusando os manifestantes de piorar a situação por demandar que as reformas aconteçam imediatamente.

“Estamos à deriva em um barco sem capitão e com todos lutando pelo leme,” disse o Capitão Abdul Aziz dentro em uma delegacia de polícia que tinha sido destruída pelo fogo, no oeste da cidade. “Está perigoso e imprevisível, as pessoas têm que tomar cuidado.”

Em uma sala ali perto estão guardados centenas de coletes que seriam entregues a monitores das eleições na segunda-feira. Poucos na delegacia achavam que os coletes seriam usados.

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