Pelo Mundo

Em nome dos palestinos

09/01/2009 00:00

Tariq Ramadan

É surpreendente e mesmo revoltante constatar, quando se trata dos Palestinos, o quanto nos falta de memória e de perspectiva. Enquanto a consciência judaica convoca, com razão, os poderes e cidadãos do mundo a um constante trabalho de memória para não esquecer as atrocidades, os massacres e os genocídios do passado, nós somos convidados a avaliações instantâneas e sem perspectivas, quando se trata da política do Estado de Israel. Assim, ouvimos que duas forças beligerantes de mesma potência estariam em conflito e que, após seis meses de trégua, um desses atores (os Palestinos) teriam rompido a trégua lançando foguetes. A parte agredida (Israel) não teria outra escolha a não ser defender-se.

Isso é o que o poder israelense vende ao mundo e é repetido pela maioria dos meios de comunicação ocidentais, apoiados pela administração Bush e numerosos governos da Europa. Os mais corajosos ousam a duras penas assinalar, com muitas reservas de circunstância, uma desproporção na “reação israelense”. Que coragem!

Que mentiras, sobretudo! Há décadas - bem antes da chegada do Hamas ao poder – que os Palestinos vêem sua dignidade ridicularizada e seus direitos legítimos negados. Dos acordos de “paz” de Oslo às diferentes negociações (e às vezes compromissos), das múltiplas promessas às encenações de retiradas “midiáticas”, os representantes palestinos não obtiveram nada para seu povo.

O governo israelense, de esquerda ou de direita, ganha tempo, mente, executa opositores sumariamente, não leva em conta para nada, ou quase, os mortos civis palestinos (danos colaterais à segurança de Israel), ao mesmo tempo em que continua a autorizar novos assentamentos e a levar cada vez mais longe sua política do fato consumado. Numerosos especialistas, como o relator especial da Organização das Nações Unidas para os Direitos do Homem, Richard Falk, afirmam que a política israelense não respeita as convenções de Genebra e está tornando impossível a solução dos dois Estados.

O governo israelense decidiu construir um muro que encerra a população da Cisjordânia (zombando das decisões da Assembléia das Nações Unidas) e submete a população de Gaza a um sítio e a um embargo que provocaram uma situação de fome, de falta de medicamentos, de desemprego massivo e um cotidiano miserável e sem esperanças. As associações humanitárias, vindas do mundo inteiro, são impedidas de trabalhar, de suprir suas necessidades e de fazer chegar alimentos e materiais às pessoas. Além disso, é preciso lembrar que a trégua de 19 de junho a 19 de dezembro de 2008 estava submetida a duas condições: o fim do cerco e do embargo em Gaza e a abertura parcial da fronteira com o Egito. Nenhuma delas foi respeitada por Israel (e pelo Egito) e a população palestina foi submetida a um tratamento desumano. Seria preciso esquecer essas realidades e justificar os massacres desses últimos dias? Os Palestinos seriam responsáveis por seu destino porque foguetes foram lançados desde Gaza? Às ausências de memória culpável, acrescenta-se uma perda do senso de proporção: o número de vítimas israelenses se multiplica por cem, duzentos, trezentos civis palestinos mortos pelas decisões oficiais do governo israelense.

Este faz pouco caso das instituições e da auto-denominada “comunidade” internacional. O que vale, doravante, é assegurar o apoio unilateral dos Estados Unidos e o silêncio cúmplice dos governos europeus. Um trabalho eficaz de comunicação (com uma dose de desinformação) é suficiente para o governo israelense ganhar tempo e submeter uma população de um milhão e meio de almas a um cerco desumano e a um massacre insuportável. Nós somos todos reduzidos à condição de espectadores que a “neutralidade” deveria salvar da má consciência. O cinismo atinge seu ápice quando se sabe que a morte de centenas de civis palestinos está ligada também aos cálculos políticos dos líderes israelenses preocupados em mostrar sua força e sua determinação antes das próximas eleições. A derrota no Líbano, em agosto de 2006, devia ser corrigida: que importa a vida de inocentes, de crianças e mulheres palestinas? O que conta é mobilizar os eleitores e ganhar as eleições. Operação bem sucedida, neste sentido: 80% dos Israelenses apóiam as ações mortíferas em Gaza. Extraordinário!

Pode-se ainda esperar qualquer coisa da “comunidade internacional” dos Estados e dos governos quando se observa como reagem no Oriente e no Ocidente? O silêncio cúmplice, a hipocrisia, a passividade e mesmo o desprezo pela vida dos Palestinos que alguns gostariam de ver desaparecer da Jordânia, do Líbano ou de não importa qual campo de refugiados “temporariamente definitivos”.

É hora de pôr em marcha um movimento internacional, global, de resistência não violenta à política violenta e extremista do Estado de Israel. É preciso mobilizar a opinião pública, difundindo uma informação rigorosa e permanente sobre a situação da população palestina, multiplicando os artigos, as conferências e as manifestações de apoio ao povo palestino, desenvolvendo uma melhor sinergia entre os esforços e as atividades que já são levadas por numerosas organizações em todo o mundo.

Os Palestinos, nós sabemos, não desistirão e continuarão a defender seus legítimos direitos sobre o território. Precisamos, por todo o mundo, apoiar de modo determinado e pacífico essa resistência. Israel, contrariamente às aparências e a sua fenomenal potência militar, nem de longe ganhou esse conflito e sua sociedade está atravessada por crises múltiplas e profundas. É urgente que o Estado e a população de Israel compreendam que não há para eles qualquer futuro de segurança, e mesmo de sobrevivência, sem o reconhecimento dos direitos e da dignidade dos Palestinos. Ganhar tempo, ficar cego, encerrar-se em operações inverossímeis e horríveis massacres não garante a vitória. Ao contrário. Bem ao contrário.

(*) Suíço de origem egípcia, Tariq Ramadan é doutor em Literatura, Filosofia e Estudos Islâmicos. Há vários anos, dedica-se ao debate sobre as relações do islamismo com a Europa e o mundo. Atualmente é pesquisador na Universidade de Oxford, na Universidade Doshisha (Japão) e na Lokahi Foundation (Londres). Também é presidente da organização “European Muslim Network” (EMN), sediada em Bruxelas.

Artigo publicado originalmente no site de Tariq Ramadan.

Tradução: Katarina Peixoto

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