Pelo Mundo

Em prisão domiciliar, líder estudantil paraguaia denuncia ''crimes do governo genocida''

''Tentam se manter no poder porque são eles os que vão terminar atrás das grades'', afirmou Vivian Genes, da Coordenação Estudantil da Universidade Nacional de Assunção

23/04/2021 12:56

 

 
País sem vacinas, hospitais superlotados, comercialização de medicamentos públicos e com preços nas alturas, pacientes morrendo nos corredores, tudo em meio a mais vergonhosa corrupção dos governantes. Este é o retrato do Paraguai do presidente Mario Abdo Benítez (Marito), do ex-presidente Horacio Cartes, e do seu Partido Colorado, a Associação Nacional Republicana (ANR), dos 45 anos de ditadura (1954-1989) de Alfredo Stroessner.

Apesar deste quadro sombrio, após um mês de gigantescas manifestações da oposição em favor do julgamento político do presidente e do vice, o parlamento paraguaio disse não ao clamor popular. Totalmente corrompido, manteve a dupla e deu aval às suas práticas criminosas, sustentada por prisões arbitrárias e torturas. A apresentação apodrecida do parlamento no dia 17 de março foi o suficiente para que a revolta aumentasse o tom e tomasse conta das ruas. Em Assunção, milhares disseram basta e populares atearam fogo numa das sedes da ANR. O ato foi aproveitado pelo governo para militarizar a capital, tentar isolar o movimento e criminalizar suas lideranças, identificando como incendiários dirigentes que sequer estavam próximos ao local.

Nesta entrevista, Vivian Genes Meza, da Coordenação Estudantil da Universidade Nacional de Assunção (Ceuna), a última líder que saiu detrás das grades - colocada em prisão domiciliar a partir de 12 de abril – fala de esperança e construção de um novo Paraguai. Símbolo da resistência, Vivian acredita que “estão tratando de se manter no governo a todo custo porque, chegando a haver uma mudança, pelo prontuário que têm, são eles os que vão terminar atrás das grades”. “Por isso é preciso arregaçar as mangas, trabalhar ainda mais e levantar a voz para garantir a vitória da oposição, a fim de que não voltem ao poder os mesmos assassinos e genocidas”, sublinhou.

Boa leitura!

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Uma das dificuldades das mobilizações contra um sistema de força era justamente o surgimento de lideranças, e agora temos esta perseguição e criminalização. Fale um pouco sobre como é dizer Não no Paraguai de hoje?

Nós estávamos há um mês nas ruas, o que por si só já é um marco histórico no Paraguai. Estamos no meio de uma pandemia em que as pessoas se encontram nos hospitais, morrendo nas cadeiras por não ter um leito sequer, em que seus familiares permanecem acampados ao seu redor, sobrevivendo em barracas.

As manifestações ocorreram em função da degradação das condições sanitárias e econômicas por conta da pandemia e da gestão do governo de Marito, que denunciavam que tudo aquilo era completamente insustentável. Isso estampa a gravidade do caso: as pessoas estavam protestando nas ruas há um mês.

A queima da sede do Partido Colorado ocorreu devido ao fato de terem rejeitado o julgamento político do presidente. Um julgamento que era para haver ocorrido em função de todos os enormes males praticados pelo governo durante a pandemia, não só em nível sanitário, como econômico e educacional. Já vínhamos mergulhados na crise desde antes, mas quando se esperava uma resposta, o governo veio com mais do mesmo. E pior, com algo mais agravado.

Esperávamos que, se com as manifestações, ainda que não conseguíssemos o afastamento de Mario Abdo, pelo menos seriam melhoradas as condições de higiene e de saúde. Mas em vez de haver um retorno positivo com mais investimentos, responderam identificando aqueles que estavam mais atuantes.

Estive como estudante universitária todos os dias, então a polícia já havia me identificado pelo movimento universitário. Nossa presença nas ruas se devia pela defesa da gratuidade da universidade pública, que é uma das dívidas históricas que se tem com a juventude. Tínhamos companheiros participando, tendo que escolher entre comer e pagar o wifi para as aulas, com o nível de evasão aumentando escandalosamente. Isso ficou caracterizado inclusive por filhos da classe média tendo que escolher entre comer e estudar num país em que supostamente se vive numa democracia, em um Estado de direito.

Haviam identificado aqueles que se mobiliaram em defesa da chamada Lei da Tarifa Zero [da universidade pública e gratuita], quando chegamos ao Março Paraguaio, que é um mês histórico de reivindicações em nosso país. No Paraguai, tivemos manifestações com estudantes mortos em anos anteriores.

E como ficou a questão a Lei da Tarifa Zero?

Ganhamos a Lei da Tarifa Zero no Senado, na legislação, mas o presidente mudou a lei por meio de decretos, impondo inconstitucionalmente um rosário de requisitos, uma série de atribuições. Em meio às mobilizações também estávamos denunciando a arbitrariedade destas imposições, porque não poderiam modificar a lei com base em dispositivos menores. Isso são práticas que fazem parte da ditadura. Condenamos, portanto, mais essa arbitrariedade.

Mas nossa reivindicação principal é justamente a questão da saúde, em que, apoiados por nossos familiares e pelas comunidades dos bairros, lutamos contra uma situação de calamidade. Pois a realidade é que entramos em colapso, da mesma forma que outros países.

Tudo isso somado ao desvio de recursos.

Sim. Foram descobertos medicamentos que estavam sendo guardados e armazenados para serem comercializados. Remédios com o selo do Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social que vinham sendo vendidos ilegalmente a doentes de Covid quando não se tinha acesso a eles nas farmácias. Muitos enfermos foram submetidos a sorteios, enquanto deveriam estar universalmente acessíveis gratuitamente para todos. Familiares gastando o salário do mês em um único dia de tratamento, vendendo tudo o que possuem.

Apenas 30% dos trabalhadores paraguaios recebem um salário mínimo ou mais. 70% dos demais não alcançam sequer o mínimo que é de dois milhões de guaranis (US$ 352). Um remédio para combater o coronavírus custa um milhão de guaranis, a metade do salário para um único dia.

Como fazer para, a partir da prisão domiciliar, superar os obstáculos e contribuir com a resistência?

Estou em prisão domiciliar, com proibição de participar de manifestações similares ou de contatar com outros jovens no mesmo processo. Tudo isso no aguardo de que a Procuradoria investigue e veja se há elementos, se há algum fundamento na acusação. O que estamos sofrendo na verdade é uma pena antecipada. Vivemos isso na Delegacia onde estive presa.

Meus companheiros me visitavam, prestavam solidariedade, e conseguiram evitar que fosse enviada para centenas de quilômetros daqui. Sem qualquer prova, sem qualquer justificativa, queriam me transferir para uma prisão de segurança máxima, em Encarnación, onde estaria isolada de meus familiares e de meus companheiros. O objetivo era me impor um castigo. Seu discurso era esse, desavergonhado: vamos castigar aqueles que queimaram o Partido Colorado. Não importa se não tivessem nem sombra de prova, nada. Queriam me usar como exemplo.

E para isso se utilizaram dos meios de imprensa dos quais são donos e, antes mesmo de qualquer investigação ou julgamento, já me colocavam como culpada. Isso é claramente inconstitucional, vai contra os direitos humanos, atenta contra a presunção de inocência. A mídia deles me apresenta como uma criminosa. Cada vez que eu intervia, que falava numa mobilização, aparecia gente da Procuradoria para ameaçar e dizer que iria ser levada à Encarnación, colocando em xeque a assistência da minha família e as suas próprias condições de subsistência.

Em relação aos outros companheiros, se utilizaram de elementos mais burocráticos e de menos ruído, o que possibilitou que conseguíssemos libertá-los mais rapidamente. Quiseram me utilizar como um símbolo, como uma penitência contra as mobilizações.

Como vês a contribuição das redes sociais e da mídia alternativa nesta disputa entre as forças do futuro contra o passado?

Foi justamente por intermédio das redes sociais e da ampliação do espaço público da mídia alternativa, que conseguimos dar uma resposta coletiva, nos contrapor e fazer uma resistência à mentira e à manipulação, que conseguimos enfrentar a maior parte dos meios alinhados com o cartismo (de Horacio Cartes), a área mais neoliberal do Partido Colorado.

Foram os companheiros da imprensa independente do Paraguai quem estiveram acompanhando as manifestações e o processo judicial para mostrar as pessoas, dando elementos e informações, a fim de que pudessem entender o que estava se passando na realidade. Porque a mídia hegemônica ou se caracterizava pelo silêncio, como se não estivesse ocorrendo nada, buscando invisibilizar uma mobilização que já durava um mês, esquecendo dos estudantes que estavam sendo criminalizados e julgados como presos políticos, ou nos mostrava como vândalos e criminosos.

Mas, apesar de todo esse monopólio, a mídia hegemônica não conseguiu instalar sua verdade. A resposta se deu a partir das pessoas, dos espaços alternativos e das redes sociais. Quando as pessoas queriam informação sem manipulação recorriam até esses espaços das organizações que nos acompanham.

Houve também certo peso o fato de serem estudantes os presos, pertencentes a estruturas organizadas. Em primeiro lugar, porque já temos experiência na condução destes processos, na forma de nos comunicar. Queriam nos apresentar como vândalos e criminosos, mas as pessoas nos conhecem e sabem que respondemos com argumento, conhecimento, dados e de forma humana. Inclusive, de forma acadêmica, em contraposição ao despreparo das autoridades. E isso é algo chocante. Muito chocante.

Há muita esperança por detrás do ato de vocês. Quais os planos para o futuro?

Vejo que há muito trabalho. Há muita esperança, mas precisamos arregaçar as mangas. Mas manter a manifestação nas ruas, com mais de um mês de mobilizações, em meio a uma pandemia, com lideranças presas, reafirmando nossas convicções e acompanhando nosso povo, tudo isso obviamente demandará muito trabalho.

Agora temos uma campanha de desfiliação do Partido Colorado em curso. Porque uma de suas práticas é a filiação de mortos, de pessoas que se encontram em outros países, de estrangeiros ou de pessoas que não lhes tenham dado autorização. Eles estão tendo que se expor, o que vem sendo positivo. A população está demonstrando uma crescente aversão aos colorados, o que tem feito com que recorram à violência. O que está sendo questionada é uma estrutura de 70 anos e tudo o que representa em termos de dinheiro, de muita força policial e muita força judicial.

Eles são o passado, a ditadura. Do outro lado estamos nós que viemos de uma época um pouco mais democrática.

A juíza Hilda Benítez Vallejos que esteve por detrás da criminalização de vocês não é somente uma filiada, mas uma militante ativa do Partido Colorado. Foi um julgamento completamente direcionado.

Sim, temos fotos dela abraçada com os donos do Partido Colorado, em camionetes vermelhas, com camisetas e bandeiras vermelhas. Além disso, há um prontuário criminoso, sua relação com bandos. Os promotores que nos processaram são filhos de colorados, vinculados à juíza também. Todos eles seguem esta linha de interesses econômicos e políticos. Portanto, isso está muito longe de ser um processo imparcial.

Tomam como prova o que não é prova, inventam um processo, patrocinam uma campanha de ódio comunicacional e de castigo. E quando vais analisar o que está por trás disso são perfis criminosos. O que estão tratando é de se manter a todo custo em seus espaços de poder e de decisão, porque chegando a haver uma mudança, pelo prontuário que têm, são eles os que vão terminar atrás das grades.

E como ficam as eleições municipais de 10 de outubro?

As eleições estão marcadas para outubro, mas o Partido Colorado está empenhado em fazer com que sejam adiadas devido ao nível de repúdio que alcançaram. Buscam evitar as urnas, utilizando como desculpa a pandemia, mas sabemos que o que temem é o rechaço, evidenciado pelas pesquisas. É isso o que torna insustentável, para eles, a manutenção da data.

A campanha de criminalização com que trataram de mostrar força, apresentando os manifestantes como vândalos e criminosos, para manter-se no domínio a todo o custo foi, portanto, contraproducente e agora está lhe cobrando um alto preço.

Diante disso, precisamos trabalhar ainda mais, levantar a voz e garantir a vitória da oposição, para que não voltem a ganhar os mesmos assassinos e genocidas que tanto mal fizeram ao Paraguai e ao nosso povo.





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