Pelo Mundo

Empate técnico no Uruguai, com leve vantagem para a coalizão de direita

 

25/11/2019 12:30

 

 
Quando as duas torcidas comemoravam nas ruas uma vitória que tardava em chegar, o árbitro (no caso, o presidente da Corte Eleitoral) suspendeu o jogo. A diferença entre os candidatos Luis Lacalle Pou e Daniel Martínez na apuração, até aquele momento, era tão pequena que a definição dependerá dos chamados “votos observados”.

As pesquisas e a mídia hegemônica dão a direita Lacalle Pou como vencedora virtual do pleito, mas também é preciso dizer que, mais uma vez, a militância da Frente Ampla redobrou o esforço e a esperança, superou o pessimismo e a burocracia do partido, para manter vivo o sonho de um quarto governo consecutivo da coalizão.

O resultado final será conhecido entre quinta-feira e sexta-feira (28 e 29 de novembro), de acordo com o presidente do Corte Eleitoral, José Arocena, mas o candidato da direita, que lidera a chamada “coalizão multicolorida”, tem uma pequena vantagem entre os votos computados, de cerca de 30 mil votos (0,9% de diferença). A Corte não anunciou um vencedor oficial, porque a diferença é menor que os votos que ainda faltam ser apurados, os chamados “votos observados”, que são o das pessoas que votam em zona eleitoral diferente da onde estão inscritas.

No primeiro turno, o líder Daniel Martinez obteve mais de 253 mil votos a mais que Lacalle Pou, de um total de 2,4 milhões de eleitores. Lacalle é o líder do Partido Nacional e chega ao segundo turno à frente de uma coalizão multicolorida, com todos os partidos da direita contra a Frente Amplio, de centro-esquerda, que governa o país por três mandatos consecutivos, um total de 15 anos.

No mapa da votação do primeiro turno, em 27 de outubro, a Frente Ampla mostrou a perda de votos nos departamentos de fronteira com o Brasil, e houve uma transferência de votos tradicionalmente identificados com a centro-esquerda para a extrema-direita, com uma agenda especial para capturar os fanáticos evangélicos, mas também os militares e reacionário, entusiasmados com o novo partido Cabildo Aberto, que é liderado pelo ex-comandante do Exército Guido Manini Ríos, e apoiado por Jair Bolsonaro. Manini terminou o primeiro turno surpreso ao receber mais votos do que o tradicional Partido Colorado.

O chamado bloco “multicolor” não é outra coisa senão a conjunção dos setores oligárquicos com o neoliberalismo dos Chicago boys e uma ultradireita com forte apelo militar, incluindo componentes fascistas em sua formação. A direita liberal, uma vez mais, volta a fazer aliança com setores protofascistas na hora de ordenar a casa.

Nas eleições de 2004, quando o presidente Tabaré Vázquez foi eleito pela primeira vez, a Frente Ampla interrompeu 170 anos de governos dos partidos tradicionais, o Partido Nacional e o Partido Colorado.

Dessa vez, a Frente Amplio, de centro-esquerda, busca de um quarto governo consecutivo – desta vez, sem maioria legislativa –, enquanto o Partido Nacional, segundo no primeiro turno eleitoral, precisava dos colorados e da extrema direita. O objetivo da coalizão multicolorida era interromper o ciclo progressista no Uruguai, e com a ajuda da imprensa hegemônica, impedi-la de chegar ao esse quarto mandato. Aparentemente, eles conseguiram.

O Partido Nacional alcançou o segundo turno como favorito, sem sequer mostrar um projeto de país, e com uma campanha de desqualificação da Frente Amplio. Por quase um mês, houve muito discurso, mas quase nada foi dito. A extrema direita sim foi ouvida e fez seus ataques, enquanto Lacalle Pou evitou se comprometer com políticas, e sem explicar o lugar desse discurso de ódio em um possível governo dele.

Em novembro, nos muros de Montevidéu, surgiram pichações latino-americanistas entre as ruas cheias de propaganda eleitoral: rebeliões sociais contra os pacotes neoliberais começaram a explodir em toda a região. A anestesiada militância da Frente Ampla começou a acordar, depois de não conseguir administrar a liderança para impor uma vitória maior de Daniel Martínez no primeiro turno eleitoral.

Em quase 15 anos de governo, a Frente Amplio conseguiu reduzir a desigualdade, mostrou progresso no sistema educacional secular, público e gratuito, além de políticas de gênero, aumento dos salários reais dos trabalhadores e até diminuição da perversa dependência econômica com relação aos seus grandes vizinhos, Argentina e Brasil, algo fundamental para garantir a paz social e a estabilidade econômica. Mas depois de 15 anos de governo, também se esqueceram muitas coisas.

Nesta votação, Daniel Martínez venceu apenas nos departamentos de Montevidéu e Canelones – onde reside quase metade da população uruguaia –, enquanto nos demais houve vantagem de Luis Lacalle Pou. Em alguns casos, como em Paysandú e Salto, essa diferença foi muito pequena.

Na terça-feira (26/11), começará a recontagem dos votos, que considerará os votos observados. Os resultados oficiais serão conhecidos entre quinta e sexta-feira. Também deve-se ter em mente que os votos anulados podem ser apelados pelos delegados dos partidos, o que também pode significar alguma diferença na porcentagem final.

A crise da democracia

É preciso levar em conta que a crise global gerou uma quebra geral de confiança na democracia. Em 27 de outubro, no primeiro turno das eleições, quanto também houve eleições legislativas, o partido de extrema direita Cabildo Aberto conquistou 11 deputados e 3 senadores, uma bancada que Luis Lacalle Pou precisará para governar.

Em um país seguro, a mídia e a direita estavam construindo o imaginário coletivo de que o Uruguai era um país inseguro, e exagerava problemas reais, como os 9% de desemprego, o alto custo de vida, problemas de moradia, entre outros existentes nesse país de pouco mais de três milhões de habitantes.

Prova disso é o resultado do plebiscito que se realizou junto com o primeiro turno eleitoral, sobre uma reforma constitucional para permitir a atuação do Exército nas ruas, em tarefas de segurança pública. A proposta fracassou, mas obteve 43% de votos.

O aparato midiático, administrado pela grande mídia, evangélicos e Opus Dei, restabeleceu nas chamadas redes sociais os debates sobre aborto, matrimônio igualitário direitos e noções de família. O líder da extrema direita, o ex-general Guido Manini Ríos, deixou claro que é necessário restaurar a ordem patriarcal: “já não é mais uma questão de operário contra patrão, empregado contra empregador; agora é a esposa contra o marido e os filhos”.

A direita vendeu um produto: a mudança. “É bom mudar”, “#AgoraSim”, entre outros slogans. Falou-se muito em “alternância plural”, como um conceito que o próprio Lacalle Pou definiu no final da campanha. Uma mudança em direção, mas para onde? O difícil não é supor o que eles conseguirão o que estão procurando, mas sim como o farão, porque o documento empresarial, repressivo e conservador da coalizão multicolorida – chamado “Compromisso pelo país” – dá poucos detalhes sobre como será essa mudança.

Ninguém sabe o que Lacalle Pou concordou ao montar a aliança de partidos de direita e ultradireita, mas provavelmente não foram apenas cargos em ministérios, agências e empresas do Estado. Lacalle disse que não revogará as leis da chamada agenda de direitos, mas isso não é suficiente. Todo mundo sabe que existem muitas maneiras de impedir sua validade.

Um triunfo do bloco multicolorido de Todos contra a Frente Ampla significará a perda de conquistas populares, trabalhistas e sociais. Lacalle Pou tem e terá como uma de suas principais armas o poder da mídia, porta-voz do poder factual e do punitivismo judicial, muito distanciado do social.

Para a população, nenhuma das alternativas não eram seguras. Um quarto governo da Frente Ampla, que seria sem maioria legislativa, ou um governo do Partido Nacional que precisará dos colorados e da extrema direita para governar, em uma região onde as botas e balas dos militares vêm soando novamente, com o terrorismo de Estado e a pressão do FMI e do secretário-geral da OEA, representante do império norte-americano.

Nesse contexto, os temas latino-americanos passaram a ter maior impacto que no primeiro turno. A libertação de Lula foi seguida pelo golpe racista, xenófobo e pró-americano na Bolívia, e de notícias cada vez mais sangrentas de repressão no Chile. Juramento com bíblias e novos testamentos, a wiphala em chamas, os olhos que as espingardas chilenas cegaram com seus tiros, mais de duzentas vítimas.

Não são fáceis os tempos que estão chegando, para aqueles que têm convicções democráticas. As esquerdas – partidárias ou não – perceberam que devem se abrir à autocrítica e a discutir seriamente como desenvolver uma abordagem que permita o diálogo – especialmente com os jovens – com todas as visões anticapitalistas, e que não evite falar sobre a existência da ordem patriarcal, racista e colonial.

Durante a campanha, também houve terrorismo na mídia. O presidente do Centro Militar, coronel Carlos Silva Valiente, disse que a busca por desaparecidos na ditadura (1973-1985) é um “desperdício de dinheiro e uma bobagem”, disse que não houve ditadura no Uruguai e questionou os programas sociais do governo da Frente Ampla. Também avisou que há condições para um golpe de Estado no país, porque não há democracia.

Na véspera das eleições, esse mesmo Centro Militar difundiu uma mensagem na qual afirma que “terminará neste pleito o processo de redenção dos direitos e valores do povo oriental, ferido, minado, desprezado por 15 anos de ataques frenteamplistas”.

Será possível manter as águas calmas até a quinta ou sexta-feira?

Ruben Armendáriz é jornalista e cientista político associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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